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Pesquisadores decifram o texto mais misterioso do mundo

O documento desvenda informações sobre a Europa durante o fim da Idade Média

Joseane Pereira Publicado em 16/05/2019, às 10h15

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Wikimedia Commons

Um dos documentos mais misteriosos da Europa Medieval foi finalmente desvendado. Trata-se do Manuscrito Voynich, cujo nome é uma homenagem ao comerciante polonês que o resgatou em 1912, Wilfrid M Voynich.

De acordo com pesquisadores, o manuscrito de 200 páginas foi escrito na Europa Central por volta do século 15, e sua data, origem e linguagem têm sido debatidas tão vigorosamente quanto os desenhos intrigantes e textos indecifráveis presentes nas páginas.

Proto-Romance

O documento foi decifrado pelo linguista e pesquisador da Universidade de Bristol, localizada no Reino Unido, Dr. Gerard Cheshire, que anunciou ter usado o chamado “pensamento lateral” para identificar o idioma e o sistema de escrita.

Ele explicou que o manuscrito tem uma linguagem que surgiu de uma mistura de latim falado, ou latim vulgar, e outras línguas através do Mediterrâneo durante o período medieval, após o colapso do Império Romano, evoluindo posteriormente para línguas românicas como o português, francês, italiano, espanhol e catalão.

Durante a Baixa Idade Média, o proto-romance era disseminado pelo Mediterrâneo, embora não tenha sido usado em documentos oficiais pelo fato de o Latim predominar como língua oficial.

Por possuírem acentos fonéticos específicos e diferentes origens geográficas, as palavras do manuscrito não eram familiares aos vários estudiosos que tentaram desvendar o texto.

“Eu experimentei uma série de momentos ‘eureka' enquanto decifrei o código”, afirmou Cheshire. Segundo ele, esses momentos foram seguidos por um sentimento de "descrença e excitação" pela percepção sobre quão grandiosa era a conquista, tanto em termos de sua importância linguística quanto do conteúdo que revela aspectos de uma Europa em mudança. “Não é exagero dizer que este trabalho representa um dos passos mais importantes até hoje no estudo da linguística românica”, afirma o pesquisador.

O manuscrito

Até então, muitos achavam que o manuscrito continha apenas letras e desenhos aleatórios, não passando de um embuste bem tramado. Entretanto, o estudo revelou que existem informações fitoterápicas sobre plantas abortivas, ervas para banho e remédios caseiros, assim como histórias de aventura e heroísmo.

As informações fitoterápicas foram escritas com base em conhecimentos medicinais “pagãos” sincretizados com crenças católico-romanas, sendo capazes de revelar as interações entre esses diversos conhecimentos populares na época. 

Sessão com ervas medicinais / Créditos: Wikimedia Commons

 

O documento foi escrito por freiras dominicanas no castelo Aragonense, localizado na pequena ilha de Ischia, na costa da Itália. Na época, quem residia no castelo era Maria de Castela, Rainha de Aragão que viria a ser rainha de Portugal em 1501.

A ilha de Ischia é famosa por seus spas vulcânicos que existem até hoje, e o documento contém gravuras de mulheres nuas tomando banho, tanto recreacional quanto terapeuticamente. 

Há também imagens da rainha Maria e seu tribunal conduzindo negociações comerciais durante o banho. O uso frequente dos "spas vulcânicos" era considerado uma forma de limpeza física e comunhão espiritual, bem como um meio geral de relaxamento e lazer. 

Ilustrações dos banhos terapêuticos / Créditos: Reprodução

 

Dentro do manuscrito existe um mapa pictórico desdobrável que localiza a sua origem e fornece mais informações. Ele conta a história aventureira de uma missão de resgate por navio para salvar as vítimas de uma erupção vulcânica no Mar Tirreno, que começou na noite de 4 de fevereiro de 1444.

Maria de Castela teria liderado a missão de resgate como regente durante a ausência de seu marido, o rei Afonso V de Aragão (1396–1458), como mostram as ilustrações e informações do documento histórico.

 

Mapa que ilustra a viagem de resgate / Créditos: Wikimedia Commons

 

"Agora que o idioma e o sistema de escrita foram explicados, as páginas do manuscrito foram abertas para os estudiosos explorarem e revelarem, pela primeira vez, seu verdadeiro conteúdo linguístico e informativo", conclui o Dr. Cheshire. E ainda há muito a se desvendar nas 200 páginas desta grandiosa fonte.