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Lili Elbe, a transsexual por trás de A Garota Dinamarquesa

Certa vez, Einar Wegener, um grande pintor, posou como modelo para sua esposa e se sentiu incrivelmente confortável em roupas femininas

Pamela Malva Publicado em 18/03/2020, às 14h00

Lili Elbe, a garota dinamarquesa
Lili Elbe, a garota dinamarquesa - Wikimedia Commons

Em 2015, o diretor Tom Hooper lançou um drama biográfico baseado no romance de David Ebershoff. A Garota Dinamarquesa, com o típico sotaque britânico, reproduz a vida e os obstáculos enfrentados por Einar e Gerda Wegener, um casal de artistas.

Casados na Copenhague de 1926, os dois viviam a vida de pintores autônomos, procurando trabalhos e suprindo suas necessidades entre si. Ambos não esperavam que seus nomes ficaram, de fato, marcados na história, mas não pela arte.

Nascido em 1882, na Dinamarca, Einar Magnus Andreas Wegener sempre foi um artista introspectivo. Ele era muito calmo e também muito deprimido. Quando podia, expressava o que sentia em suas obras, pintando e colorindo, mas nunca pessoalmente.

Em meados de 1900, ele conheceu Gerda Gottlieb, uma ilustradora que também fazia trabalhos de pintura, assim como ele. Em pouco tempo, Einar se apaixonou pela moça e, em 1926, os dois se casaram.

Einar e Gerda Wegener, representados por Eddie Redmayne e Alicia Vikander, respectivamente / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

 

 

No final dos anos 1920, Gerda teve uma ideia para um novo quadro e precisava que alguma jovem posasse para ela. Todas suas modelos de costume, entretanto, já estavam ocupadas com outros trabalhos. Ela, então, pensou em uma alternativa que mudou tudo.

Em Einar, Gerda percebeu diversos traços finos e delicados, normalmente presentes em suas pinturas. Com isso, ela pediu que seu marido vestisse algumas peças de roupas femininas e posasse, a fim de usá-lo como modelo.

De início, o artista resistiu ao pedido, não achava que ficaria confortável na posição de modelo. Mesmo assim, por sua esposa, Einar vestiu as roupas femininas e posou, enquanto Gerda pintava. A surpresa veio logo que ele colocou a primeira meia-calça.

Momento em que, no filme, Einar veste roupas femininas / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

 

"Não posso negar, pode soar estranho, mas me senti bem na maciez das roupas femininas", escreveu Einar em seus diários. Foi assim que, lentamente, Lili Elbe nasceu. Esguia e com feições incomuns, Lili era a personificação da transsexualidade de Einar.

Logo, graças ao trabalho como modelo, posando para a própria esposa, o artista encontrou a resposta para um de seus maiores desconfortos. Uma vez Einar, o homem deprimido e introvertido, ele se encontrou em Lili, a modelo expansiva e flutuante.

Em pouco tempo, portanto, Einar passou a usar as roupas femininas com frequência. Era um perfil dele que ele gostava muito, uma personalidade que, até então, seguia escondida em seu âmago fechado. 

No começo dos anos 1930, Einar passou a se apresentar aos outros como Lili. Por diversas vezes, escutou histórias sobre homens iguais a ele, que se sentiam melhor enquanto mulheres, e, em meados daquela década, tomou uma decisão.

Einar completamente caracterizado como Lili no longa de 2015 / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

 

Com o apoio constante de Gerda, Lili se mudou para a Alemanha a fim de passar pelas cirurgias de retirada dos testículos e do pênis. No país, ela encontrou e se instalou no Instituto de Pesquisa Sexual de Berlim, comandando pelo sexólogo Magnus Hirschfeld.

Na época, o instituto fazia pesquisas relacionadas à gênero e sexualidade e, lá, Lili poderia passar pelas cirurgias de redesignação sexual. Assim, ela se submeteu aos mesmos procedimentos que Dora Richter, a primeira transgênera da história.

Logo depois das cirurgias, o caso virou notícia tanto na Dinamarca, quanto na Alemanha. Em outubro de 1930, frente ao novo gênero da artista, um tribunal dinamarquês invalidou o casamento entre Lili e Gerda. Com a separação, a trans conseguiu alterar seu nome em diversos documentos.

Poucas semanas depois de Dora, Lili tornou-se a segunda mulher trans a passar por uma vaginoplastia — enxerto realizado por Dr. Erwin Gohrbandt. A vida pessoal, entretanto, não ia tão bem. Por mais que estivessem separadas, Lili ainda amava Gerda.

Lili representada em uma das muitas pinturas de Gerda, na vida real / Crédito: Wikimedia Commons

 

A artista, todavia, percebeu que seu amado, o esquecido Einar, já não existia mais. Assim, Hans Axgil entrou para a equação, casando-se com Gerda. Lili, por sua vez, conheceu Claude Lejeune, um negociante de artes francês, anos depois de sua transição.

Apaixonada, Lili decidiu que se submeteria a uma cirurgia final, que envolvia um transplante de útero e a construção de uma vagina. Ela queria ter filhos, formar uma família. A falta de tecnologia apropriada, entretanto, fez com que os procedimentos experimentais causassem uma forte reação no corpo da mulher.

Em menos de três meses, seu corpo rejeitou o útero transplantado e Lili sofreu grandes consequências, incluindo infecções. Ela morreu em decorrência de seu estado de saúde, em setembro de 1931. Gerda nunca parou de pintar sua imagem feminina, em homenagem à mulher que Einar um dia foi.


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Magnus Hirschfeld and the Quest for Sexual Freedom, de E. Mancini (2013) - https://amzn.to/2W1GSq8

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