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Manuel Luís Osório: Cartas do legendário senhor da guerra

Osório é um dos personagens mais interessantes da história do Brasil. Realiza um tipo de homem, de soldado, político e cidadão que soube se colocar acima das fascinações do seu meio e destacar-se, singularmente, não só em território nacional, como no campo internacional

M. R. Terci Publicado em 08/11/2019, às 14h00

Manuel Luís Osório
Manuel Luís Osório - Wikimedia Commons

Ao alvorecer da Guerra da Tríplice Aliança, em 1864, Manuel Luís Osório era o militar de maior prestígio no Prata, tendo atuado ininterruptamente por 42 anos em campanhas sucessivas em defesa do Império. Recebeu, assim, o comando do Primeiro Corpo do Exército Imperial, não obstante, por força do acordo da Tríplice Aliança, o comando geral das operações tenha sido atribuído ao general argentino Bartolomé Mitre, com quem Osório nem sempre se entendia bem.

Mitre, que sempre se queixava da falta de recursos das tropas argentinas, certa vez lhe escreveu:“Meu caro General e amigo, empresta-me tantos bois, senão vou toma-los à viva força, tal é a necessidade. ” – Osório respondeu-lhe:“Querido General e amigo, para poupar-me o pesar de destroça-lo, mandar-lhe-ei os bois de que precisa. ”

Na guerra ou na paz foi um homem eminentemente de ação, que caminhava na vida com passo seguro e olhos fixos no futuro. Apesar de ser homem simples, cultor do poncho e do chimarrão, de maneiras desassombradas e sem qualquer inclinação às veleidades das altas posições que fatos ou circunstâncias lhe impuseram, o seu heroísmo deslumbrou gerações, tornando-o personagem de lenda.

Não por acaso, o patrono da Cavalaria do Exército, carrega o epiteto de O Legendário. Tal é sua história que, na Grécia antiga, seu busto certamente estaria ao lado das estátuas de Aquiles, Perseu, Jasão, Ulisses e tantos outros personagens heroicos das antigas batalhas.

Tão honesto em sua alma quanto em seus atos, soube renunciar a todo tipo de corruptela que lhe cruzou o caminho, jamais cedendo à lisonja e às perturbações da vaidade. Osório compreendeu cedo, e sem nenhuma hesitação, a importância dos destinos nacionais.

Com apenas 14 anos de idade, alistou-se como voluntário na Cavalaria da Legião de São Paulo e acompanhou o regimento de seu pai na luta contra as tropas portuguesas em 1823 e mal completara 15 anos quando teve seu batismo de fogo à margem do arroio Miguelete, nas proximidades de Montevidéu, em um combate contra a cavalaria portuguesa.

Assim, foi soldado e como tal honrou cada uma de suas divisas e medalhas desde o voluntariado como soldado raso até a patente de Marechal de Exército Graduado com quase setenta anos e muitas cicatrizes. Pelo Império, com distinção, foi agraciado Barão, depois Visconde e, finalmente, primeiro e único Marquês de Herval.

Na política, tal como na guerra, teve ferozes opositores. Sagrou-se vencedor sobre estes também. Foi Deputado Distrital, Senador e, mais tarde, Ministro da Guerra. Ao longo tempo de sua carreira, jamais cedeu um milímetro sequer, nem desertou da defesa das liberdades e direitos do cidadão brasileiro. Literalmente, deu seu sangue por isso, como em 1868, na Batalha de Avaí, quando foi atingido por um tiro na face e fraturou o maxilar inferior.

Manuel Luís Osório / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mesmo ferido, ombro a ombro com seus soldados, sabre em punho, tomou toda a posição de artilharia inimiga, escondendo o hórrido ferimento com um poncho e exortando-os à luta: "Coragem, camaradas! Acabem com este resto!"

Farto repositório das máximas do Legendário pode ser extraído dos documentos e cartas arquivadas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, das memórias escritas por seus filhos, por seus netos e também dos anais das Câmaras do Parlamento do Império, das quais destaco: “A convicção que nasce da suspeita não é prova.” – Em carta a seu filho Fernando, em 1874;

“Toda minha vida tem sido de dificuldades vencidas com prudência e paciência.” – Carta à seu filho Chico, 1877; “Com erros não se argumenta.” – Discurso ao Senado, 1879; “Ideias são como epidemias, alastram-se.” – Carta ao Coronel Ventura, 1874; “É preciso energia. A guerra não se faz com abraços.” – Carta ao Ministro da Guerra Paranaguá, 1866; “Os cegos políticos que retardam a prosperidade da Pátria tarde abrirão os olhos, porque a opressão nem sempre deixa de produzir a reação do espírito.” – Carta ao Conde de Monte Alegre, 1869.

Custava-lhe, na velhice, o peso das medalhas. Não lutou guerras sozinho, conheceu intimamente o sacrifício de seus camaradas, por isso, em suas cartas, usualmente se esquivava da glória imputada a si, como quando se dirigiu aos alunos da Escola Politécnica que lhe homenageavam: “Os louros conquistados no campo das batalhas não valem os louros conquistados no gabinete pelas cabeças pensadoras que se dedicam ao estudo trabalhando pela glória da Pátria e pelo progresso da humanidade. ”

Em correspondência ao Marechal Deodoro, respondeu ainda: “Os serviços que tenho prestado deveis atribuí-los a esses bravos compatriotas, guardas nacionais e voluntários, que me ufano de comandar. ”

Sir Richard F. Burton, escritor e cônsul britânico na cidade brasileira de Santos, descreveu em sua obra Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai, publicada em Londres no ano de 1870: “Ao Brasil nunca pode faltar a esperança de feliz êxito, quando ele tem o orgulho de oferecer tão nobre exemplo de bravura e espírito, como é o General Osório. ”

Apesar de republicano em sua juventude, converteu-se ao credo monarquista, tornando-se um dos seus mais ferrenhos defensores, como assim deixou claro em correspondência ao Barão de Cotegipe, em 1879, quando admoestado sobre sua lealdade ao Imperador: “Sou, de longa data, liberal monarquista, unionista do Império do Brasil. Não pense que vou para a República, nem para o despotismo; mas direi ao nobre senador, que em matéria de serviço público eu não indago o que são brasileiros na política, porém, sim, se cumprem o seu dever em bem da Pátria. ”

Nem mesmo Dom Pedro II fugiu às suas reprimendas. E, naquela oportunidade, Osório não mandou recado. Enquanto Ministro da Guerra, despachando junto ao gabinete de Dom Pedro II, percebeu que o Imperador dormitava, sem se perturbar com seus alarmantes relatos.

Enfurecido, Osório deixou cair, estrondosamente, seu sabre sobre o gracioso piso de mármore do salão de conferências. O Imperador levou um susto dos diabos. Subitamente despertado, o demandou severamente: “Acredito que o senhor não deixava cair suas armas quando estava no Paraguai, marechal”. Ao que Osório respondeu: “Não, majestade. Mesmo porque lá nós não cochilávamos em serviço.”


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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