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Matérias / Homem de Somerton

Mais de 70 anos depois, identidade do Homem de Somerton pode ter sido descoberta

Em dezembro de 1948, um homem foi encontrado morto em uma praia na Austrália. Desde então, sua identidade jamais foi descoberta

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 30/07/2022, às 00h00 - Atualizado às 01h00

Fotografia de o 'Homem de Somerton' - Domínio Público
Fotografia de o 'Homem de Somerton' - Domínio Público

Era 1º de dezembro de 1948 quando banhistas encontraram um homem morto na praia australiana de Somerton. O sujeito estava bem vestido e não possuía qualquer sinal de trauma. Sua identidade e a causa de seu óbito permanecem uma incógnita.

Conforme as investigações se aprofundavam, o mistério sobre o Homem de Somerton — como passou a ser chamado — também se tornavam cada vez mais intrigantes. Tudo isso se deu não só pela falta de pistas, mas pelo fato daquelas que foram encontradas trazerem ares enigmáticos ao caso. Para se ter uma ideia, um pedaço de papel escrito “Tamám Shud” (ou, ‘Está terminado’, em persa), foi achado em seu bolso. 

Papel com o trecho “Tamám Shud” (ou, ‘Está terminado’, em persa) foi encontrado no bolso do Homem de Somerton/ Crédito: Domínio Público

74 anos depois, um investigador diz ter descoberto a identidade do sujeito. Embora isso coloque fim a parte do mistério, inúmeras outras questão parecem longe de serem respondidas. 

O Homem de Somerton é encontrado 

Na noite de 30 de dezembro, diversos banhistas notaram a presença de um homem encostado em um paredão de concreto na praia de Someston, em Adelaide, na Austrália. Com as pernas estendidas, seus pés estavam levemente cruzados. A figura chamava a atenção por estar de terno e sapatos engraxados em uma noite extremamente quente. 

Segundo relata matéria do All That Interesting, um casal chegou a relatar tê-lo visto movendo os braços para tentar acender um cigarro, mas ele parecia meio molenga, como se estivesse embriagado. Outra testemunha aponta que viu mosquitos zumbindo ao redor de seu rosto e que ele pareceu alcoolizado demais para afastá-los. 

O sujeito, porém, não estava embriagado, ele estava morrendo. No dia seguinte, dois jóqueis amadores encontraram seu corpo e contactaram a polícia. Uma análise inicial não apontou nenhuma causa óbvia de morte, o Homem de Somerton não havia sido esfaqueado, baleado ou até mesmo ferido. Nenhuma pista.

Sabe-se que o sujeito vestia uma camiseta branca por baixo de uma camisa social clara e uma gravata vermelha. Sua calça era marrom clara, assim como seu suéter e seu casaco. Seus sapatos estavam engraxados e um dos bolsos de sua calça havia sido remendado com uma linha de cor laranja. 

Nos bolsos do rapaz foram identificados uma passagem de trem para Henley Beach; uma passagem de ônibus para North Glenelg; um pente de metal; um pacote de chiclete; um maço de cigarros; um lenço e um pacote de fósforos.

Acredita-se que ele tinha entre 40 e 50 anos quando morreu. Suas pernas atléticas davam indícios de que ele mantinha uma vida relativamente saudável. Seus braços estavam bronzeados. Mas um fato chamou a atenção: os dedos de seus pés estavam estranhamente machucados, como se ele estivesse usando sapatos muito apertados. 

Mas, o mais estranho veio a seguir, todas as etiquetas de suas roupas haviam sido cortadas. Não havia nada que pudesse identificá-lo. O Homem de Somerton não possuía carteira, dinheiro e tampouco qualquer outra coisa que ajudasse a reconhecê-lo. 

De acordo com matéria do The Sidney Morning Herald, o dr. John Barkley Bennet, do Royal Adelaide Hospital, estimou que o sujeito morreu pouco antes das 2 horas da manhã. E o patologista assistente Matthew Dwyer determinou que o cadáver não havia sido movido após o óbito. 

Dwyer também apontou alguns fatos curiosos: o primeiro deles é que as pupilas do Homem de Somerton pareciam pequenas demais e tinham um formato classificado como incomum. O sujeito também tinha sangue em seu estômago, o que fez a equipe médica sugerir que ele pudesse ter ingerido algum veneno.

Porém, testes subsequentes não apontaram nada de anormal em seu sangue, o que não impede e tampouco confirma a hipótese de que ele possa ter ingerido algum tipo de veneno letal que não deixa vestígios. 

