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Marco Zero: 466 anos da cidade de São Paulo

Neste dia, em 1554, São Paulo era fundada em uma colina na qual entrelaçavam-se rios navegáveis e trilhas indígenas. E abria-se a porta para o sertão. Ali cruzaram-se os destinos de índios e padres jesuítas — os primeiros paulistanos

Eduardo Bueno Publicado em 25/01/2020, às 01h00

Masp - Museu de Arte de São Paulo
Masp - Museu de Arte de São Paulo - Getty Images

A história de São Paulo é tão dinâmica e múltipla como a cidade nos dias de hoje. E assim foi desde o início – que, diferentemente do que se supõe, não teve apenas uma fundação, mas várias: a primeira, inteiramente informal, com João Ramalho, na segunda década do século 16, em Ururaí (hoje São Miguel Paulista). A segunda, com Martim Afonso de Sousa, em 1531, em local desconhecido (mas talvez no atual centro histórico de São Paulo).

A terceira, com o padre Leonardo Nunes, em 1550, com o estabelecimento da capela de Santo André de Borba do Campo. A quarta, a tradicional, consagrada pela historiografia clássica, com Nóbrega e Anchieta, em 25 de janeiro de 1554, no Pátio do Colégio, e, por fim, a quinta, e definitiva, em 1560, quando se deu a transferência dos moradores de Santo André para a colina de Piratininga.

Apesar de a multiplicidade e o dinamismo já estarem, portanto, plenamente “misturados” à trajetória da maior metrópole da América do Sul, tais elementos não foram fruto apenas da sequência de fundações: a mobilidade era a marca primordial dos aldeamentos indígenas que lhe deram origem. E tão intensa é a ligação entre a São Paulo dos portugueses e a Piratininga dos tupiniquins que se pode falar numa outra fundação da cidade cujos 466 anos se comemoram oficialmente em 25 de janeiro de 2020: nesse caso, uma pré-fundação, já que está ligada ao surgimento das aldeias esparramadas pelo topo do planalto paulista antes de 1500.

De fato, na zona hoje inteiramente ocupada e descaracterizada pela vasta malha urbana de São Paulo, existiam, antes (e até seis décadas depois) da chegada dos europeus, várias aldeias tupiniquins.

Em livro clássico, o sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) afirmou que eram 12, mas o historiador John Manuel Monteiro julga que Fernandes interpretou equivocadamente um trecho de uma carta do padre José de Anchieta e, embora não duvide que o número fosse maior, ressalta que apenas quatro tabas podem ser identificadas: Inhapambuçu (morro do alto do qual tudo se vê, em tupi), possivelmente localizada no lugar onde hoje se ergue o Mosteiro de São Bento e cujo líder, ou principal, era o legendário Tibiriçá; Jeribatuba (lugar de muitos jerivás), chefiada por Caiubi, supostamente irmão de Tibiriçá, e que ficava na margem direita do Rio Pinheiros, no atual bairro de Santo Amaro; Ururaí (rio dos jacarés), aldeia de Piquerobi (outro irmão de Tibiriçá), onde hoje fica São Miguel Paulista; e Ibirapuera (lugar que antes era mato), também erguida às margens do Pinheiros.

Essas e as demais aldeias tupiniquins do planalto – como Guarapiranga, Itaquaquecetuba e Maniçoba – eram agrupamentos sazonais, meramente provisórios. De tempos em tempos (entre cinco e dez anos) e por outros vários motivos, como o desgaste do solo e escassez da caça, eram transferidas para outros lugares. “Esses índios não têm endereço certo”, lastimou-se Anchieta, em carta escrita em 1556. Consideravelmente menores que as aldeias tupinambás, os aldeamentos tupiniquins tinham apenas entre quatro e seis malocas, nas quais viviam cerca de 400 almas.

