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27 anos depois: Márcio de Paula, o brasileiro atropelado pela van de Michael Jackson

Em entrevista ao site Aventuras na História, ele conta sobre a visita do Rei do Pop no hospital, o assédio midiático e resultado dos processos jurídicos

Wallacy Ferrari Publicado em 18/11/2020, às 16h50

Michael Jackson abraça fã atropelado em São Paulo
Michael Jackson abraça fã atropelado em São Paulo - Márcio de Paula / Arquivo Pessoal

No dia 13 de outubro de 1993, Michael Jackson desembarcava no Brasil para realizar um dos mais impressionantes shows já feitos em terras tupiniquins. Marcados para os dias 15 e 17 de outubro no Estádio do Morumbi, o equipamento da produção veio em dois aviões gigantes Antonov An-124, totalizando 400 toneladas de itens.

Ao longo dos dois dias seguintes, 29 carretas saíram para deixar tudo preparado no retorno do astro ao país, desde 1974. Por isso, a espera pelo espetáculo mobilizou a venda de 70 mil ingressos apenas no primeiro show. Se por um lado, a expectativa dos fãs brasileiros era imensa, Michael também fazia questão de conhecer ainda mais o país, realizando diversos passeios por São Paulo.

No primeiro dia, pouco após a descida do avião, Michael, acompanhado de filhos de amigos americanos, fez sua primeira parada. Foi ao parque de diversões Playcenter, conhecendo o dono, Marcelo Gutglas, e recebendo a então empresária de Xuxa, Marlene Mattos. Os encontros foram mínimos em relação às duas horas que se divertiu nos brinquedos, tendo o La Bamba como seu preferido, após apuração da Folha na época.

Visitantes do Placenter conseguem tirar foto com Michael Jackson e Marcelo Gutglas (à dir.) / Crédito: Divulgação

 

Plano frustrado

De acordo com a mesma reportagem da Folha, no dia seguinte, Michael teria tempo livre para realizar mais visitas durante sua estadia, cogitando visitar o setor infantil do Hospital Darcy Vargas. Para isso, o cantor decidiu fazer uma visita à fábrica de brinquedos Estrela, localizada em Guarulhos, 35 km a leste da capital paulista, para a compra de presentes.

Foi nesse momento que Márcio Alberto de Paula e, sua irmã, Renata, decidiram ver o motivo da movimentação no bairro, como contou em entrevista exclusiva à AH: “Os carros da comitiva dele passaram pela rua onde eu morava. Quando isso aconteceu, meus amigos da época é que disseram: “É o Michael Jackson... Vamos lá tentar vê-lo?”. Nesse embalo e empolgação típica de adolescentes, eu e minha irmã fomos por curiosidade”.

A descida do prédio não era planejada pelo rapaz, visto que não estava atento à chegada de Jackson no país: “Minha avó materna havia morrido tinha poucos dias, então, nenhuma atenção minha ou da minha família estava sendo dedicada para esse ‘evento’”. Mesmo assim, se aglomerou junto a alguns outros curiosos para ver o astro internacional. A comitiva do cantor, entretanto, não conseguiu encontrar a Estrela, perambulando pelas ruas do bairro — em alta velocidade e com curvas abruptas.

Em uma delas, uma van passou estreitamente ao lado de uma viatura policial — justamente onde os irmãos estavam apoiados. Quatro pessoas, incluindo um cinegrafista do SBT, saíram com ferimentos leves, contudo, Márcio foi prensado e sofreu fratura no fêmur direito, sem ter o socorro prestado pelo condutor.

Pouco depois, uma ambulância conduziu o jovem para o Pronto Socorro José Storopoli, sendo posteriormente transferido para o Hospital Anchieta.

Manchete noticia acidente em comitiva de Michael Jackson em 1993 / Crédito: Divulgação / Folha de S. Paulo

 

Atropelado pelo Rei do Pop

Com o retorno de Michael ao hotel, o foco da imprensa nacional se voltou ao jovem Márcio, com 15 anos na época: “Existiam muitos repórteres e fotógrafos na porta do hospital onde fiquei internado. Por conta dessa situação incomum para o lugar, para os profissionais e demais pacientes, o próprio hospital disponibilizou seguranças que ficaram na porta do meu quarto, no andar e na entrada do local", afirmou o rapaz.

Uma visita ilustre, no entanto, surpreendeu o rapaz na tarde do segundo dia de internação: o próprio Rei do Pop subiu, sem avisar, ao quarto 123, ordenando a saída da imprensa e ficando 20 minutos no quarto com o garoto e os familiares.

“Era a materialização de tudo o que eu via na TV, nas revistas... bem ali na minha frente. Não dava para acreditar. Achei ele bonito! Além disso, ele era bem perfumado e o cheiro dele permaneceu no quarto por um tempo”, relembrou Márcio.

Com a família da vítima, Michael tirou fotos, dançou e apresentou os filhos dos amigos, que o acompanhava. O jovem Márcio descreveu a voz do astro como algo “impressionante” pela semelhança das gravações em estúdio. 

