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Luta contra a escravidão infantil: A trágica história de Iqbal Masih

Aos 4 anos, o jovem paquistanês começou a trabalhar em uma fábrica de tapetes. Anos depois, ele chocaria o mundo com seus relatos

Fabio Previdelli Publicado em 13/02/2021, às 10h00

O jovem paquistanês Iqbal Masih
O jovem paquistanês Iqbal Masih - Wikimedia Commons

Uma questão presente desde da Antiguidade, o trabalho infantil, ainda hoje, parece uma coisa longe de ter um fim. Por décadas e décadas, crianças vem perdendo suas juventudes por passarem horas a fio dento de fábricas, indústrias e fazendas.  

Apesar de muitas pessoas romantizarem esse conceito de “responsabilidade desde a idade terna”, essa situação precisa mudar: muitos pequenos comprometem seu futuro em troca de pequenas quantias.  

Um período que impulsionou o trabalho infantil foi o início da Primeira Revolução Industrial, no século 18, quando muitas famílias passaram a viver na cidade e, por conta de necessidades financeiras e outros fatores, seus filhos passaram a trabalhar em condições precárias, perdendo assim toda sua infância.  

Apesar de todos os fatores negativos, a prática era vista como um ato 'comum' até a virada do século 20, quando passou a existir uma discussão maior sobre o direito universal à educação e o direito da criança e dos adolescentes. Porém, a situação ainda está longe de um ideal.  

Segundo dados de 2016, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência ligada à ONU, 152 milhões de crianças — entre 5 e 17 anos —, em todo o mundo, estavam sendo obrigadas a trabalhar, sendo que, ao menos 10 milhões desse contingente eram vítimas de ‘trabalho’ análogo à escravidão.  

Apesar de ser um debate relevante, o trabalho escravo infantil só passou a ser discutido com mais afinco nos anos 1990, quando o caso Iqbal Masih caiu no conhecimento popular. 

Quem foi? 

Oriundo de uma família cristã de baixa renda, Iqbal Masih nasceu em 1983. na cidade de Muridke, em Punjab, no Paquistão. Vítima de trabalho forçado, ele foi colocado para trabalhar aos 4 anos por seus pais para pagar a dívida de 600 rúpias emprestadas de um proprietário de uma fábrica de tapetes. 

Todos os dias, o jovem se levantava antes do amanhecer e percorria as estradas rurais escuras até a fábrica, onde ele e a maioria das outras crianças eram fortemente amarradas com correntes aos teares, para evitar a fuga. 

Percebendo que a dívida da família não seria paga tão cedo, Masih escapou e se libertou, aos 10 anos, após saber que o trabalho forçado foi declarado ilegal pela Suprema Corte do Paquistão. Porém, Iqbal sabia que muitos de seus colegas não teriam a mesma chance. 

Com isso, foi até as autoridades locais e expôs a máfia dos tapetes. Mesmo atrofiado e curvado devido aos 6 anos de desnutrição que passou trabalhando na fábrica, ajudou mais de 3.000 crianças paquistanesas, que estavam em trabalho forçado, a escaparem para a liberdade. 

Além disso, passou a visitar outros países, como a Suécia e os Estados Unidos, para compartilhar sua história, além de encorajar outras crianças a se unirem na luta contra a escravidão infantil. Em seus discursos, sempre deixava claro seu desejo de se tornar advogado. Ansiava por ajudar aqueles que sofrem o mesmo que ele sofreu.  

Em 1994, Masih recebeu o Prêmio Reebok de Direitos Humanos, em Boston. Em seu discurso, ele declarou: “Eu sou um daqueles milhões de crianças que estão sofrendo no Paquistão devido ao trabalho forçado e infantil, mas tenho sorte devido aos esforços de Frente de Libertação do Trabalho Escravo (BLLF). Eu estou diante de vocês aqui hoje. Depois da minha liberdade, entrei para a Escola BLLF e estou estudando por lá agora. Para nós, crianças escravas, Ehsan Ullah Khan [fundador da BLLF] e a Frente de Libertação do Trabalho Escravo fizeram o mesmo trabalho que Abraham Lincoln fez pelos escravos da América. Hoje, vocês estão livres, e eu também”. 

Trágico fim 

Enquanto visitava parentes em Muridke, no Paquistão, em 16 de abril de 1995, num domingo de Páscoa, Iqbal foi morto a tiros à mando da máfia dos tapetes. Ele tinha apenas 12 anos na época.

O jovem já havia recebido diversas ameaças por suas denúncias terem ajudado a fechar diversas fábricas que usavam do trabalho infantil. Seu funeral foi assistido por ,aproximadamente, 800 pessoas.  

Após sua morte, as elites econômicas paquistanesas responderam ao declínio das vendas de tapetes negando o uso de trabalho infantil em suas fábricas. Além do mais, o alto escalão de empresários contratou a Agência Federal de Investigação (FIA) para perseguir e prender brutalmente ativistas que trabalhavam para a Frente de Libertação do Trabalho Escravo. 

Posteriormente, a imprensa paquistanesa realizou uma campanha de difamação contra a BLLF, argumentando que as crianças trabalhadoras recebiam altos salários e dispunham de condições de trabalho favoráveis.


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