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Maconha medicinal: os desafios e as possibilidades do mercado de cannabis no Brasil

Em março de 2020, a fabricação de remédios que usam derivados de maconha em solo nacional foi legalizada, iniciando um novo ramo farmacêutico

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 09/02/2021, às 12h25

Fotografia ilustrativa de um pé de maconha
Fotografia ilustrativa de um pé de maconha - Divulgação/Pixabay

Segundo uma matéria da Folha de São Paulo em 2019, cerca de 40 países ao redor do mundo já haviam legalizado a maconha medicinal em algum nível. 

A lista incluía o Brasil, que passou a permitir o uso de medicamentos que utilizam derivados da cannabis em 2016, todavia, esse processo ainda era burocrático e demorado, pois cada remessa encomendada precisava aguardar por 90 dias para receber uma aprovação da Anvisa. 

Em março de 2020, todavia, isso mudou. Enquanto os utilizadores do produto eram obrigados a comprar sua maconha medicinal em laboratórios internacionais, a partir desse ponto a fabricação ganhou autorização para ocorrer em solo nacional. A mudança também iniciou um novo mercado no Brasil - o da cannabis medicinal. 

Onde é utilizado 

De acordo com o site da auto-denominada rede de médicos CanTera, composta por especialistas dispostos a ajudar pacientes que buscam medicamentos com derivados da cannabis a passarem em clínicas que os receitam, existem muitas condições que podem ser beneficiadas através do tratamento com esses substâncias. 

Eles listam esclerose múltipla, epilepsia, autismo, anorexia, PTSD, ansiedade, dores crônicas, Alzheimer e Mal de Parkinson, além de mencionar que o TSH, um dos derivados da maconha, ajuda a amenizar os efeitos colaterais desagradáveis provocados pela quimioterapia, encarada por pacientes com câncer. 

De acordo com a Forbes, os medicamentos produzidos pela HempMeds, empresa que usa substâncias derivadas da cannabis como matéria-prima, irão chegar nas farmácias brasileiras na primeira metade de 2021. 

Todavia, ainda existem desafios pela frente, como observado pela brasileira Caroline Heinz, que é co-CEO da empresa: “O Brasil e o México [país no qual a HempMeds também está presente] possuem muito potencial para se tornarem mercados gigantes. Porém, mesmo que o plantio seja liberado, vai demorar para os produtores que têm experiência no assunto passarem a plantar, afinal, é necessário entender o clima do país”, explicou ela em entrevista à Forbes

“Enquanto o mercado não é estruturado e não possibilita uma produção, existem as plantações clandestinas, vários óleos que não se sabe o que tem dentro, os quais são difíceis de saber a procedência. Tudo isso é uma barreira muito grande”, acrescentou Heinz ainda. 

Apesar desses obstáculos, o ramo da maconha medicinal tem o potencial de movimentar bilhões aqui no Brasil.

Um estudo da New Frontier Data, por exemplo, chegou à conclusão que no melhor dos cenários (em que as restrições causadas por preconceito e desinformação sejam superadas), o país pode construir um mercado capaz de movimentar 4,7 bilhões de reais nesses primeiros 36 meses de legalização. 

Futuro possível 

Para dar uma perspectiva, nos Estados Unidos, onde a questão já está mais avançada, com o uso de cannabis no contexto terapêutico sendo permitido em 35 estados, e o uso recreativo em 16, o instituto Arcview Market Research estimou que serão movimentados 20 bilhões de dólares em 2021. 

A legalização do uso de maconha (seja medicinal ou recreativo) é, inegavelmente, uma fonte de lucro, além de tornar seu uso mais seguro através da regulamentação.

Os únicos perdedores nesse movimento da cannabis de saída da ilegalidade são, no fim, os traficantes que deixam de monopolizar o mercado.