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Madame Ching: a prostituta chinesa que se tornou pirata

Capturada e explorada sexualmente na infância, a comandante da frota Bandeira vermelha dominou o mar do sul da China

Victória Gearini Publicado em 01/10/2019, às 20h00

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Durante o final do século 17 e início do século 19, o mar do sul da China foi dominado pela famosa pirata Madame Ching. Considerada uma figura histórica importante, ela comandou a frota da Bandeira Vermelha, durante a dinastia Qing

Nascida em 1775, em Guangzhou, na China, sob o nome de Jehng Sih, foi capturada por piratas e vendida a um bordel aos 15 anos de idade. Durante o tempo que foi forçada a se prostituir, Madame Ching obteve informações valiosas de seus clientes, fato que mais tarde lhe ajudou a montar um esquema de contrabando.

Em 1801, virou dona de um bordel e atraiu a atenção do pirata Cheng I, um dos mais temidos de sua geração. Respeitado por todos, Cheng comandava a frota da Bandeira Vermelha e obteve informações importantes com a Madame Ching.

Logo viraram um casal e decidiram unir forças. Antes de assinarem os papéis do casamento, a jovem usou de sua astúcia para propor um acordo pré-matrimonial em que dizia que seria sua co-capitã e teria direito igual a uma parte da frota de seu marido.  

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Ao todo foram seis anos aterrorizando os mares e extorquindo os antigos cientes ricos de Ching, até que em 1807, Cheng morreu aos 42 anos perdido no mar. Seu corpo nunca foi encontrado. De acordo com a professora de história chinesa da Universidade de Stanford, Dian H. Murray, a viúva ficou cercada de incertezas e dúvidas após a morte de seu marido.

“Quando a perspicácia dos negócios começaram a aparecer, foi o momento em que ela se tornou chefe geral de toda a confederação”, explica a especialista em seu livro Pirates of the South China Coast, 1790-1810.

A historiadora ainda explicou que Madame Ching usou este fato para se promover e aumentar seu poder como comandante. A pirata casou-se com seu filho adotivo, chamado Cheung Po Tsai, que estava prestes a suceder seu pai. Além disso, organizou diversas reuniões com membros da família e poderosos aliados, a fim de estreitar laços e unir forças.

A capitã chegou a comandar mais de 1.800 navios e ter mais de 100 mil operários. Com todo poder em suas mãos, implementou novas regras, que foram consideradas rígidas entre os piratas. Por exemplo, todo ato de desobediência e deslealdade à consequência seria a morte.  Além disso, ela proibiu o estupro e qualquer um que descumprisse sua ordem, seria decapitado.  

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Apelidada de o Terror do Sul da China, Madame Ching era considerada cruel e destemida. Por anos foi uma ameaça para a Inglaterra, França, Portugal e Império Qing. Desesperado por não conseguir se livrar da pirata, o imperador chinês lhe propôs um acordo: desmontar a frota e sair impune de seus crimes.

Em 1810, as alianças de Madame Ching estavam rompendo, mas ninguém de fora sabia sobre esta situação. Usando novamente sua astúcia, ela ofereceu um novo acordo ao imperador Qing: liberdade para ela, o marido e qualquer outra pessoa que ela escolhesse. Além disso, receberiam uma parte dos indultos reais.

Como combinado, seu marido foi designado ao comando de uma nova frota de elite, caçadora de piratas, inclusive foi responsável por capturar integrantes que sobraram da Bandeira Vermelha.  Já Madame Ching viveu por mais de três décadas como realeza, até que em 1844 veio a falecer de causas desconhecidas, aos 69 anos.