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Lorena e John Bobbitt: o caso de castração que parou os Estados Unidos

Em 1993, Lorena cortou com uma faca o pênis de seu marido; esse feito, no entanto, ficou mais conhecido pela mídia do que a motivação da mulher: os constantes estupros

Isabela Barreiros Publicado em 20/01/2020, às 18h22

Lorena Bobbitt durante o julgamento do caso
Lorena Bobbitt durante o julgamento do caso - Getty Images

Em 1993, um caso bizarro tomou conta dos noticiários dos Estados Unidos. Lorena e John Bobbitt estavam casados há quatro anos, mas a equatoriana e o estadunidense veterano da Marinha não tinham um relacionamento tranquilo — pelo contrário. Em 23 de junho daquele ano, Lorena tomou uma decisão que mudaria a trajetória do casal.

Naquele dia, depois de John voltar bêbado para casa após sair com amigos na cidade de Manassas, nos Estados Unidos, a mulher foi até a cozinha, pegou uma faca de 30 centímetros, voltou ao quarto e, enquanto ele dormia, o castrou.

De acordo com o testemunho de Lorena, naquele dia, ela havia sido estuprada não uma, mas duas vezes. Ainda assim, aquele também não era um caso isolado. Testemunhas que trabalhavam com a moça em um salão de beleza alegaram ter visto hematomas em seus braços e pescoço, constantemente sendo vítima de violência doméstica.

Faca usada na mutilação / Crédito: Getty Images

 

Além disso, inúmeras ligações repentinas para a polícia foram mencionadas. Muitos amigos de John disseram que ele comentava sobre forçar a esposa a fazer sexo, e também ameaçar deportá-la. Depois do acontecimento, ele ainda foi condenado por violências cometidas contra duas mulheres diferentes.

O pênis arrancado tornou-se manchete constante no país. A reconstrução do membro causava espanto e virou piada tanto na mídia quanto na sociedade norte-americana. O que causa indignação em Lorena é exatamente esse ponto de vista: “o que é mais valioso para os senhores? Um pênis ou uma vida?”, perguntou a advogada da equatoriana ao júri durante o julgamento.

Durante os anos 90, os Estados Unidos passaram a conviver com julgamentos midiáticos, que passavam ao vivo na televisão. Isso fez com que muitos dos processos ficassem sujeitos às interpretações tanto da mídia quanto do senso comum da sociedade estadunidense.

John durante o julgamento / Crédito: Getty Images

 

A violência doméstica nunca foi o tema central a ser tratado. O modo como a mulher jogou o pênis ensanguentado de seu marido pela janela de seu carro parecia um tema muito mais interessante a ser explorado pela imprensa. E foi isso que aconteceu.

“Eles sempre se concentraram nisso. Era como se todos tivessem esquecido ou não se importassem com os motivos pelos quais eu fiz aquilo. Essa história é sobre uma vítima e uma sobrevivente, e sobre o que está acontecendo em nosso mundo hoje”, disse Lorena em entrevista ao The New York Times.

A reconstrução do pênis também ficou famosa. O responsável pela cirurgia, o Dr. Sehn, disse que ficou receoso quanto à possibilidade de reparo. “Mas estava intacto e muito bem talhado, em um corte muito limpo. Chegou numa dessas bolsas de plástico herméticas, guardada por sua vez numa sacola de papel de restaurante”, relembrou.

Lorena durante o julgamento / Crédito: Getty Images

 

O julgamento do caso durou dois meses. No primeiro, o homem foi julgado por agressão sexual. No entanto, foi considerado inocente pelo júri, mesmo que tivesse admitido empurrar Lorena algumas vezes. Na segunda sessão, foi ela a julgada por agressão. Nenhum dos julgamentos, porém, chegou a gerar consequências reais na vida dos dois.

Depois do evento que marcou suas vidas, Lorena continuou trabalhando no salão de beleza que já era seu emprego anterior ao acontecimento. Casou-se novamente, teve uma filha, trabalhou como corretora de imóveis e criou a Lorena’s Red Wagon, uma ONG que auxilia vítimas de violência doméstica.

Lorena atualmente / Crédito: Getty Images

 

John ficou famoso pelo pênis meio Frankenstein e passou a estrelar filmes pornográficos. O sucesso, porém, não durou muito — desapareceu quase por completo após poucas participações. Chegou até mesmo a administrar um bordel, mas ainda assim caiu no esquecimento, mesmo que tentasse ao máximo provar sua “fama”.


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