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Madeleine Pauliac, a médica que revelou os estupros do Exército Vermelho

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, a doutora esteve em missões na Rússia e Polônia, durante operações da Cruz Vermelha da França

Vanessa Centamori Publicado em 10/05/2020, às 11h00

A médica Madeleine Pauliac
A médica Madeleine Pauliac - Wikimedia Commons

Em 1945, seis meses após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Polônia estava ocupada não mais pelos alemães de Hitler, mas por tropas russas. A médica de 27 anos, Madeleine Pauliac, tinha se juntado à resistência francesa, sob o lado dos aliados.

A ideia era que ela fosse para a Polônia, ajudar a repatriar quaisquer prisioneiros de guerra franceses descobertos pelos soviéticos. Em 19 de abril, foi nomeada médica-chefe do Hospital de Varsóvia, instituição que resistia em meio às ruínas da guerra.

Liderou então uma missão da Cruz Vermelha da França, chegando a completar na Polônia e na União Soviética, mais de 200 operações. Pauliac fazia parte do Esquadrão Azul, uma unidade voluntária feminina de ambulância da organização.

Madeleine Pauliac / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Quando esteve na Polônia, um caso a chocou profundamente. Em um dia nevoso no país europeu, uma freira a levou até o seu convento, desesperada. A médica arriscou a própria vida para seguir a irmã, cruzando uma floresta de noite.

Naquela situação, os soldados do Exército Vermelho representavam grande perigo, sendo recorrentes agressões sexuais e estupros por parte dos combatentes. Mas Pauliac realizou a travessia pela mata com sucesso e segurança. 

Violência sexual

Quando chegou no convento, ela descobriu que uma das irmãs estava prestes a dar à luz. Várias outras freiras também estavam em estágios avançados de gravidez. As gestações eram resultado de inúmeras violações sexuais, que as mulheres sofriam diariamente. 

Os soldados russos agrediam não só as freiras, como também mulheres de outras classes, com as quais a médica Madeleine Pauliac se deparava em maternidades polonesas. Algumas das vítimas eram agredidas até mesmo durante o parto ou depois dele. Muitas não sobreviviam para fazer denúncias. 

Os ataques eram realizados por gangues enormes de militares soviéticos, que operavam na região, praticando estupros grupais e cruéis. Sobre os abusos, a doutora escreveu na época: "Havia 25 delas [freiras]. 15 foram estupradas e mortas pelos russos, as dez sobreviventes foram estupradas, cerca de 42 vezes, outras 35 ou 50 vezes cada ...". 

Ainda segundo a médica, muitas das irmãs vinham pedir conselhos à francesa e solicitavam abortos, usando termos velados. Além dessa situação complicada e triste, Pauliac teve que enfrentar com o Esquadrão Azul a escassez médica, como a falta de água e equipamento, tendo de usar jornais como curativos.

Madeleine Pauliac e o Esquadrão Azul / Crédito: Divulgação 

 

Da história pro cinema 

Em 19 de junho de 1945, Pauliac escreveu e enviou um relatório sobre o que viveu na Polônia e Rússia para Danzig a Étienne Burin des Roziers, chefe de gabinete do General de Gaulle. A esperança da mulher era conseguir repatriar os franceses e ajudar as mulheres violentadas.  

Em 2016, as anotações de missão da médica foram compiladas por seu sobrinho, o produtor Philippe Maynial, que depois conduziu mais pesquisas sobre o assunto e lançou um filme sobre a história, um longa intitulado Les Innocentes (Agnus Dei, no Brasil). 

Segundo levantamento realizado por Maynial, o General de Gaulle não respeitou o acordo sobre o repatriamento dos franceses. Madeleine Pauliac e suas companheiras tiveram então que negociar por conta própria, sob o risco de perderem suas vidas, com os soldados estupradores, que estavam sempre bêbados e enraivecidos.

"Madeleine até se passou como prima de um piloto da esquadra Normandie-Niemen, querida pelos russos, para salvar os franceses", afirmou o produtor. A médica, apesar das dificuldades, dedicou a vida inteira para ajudar seus compatriotas, não hesitando em “sequestrar” os franceses feridos de hospitais russos.

Cena de Les Innocentes (Agnus Dei, no Brasil), filme de 2016 / Crédito: Divulgação 

 

Segundo estudos poloneses, realizados após o colapso do comunismo na Polônia, a estimativa é que cerca de 100 mil mulheres polonesas tenham sido estupradas por soldados soviéticos.

Com o Esquadrão Azul, Madeleine Pauliac tentou mudar essa realidade, percorrendo mais de 40 mil quilômetros no total para socorrer franceses. A heroína morreu em um acidente em uma estrada, durante uma de suas jornadas, aos 33 anos, em 13 de fevereiro de 1946, perto de Varsóvia. 


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