Seguindo com as investigações, o FBI e a Scotland Yard procuraram as digitais do homem em seu banco de dados, mas nenhuma correspondência foi achada. Entretanto, estabeleceu-se que ele havia morrido de insuficiência cardíaca, embora o que resultou tal quadro não pôde ser esclarecido. 

Digitais de o Homem de Somerton / Crédito: Domínio Público

Pistas misteriosas

Semanas depois, as autoridades encontraram uma mala abandonada na Estação Ferroviária de Adelaide, ela foi deixada lá no dia anterior a morte do Homem de Somerton. Ao que tudo indicava, a pasta era dele, visto que o fio laranja usado na costura da calça estava em um compartimento. Além disso, foi achada uma gravata com uma etiqueta com nome de “T. Kean”. 

O mais surreal de tudo foi revelado meses depois: havia um bolso costurado no cós de suas calças. Lá foi encontrado um pequeno pedaço de papel dobrado com os dizeres “Tamám Shud” (ou, ‘Está terminado’, em persa). O trecho foi retirado de um livro neozelandês chamado ‘The Rubaiyat’, escrito por Omar Khayyam — uma obra de poesia do século 12.

Mala encontrada pela polícia / Crédito: Domínio Público

Assim, iniciou-se a busca para saber de qual livro o trecho foi tirado. Dias depois, um homem se apresentou à delegacia com uma cópia do livro com a parte rasgada onde seria para estar a citação. 

O sujeito, porém, disse que não sabia nada sobre a obra ou sobre o Homem de Somerton. Ele alega que em um dia de dezembro de 1948, achou a obra jogada no chão de um estacionamento após um passeio com seu cunhado pela praia de Somerton. 

Com a cobertura do caso, ele lembrou do livro e identificou que o trecho foi tirado de lá. Sob posse das autoridades, o sargento-detetive Lionel Leane encontrou uma sequência de letras (possivelmente um código) e alguns números de telefone escritos em páginas da obra. 

O primeiro número pertencia a um beco sem saída; o outro a jovem enfermeira Jessica Ellen Thomas que, embora relutasse para falar com a polícia, admitiu ter dado uma cópia do livro para um homem chamado Alfred Boxall — ele estava vivo e ainda tinha posse da cópia, o que corroborava com a versão. 

Jessica, porém, agiu estranhamente ao ver um molde de gesso com o rosto do Homem de Somerton e quase desmaiou. Conforme aponta o All That Interesting, a enfermeira afirmou que não conhecia o sujeito. 

Com essa pista aparentemente esgotada, a polícia voltou-se para um código meio apagado no livro. Sob uma luz negra, eles puderam distinguir uma estranha confusão de letras (que podem ser vistas na imagem abaixo). Porém, nem mesmo a Inteligência Naval da Austrália decifrou a pista. 

Código encontrado no livro / Crédito: Domínio Público

Sem mais indícios, em 14 de junho de 1949, a polícia colocou o Homem de Somerton para descansar. Quando o legista publicou os resultados finais de sua investigação, em 1958, seu relatório concluiu: “Não posso dizer quem era o falecido… não posso dizer como ele morreu ou qual foi a causa da morte”. O mistério parecia que jamais teria fim.

Identidade revelada?

Nesta semana, porém, Derek Abbott, da Universidade de Adelaide, que se dedica a investigar o caso há décadas, afirmou ter descoberto a identidade do Homem de Somerton. Segundo matéria do History, na década passada, a polícia concedeu a ele alguns fios de cabelo que estavam presos na máscara mortuária do sujeito. 

Com isso, Abbott conseguiu traçar uma árvore genealógica com cerca de 4 mil indivíduos. Ao lado do genealogista Colleen Fitzpatrick, Abbott identificou o Homem de Somerton como Carl "Charles" Webb, um engenheiro elétrico de Melbourne. Um fato curioso sobre Webb é que ele nasceu em 1905, mas Carl não possui um atestado de óbito.

Enterro de o Homem de Somerton / Crédito: Domínio Público

Além do mais, os pesquisadores também encontraram uma ligação entre ele e o nome ‘T. Kean’. "Acontece que Carl Webb tinha um cunhado chamado Thomas Kean, que morava a apenas 20 minutos de carro dele em Victoria", aponta o pesquisador, que diz que seu cunhado poderia ter lhe dado a gravata. 

Abbott acredita que Webb tenha ido até Adelaide em busca de sua ex-esposa, que tinha se mudado para lá após a separação do casal. No ano passado, a polícia australiana exumou o corpo do Homem de Somerton e, desde então, trabalha numa investigação paralela.

As autoridades ainda não se manifestaram sobre a possível identidade ser de Carl Webb. Mesmo que seja, porém, muitas outras perguntas sobre o caso ainda carecem de respostas.