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Manuel Luís Osório: o herói que censurou até o imperador

Nem mesmo Dom Pedro II fugiu às reprimendas do espírito indomável do militar de maior prestígio no Prata

Coluna/M.R. TERCI Publicado em 18/06/2020, às 06h00

Manuel Luís Osório em pintura oficial
Manuel Luís Osório em pintura oficial - Wikimedia Commons

Manuel Luís Osório é um dos personagens mais interessantes da história do Brasil. Realiza um tipo de herói que se colocou acima das fascinações do seu meio e que se destacou em território nacional e internacional.

Simples, cultor do poncho e do chimarrão, de maneiras desassombradas e sem qualquer inclinação às veleidades das altas posições que fatos ou circunstâncias lhe impuseram, compartilhava da mesa de seus soldados, falava abertamente com todos e suas histórias deslumbraram gerações, tornando-o personagem de lenda.

Não por acaso, o patrono da Cavalaria do Exército carrega o epíteto de O Legendário. Tão honesto em sua alma quanto em seus atos, soube renunciar a todo tipo de corruptela que lhe cruzou o caminho, jamais cedendo, igualmente, à lisonja e às perturbações da sua vaidade. Osório compreendeu e aceitou, sem nenhuma hesitação, a urgência dos destinos nacionais.

Com apenas 14 anos de idade, alistou-se como voluntário na Cavalaria da Legião de São Paulo e acompanhou o regimento de seu pai na luta contra as tropas portuguesas em 1823.

Ao alvorecer da Guerra do Paraguai, em 1864, Osório era o militar de maior prestígio na Bacia do rio da Prata, tendo atuado ininterruptamente por 42 anos em campanhas sucessivas em defesa do Império.

Tal era a tempera do herói que nas fronteiras do Rio Grande do Sul, em toda a sua extensão, seu nome era conhecido e acatado, sendo tão forte seu prestígio que sua simples assinatura era passaporte respeitado para qualquer transeunte.

Recebeu assim, o comando do Primeiro Corpo do Exército Imperial; não obstante, por força do acordo da Tríplice Aliança, o comando geral das operações tenha sido atribuído ao general argentino Bartolomé Mitre, com quem Osório nem sempre se entendia bem.

Mitre, que muito se queixava da falta de recursos das tropas argentinas, certa vez lhe escreveu: “Meu caro general e amigo, empresta-me tantos bois, senão vou tomá-los à viva força, tal é a necessidade” – Osório respondeu-lhe: “Querido general e amigo, para poupar-me o pesar de destroçá-lo, mandar-lhe-ei os bois de que precisa”.

Na Batalha de Avaí, em 1868, foi atingido por um tiro na face e fraturou o maxilar inferior. Mesmo ferido, ombro a ombro com seus soldados, sabre em punho, tomou toda a posição de artilharia inimiga, escondendo o hórrido ferimento com um poncho e exortando-os à luta: “Coragem, camaradas! Acabem com este resto!”

Nem mesmo dom Pedro II fugiu às reprimendas de seu espírito indomável. Na velhice, enquanto ministro da Guerra, despachando junto ao gabinete do imperador, percebeu que o monarca dormitava sem se perturbar com seus alarmantes relatos.

Enfurecido, Osório deixou cair, ruidosamente, o sabre sobre o gracioso piso de mármore do salão de conferências. O imperador levou um susto dos diabos. Subitamente despertado, o demandou severamente: “Acredito que o senhor não deixava cair suas
armas quando estava no Paraguai, marechal”. Ao que Osório respondeu: “Não, majestade. Mesmo porque lá nós não cochilávamos em serviço”.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.