A incessante movimentação dos tupiniquins por seu território tribal não se limitava às jornadas pelo planalto paulistano, mas frequentemente os conduzia à Baixada Santista, ao sertão do Paranapanema, aos vales do Tietê e do Paraíba do Sul e às fraldas da Serra da Mantiqueira (lugar onde chove muito, em tupi). Tais andanças se davam por uma rede de trilhas ancestrais, os peabirus.

Eram caminhos antiquíssimos, provavelmente percorridos pelos chamados paleoíndios mais de 5 mil anos antes e que talvez tenham sido abertos pelos animais da extinta megafauna, como megatérios, gliptodontes e tigres-dentes-de-sabre. Essa rede de peabirus convergia para o atual centro histórico de São Paulo, o Triângulo. E é ela que justifica e explica não apenas o surgimento mas  também a atual pujança econômica e política de São Paulo – “a capital geográfica do Brasil”, como definiu o historiador português Jaime Cortesão (1884-1960).

 No magistral parágrafo de abertura de seu Caminhos e Fronteiras, o grande Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) escreveu: “Alguns mapas e textos do século 17 apresentam-nos a vila de São Paulo como centro de amplo sistema de estradas expandindo-se rumo ao sertão e à costa. Os toscos desenhos e os nomes estropiados desorientam quem pretenda servir-se desses documentos para a elucidação de algum ponto obscuro de nossa geografia histórica. Recordam-nos a singular importância dessas estradas para a região de Piratininga, cujos destinos aparecem assim representados como em um panorama simbólico”. É um texto definitivo e esclarecedor, embora, infelizmente, por vezes passe despercebido de tantos cronistas da desvairada cidade.

Centro de São Paulo, em 1953 / Crédito: Getty Images

 

Os primórdios da fundação clássica de São Paulo se deram na última semana de agosto de 1553, quando o padre Manuel da Nóbrega subiu a Serra de Paranapiacaba para reunir três aldeias tupiniquins em uma só. Não há registros comprovando que Nóbrega já houvesse percorrido anteriormente o aspérrimo Caminho dos Tupiniquins – a milenar trilha de pé posto que unia São Vicente ao topo do planalto. Mas não restam dúvidas de que se tratava de uma jornada extenuante, com duração de pelo menos dois dias, embora viajantes mais vigorosos, como os próprios indígenas, fossem capazes de vencer o percurso em cerca de 12 horas.

O vasto lagamar de águas salobras, localizado atrás de São Vicente e constituído por um emaranhado de rios e mangues, era vencido em ubás e pirogas – canoas indígenas – que conduziam os viajantes até o lugar chamado de Piaçaguera de Baixo. Dali, por terra, marchava-se pela área alagadiça, hoje ocupada por Cubatão, até Piaçaguera de Cima, um pequeno pouso localizado na raiz da Serra de Paranapiacaba (lugar de onde se vê o mar, em tupi).

Naquele ponto começava a parte realmente árdua do trajeto: a subida da serra, que, ao longo de apenas 12 quilômetros pelo vale do Rio Mogi, seguindo os trilhos da atual estrada de ferro Santos-Jundiaí, ascendia desde o nível do mar a mais de 850 metros de altura, por uma vereda limosa e escorregadia, entre rochas e cachoeiras. Então, após serpentear pelo emaranhado da Mata Atlântica, o caminho enfim chegava a uma zona de campos, nas nascentes do Tamanduateí.

Trilha dos tupiniquins

A descrição mais vívida da subida foi feita pelo também jesuíta Fernão Cardim, que realizou a jornada em 1590: “Caminhamos duas léguas [12 quilômetros] por água e uma por terra e fomos dormir ao pé de uma serra ao longo de um formoso rio de água doce que descia com grande ímpeto de uma serra tão alta, que ao dia seguinte caminhamos até o meio-dia, chegando ao cume bem cansados: o caminho é tão íngreme que às vezes íamos pegando com as mãos.