Ele acrescentou que a preocupação do astro era notável: “Teve também as perguntas (muitas!) sobre como eu estava me sentindo, se já tinha passado a dor, onde eu havia me machucado e, claro, o pedido de desculpas. Ele tinha um ‘ar’ de garoto, brincalhão, bagunceiro”.

Michael Jackson interage com Renata e Márcio ao visitar Hospital Anchieta / Crédito: Divulgação / Youtube / TV Globo

 

Assédio da imprensa

Amplamente noticiado, o tal “único brasileiro que viu Michael de perto” se tornou alvo para uma cobertura ainda maior do caso, como explicou o rapaz: “O acidente, a fratura... tudo isso foi fácil de tratar. O difícil foi lidar com essa necessidade mórbida que alguns veículos da época tinham por esse caso. O assédio era pavoroso... o bullying, então. Nossa!”. Enaltecido como fanático pelo astro — informação que Márcio faz questão de negar — o período foi descrito como “um show de horrores”.

Em um desses episódios, o extinto Notícias Populares, que já perseguia o rapaz com manchetes de duplo sentido, decidiu providenciar um encontro bizarro. Em 1994, LaToya Jackson, irmã e, na época, brigada com o cantor por validar as suspeitas de abuso sexual infantil, faria uma série de shows no Brasil, inclusive comentando o caso de Márcio como “uma coisa terrível” durante entrevista coletiva.

Mal sabia ela que, em 12 de outubro de 1994, se encontraria com a vítima, convidada pelo jornal para o show paulista. “Quando chegamos ao Palace [casa de shows], para minha surpresa, só havia eu, minha irmã, a equipe no NP e mais duas ou três pessoas. O show estava perto de começar e, diante da falta de público, pensei que a apresentação seria cancelada. Na minha cabeça, não tinha sentido ela fazer um show para 8 pessoas. Me enganei...”, brincou Márcio.

Após o termino a estranha apresentação, a equipe que acompanhava o jovem ainda o levou para o camarim, apresentando o rapaz como “o menino brasileiro envolvido em mais uma polêmica com o seu irmão” — buscando mais uma declaração polêmica da cantora.

No entanto, os repórteres saíram mais frustrados do que esperavam; LaToya esbanjou educação, tirou uma foto e ainda autografou para Márcio, sem acrescentar comentários.

A foto de Márcio com LaToya em montagem com o autógrafo / Crédito: Márcio de Paula / Arquivo Pessoal

 

Indenização 

Durante o constante assédio midiático, um processo movido pelo pai de Márcio, João Alberto de Paula, solicitava a cobertura pelos custos hospitalares, pelos danos físicos que limitou o jovem durante todo o ano seguinte e por uma possível autopromoção do astro após a visita no hospital. Ao contrário do que foi divulgado pela produtora que promovia o show, o jovem nunca recebeu CR$ 1 milhão de indenização.

“Nunca fui indenizado. Muita gente ainda pensa que isso aconteceu... mas não! Eu tive todas as despesas do hospital pagas enquanto eu estive internado”. O processo prosseguiu na justiça americana contra o próprio cantor, tendo a indenização negada em território americano, como noticiou o Estadão em 2002. Ao ser retomada na justiça brasileira, a solicitação permaneceu de maneira inconclusiva.

Sobre a tal publicidade com o acidente, Márcio explica que há dúvidas, mas prefere acreditar na generosidade: “Tempos depois, uma assessora de imprensa de uma celebridade brasileira conversou comigo e disse que ele só foi ao hospital porque ela havia dito: “Vá lá, visite o menino porque essa situação pegou mal pra você no Brasil, entre outros”. [...] Não sei se é totalmente verdade e não tenho a ideia de tentar descobrir se a assessora, de fato, agiu no ‘backstage’”, acrescentou.

Retrato fotográfico recente de Márcio em idade adulta / Crédito: Márcio de Paula / Arquivo Pessoal

 

Depois de Michael

Os episódios também renderam frutos positivos para Márcio, que recebeu dezenas de presentes relacionados ao cantor: “Eram LP’s, fitas K7, VHS de shows, livros e revistas importados... Acho que chegou uma época em que tudo que existia do Michael, eu tinha. Com exceção da minha família (pais e irmãs), acho que todos me deram presentes do Michael. Amigos, outros familiares, colegas de escola... (risos)”. De acordo com ele, apenas as fotos pessoais restaram, doando o resto para fãs do músico e amigos.

Hoje, aos 42 anos, ele explica que a influência da imprensa o inspirou a se formar na área da Comunicação: “Tem gente por detrás das câmeras fazendo tudo acontecer da maneira como tem que acontecer: com verdade e responsabilidade. Isso me inspirou sim, claro! Afinal, penso que, qualquer profissional que atue no seu respectivo segmento com seriedade e profissionalismo, é uma grande fonte de inspiração”, acrescentou.

Por fim, ele explicou que sente ter “sobrevivido” a exposição midiática, mas que, frequentemente, esquece o episódio, comentando raramente. “Mesmo sendo raro eu tocar nesse tema, fico feliz quando consigo ajudar alguém a superar um trauma ou uma situação que se “assemelhe”. Esse foi o melhor aprendizado: estender a mão a quem se identifica com o que passei, acolher, respirar fundo e sentir orgulho da pessoa que me tornei”, concluiu.


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