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Luciano Faggiano, o homem que encontrou — acidentalmente — tesouros do século 5 dentro de seu imóvel

Surpreendente descoberta aconteceu após inquilinos reclamares de um vazamento de água

Fabio Previdelli Publicado em 15/04/2020, às 16h00

Foto do interior do Museo Faggiano
Foto do interior do Museo Faggiano - Divulgação

Nascido em uma família de agricultores e ajudante no restaurante de seu tio, Luciano Faggiano sempre teve uma certa afinidade com a gastronomia. Aos 17 anos, ele trabalhou no histórico restaurante londrino Quo Vadis e tempos depois acabou abrindo sua própria pizzaria chamada Moby Dick, que ficava em Torre dell'Orso, cerca de 30 quilômetros de sua cidade natal, Lecce.

Porém, quando o estabelecimento à beira-mar fechou em 1987, ele decidiu deixar o mundo culinário de lado e passou a investir em locação de imóveis e se tornou proprietário de alguns espaços.

Pouco sabia, mas essa mudança transformaria sua vida para sempre. Tudo começou quando o destino resolveu intervir, em 2000. Na ocasião, Luciano recebeu reclamações de seus inquilinos sobre um problema de humidade na parte térrea de seu prédio.

Foto de Luciano Faggiano / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na época, os planos do locador envolviam resolver o problema com o vazamento e abrir uma trattoria assim que os inquilinos se mudassem, pois o turismo começava a crescer na região. Então, ele começou a abrir um espaço entre os canos de esgoto... foi quando a grande surpresa apareceu.

Ele e seus filhos — Andrea, Marco e Davide — descobriram um mundo oculto que remete ao século 5 a.C.. “Encontramos muitas coisas – 5.000 peças – como moedas, um anel de ouro de um bispo com 33 pequenas pedras de esmeralda, pratos de cerâmicas, brinquedos infantis feitos de terracota, estátuas e um túnel subterrâneo que leva ao anfiteatro”, explicou Andrea.

Algumas peças de cerâmica encontradas no local / Crédito: Divulgação/ Museo Faggiano

 

Alguns objetos ajudaram a lançar uma luz sobre os antigos habitantes da região por meio de diversas épocas, como o Império Romano, a Idade Média e o Renascimento. Para se ter uma ideia da importância do achado, alguns dos artefatos mais antigos foram deixados por membros da tribo Messapi, que viveu em Salento nos tempos antigos.

Enquanto os Faggianos faziam toda a escavação, o ato era acompanhado de perto pelo Dr. Tanzalla, um arqueólogo nomeado pelo governo. Na Itália, qualquer coisa encontrada embaixo da terra pertence ao governo, independente de quem é o dono da propriedade.

Portanto, segundo Andrea, milhares de artefatos foram levados para o Museo Sigismondo Castromediano e Castello di Lecce. No entanto, os Faggianos conseguiram recuperar alguns itens e, assim que os inquilinos se mudaram, ao invés da trattoria, eles abriram um museu independente de quatro andares no local da escavação. "Fui a Londres para estudar idiomas, agora administro o museu com meu irmão", disse Andrea.

Escadaria que dá acesso a uma das áres do museu / Crédito: Divulgação/ Museo Faggiano

 

Quem visita o local, garante que fica encantado com a velha cidade, situada na parte sul da região de Puglia — onde simbolicamente seria o calcanhar da bota italiana. O que também chama a atenção por lá é um tanque de água que foi esculpido em uma rocha e, mais tarde, foi usado como um túnel de fuga e uma tumba para enterros comuns, onde o anel do bispo jesuíta foi encontrado.

Ao passear pelo museu, também é difícil não ficar hipnotizado ao caminhar sobre o chão de acrílico transparente que cobre a boca de um poço de 8 metros de profundidade. Ao seu lado, há a seguinte descrição: “Aqui existe a presença constante da água vinda do rio subterrâneo Idume, que corre sob Lecce e depois flui para a localidade marítima de Torre Chianca, localizada a 12 quilômetros do Lecce”.

Chão transparente feito com placas de acrílico / Crédito: Divulgação/ Museo Faggiano

 

Apesar da troca de planos, o sonho da tratorria nunca morreu, muito pelo contrário. Com um brilho nos olhos, Luciano e Andrea explicam que o projeto do restaurante ganhou vida após Luciano adquirir o prédio ao lado.

“Meu pai prefere que as pessoas visitem o museu e depois visitem a trattoria”, disse Andrea. "É como um serviço que você presta às pessoas - as duas coisas são importantes”. Luciano, porém, resistiu à tentação de cavar embaixo da trattoria. "Com certeza existem ruínas por baixo, porque é a porta ao lado", teoriza o filho.

Luciano nomeou sua trattoria de Quo Vadis, em referência ao famoso restaurante onde trabalhou, e garante que ainda tem grandes planos para as suas duas propriedades: ele espera que o restaurante — com assentos de frente ao local da escavação — crie uma sensação de que a comida traça as raízes de Lecce.

Área externa da trattoria / Crédito: Divulgação

 

“Está tudo conectado. Tanto a comida como cultura”, diz Luciano. "Em todos os museus há história, mas a comida também tem sua própria história ... quero que as pessoas entendam ela a partir da culinária local", concluiu.


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