Chegando em Paranapiacaba, isto é, lugar de onde se vê o mar, descobrindo o mar tão largo quanto podíamos alcançar com a vista, e uma enseada de mangues e braços de rios de comprimento de oito léguas e duas e três em largo, cousa muito para ver, e parecia um pano de armar: a toda essa terra enche a maré, e ficando vazia fica cheia de ostras, caranguejos, mexilhões, briguigões e outras castas de mariscos: aquele dia fomos dormir junto a um rio de água doce, e todo o caminho é cheio de tijucos, e o pior que nunca vi, e sempre íamos subindo e descendo serras altíssimas, e passando rios caudais de água frigidíssima”.

“Ao terceiro dia navegamos todo o dia por um rio de água doce [o Pinheiros], deitados em uma canoa de casca de árvore, em a qual iam até 20 pessoas: íamos voando a remos, e da borda da canoa à água havia meio palmo (…) Era necessário guardar o rosto e os olhos; porém a navegação é graciosa por ser a embarcação e o rio mui alegre, cheio de flores e frutos, de que íamos tocando, quando a grande corrente nos deixava; chegando a piaçaba, isso é, o lugar onde se desembarca, e demos logo em uns campos”.

Vista de São paulo em meados dos anos 1980 / Crédito: Getty Images

 

Possivelmente na terceira semana de janeiro de 1554, Manuel da Nóbrega, acompanhado de 12 padres e irmãos, subiu novamente a serra e, após ter rezado uma missa “na formosa povoação que então se iniciava”, substituiu o nome indígena de Piratininga (lugar onde se seca o peixe, em tupi), batizando o novo colégio dos jesuítas com o nome de São Paulo, cuja conversão ao cristianismo é comemorada em 25 de janeiro, o dia que Nóbrega, justamente por isso, escolheu para rezar a missa inaugural do colégio do planalto, já que São Paulo foi o apóstolo dos gentios.

O lugar eleito por Nóbrega para reunir as três aldeias em uma era extremamente estratégico. Mais que isso: era virtualmente perfeito. Localizado no topo de uma colina acastelada entre os vales de dois rios – o lento e sinuoso Tamanduateí (rio do Tamanduá) e o encachoeirado Anhangabaú (rio do Anhangá, ou do demônio) – o sítio, em forma de triângulo, com cerca de 2,5 hectares de área (o equivalente a três campos de futebol), era facilmente defensável e oferecia uma ampla vista para os campo, as várzeas e as planícies.

Os jesuítas estabeleceram sua casa, sua capela e seu colégio numa porção do terreno próxima a uma encosta abrupta, formada por uma das sete voltas que os meandros do Tamanduateí tinham escavado na rocha bruta, justamente no ângulo mais agudo da curva de maior reentrância. Havia um desnível de cerca de 35 metros entre o topo da colina e a várzea adjacente.

Do alto do morrete, com 745 metros de altitude, dominava-se todo o panorama: a leste se espraiavam os brejais que constituíam a planície alagadiça pela qual o Tamaduateí deslizava em sinuosos volteios. A oeste, para além do vale sombrio do Anhangabaú, pequenos mares de morros ondulavam até atingirem sua altura máxima numa cordilheira de granito, então chamada Caaguaçu (ou mato grosso) e depois denominada pelos geólogos de Espigão Central, pelo topo da qual hoje corre o cartão-postal da Avenida Paulista.

Ao norte do colégio havia uma outra planície alagadiça, essa formada pelas várzeas do Tietê (rio verdadeiro ou principal, em tupi), então chamado Anhembi (rio das nhambis, pequena erva de flores amarelas). Ao sul ficavam as colinas e mesetas por entre as quais serpenteava o caminho que levava à aldeia de Jeribatuba, às margens do rio de mesmo nome (hoje Pinheiros) e, depois, até a boca da Serra de Paranapiacaba, pela qual era possível descer até a Ilha de São Vicente.

O coração da colina era o ponto de onde partiam (na verdade, para o qual convergiam) vários caminhos e trilhas indígenas rumo aos quatro pontos cardeais. Do Pátio do Colégio rumo ao sul, pela antiga Rua do Carmo (hoje Roberto Simonsen), primeiro costeando a várzea do Tamanduateí e depois descendo até ela, seguia a vereda que levava a Santo André e São Vicente, pela Trilha dos Tupiniquins, depois rebatizada de “Caminho Velho do Mar”. Brás Cubas, o capitão-mor de São Vicente, possuía terras ali. Mais tarde, cedeu-as à ordem do Carmo, que lá fundou um convento. 

Para o norte, pelas atuais ruas São Bento e 15 de Novembro, “no beiço da escarpa que dava para o Anhangabaú”, partia o caminho que levava primeiro para a aldeia de Inhapambuçu, localizada no vértice do triângulo e onde vivia o grande líder tupiniquim Tibiriçá (“vigilante da terra”, em tupi), o principal aliado dos portugueses. O mesmo caminho, em sua continuação, conduzia para as várzeas do Tietê, para Mogi das Cruzes e para o Vale do Paraíba (“rio ruim”), ainda selvagem e ocupado por tribos inimigas dos portugueses.

Para oeste, pelas atuais ruas Direita e do Ouvidor, descendo a abrupta encosta da montanha rumo ao Vale do Anhangabaú, nos arredores da atual Praça da Bandeira, começava o Caminho do Sertão.

Ele passava por campos povoados por bandos de perdizes (hoje, bairro de Perdizes), seguia por planuras recobertas e, subindo pela atual Rua da Consolação, chegava ao topo do Caaguaçu, para então mergulhar nas lonjuras do sertão, passando antes por uma densa floresta de pinheiros (hoje bairro de Pinheiros) rumo à zona de campos hoje pertencente aos estados do Paraná e de Santa Catarina – o território dos carijós e dos guaranis, cuja conversão ao cristianismo era o principal objetivo do padre Nóbrega. Para sudoeste, seguia ainda o futuro caminho de Santo Amaro, que se arrastava ao longo da planície do Rio Pinheiros e também levava para a Baixada Santista.

Um dos acidentes geográficos mais importantes da região era o Vale do Anhangabaú, abrigando a área mais densamente florestada da região e delimitando o lado oeste da colina. Tão sombria e misteriosa era a mata recobrindo suas margens que o córrego tornou-se um tabu: apenas o pajé podia descer até as águas límpidas e murmurantes.

A importância mística

Estádio do Pacaembu, na década de 1960 / Crédito: Getty Images

 

Embora os jesuítas tenham traduzido o nome tupi Anhangabaú como Rio do Diabo (ou Água do Demônio), Anhangá não era o “demônio” propriamente dito. Tratava-se, na verdade, de um dos tantos elementais – uma espécie de duende – com os quais os indígenas povoavam suas matas. O Anhangá, protetor da caça, aparecia sob a forma de um veado branco (ou vermelho) com olhos de fogo.

Os desafortunados o bastante para vê-lo – em geral porque haviam abatido fêmeas prenhas de veados ou de inhaúmas – eram acometidos por forte febre que levava à loucura. Com cerca de apenas 4,5 quilômetros de extensão, o Anhangabaú nascia (na verdade, continua nascendo, embora tanto a vertente quanto o próprio curso estejam hoje canalizados) no bairro Paraíso, entre as ruas Vergueiro e Padre Cardim, a uma altitude de 780 metros.

O córrego percorria o leito da atual Avenida 23 de Maio, recebia dois outros afluentes, margeava a colina e, nas proximidades da atual Rua 25 de Março, engrossava o Tamaduateí já a 740 metros. Os 40 metros de desnível entre a nascente e a foz tornavam o Anhangabaú um dos únicos rios encachoeirados numa zona onde os demais cursos d’água fluem preguiçosos e repletos de meandros entre planícies alagadiças.

As evidências da importância mística de Piratininga para os indígenas não se restringiam às cerimônias xamânicas realizadas no Anhangabaú: eram muitas e óbvias. Além de encruzilhada dos caminhos que rasgavam o planalto e tradicional “ponto de escala de muitas tribos”, como escreveu Nóbrega, a colina onde os jesuítas ergueram seu colégio abrigava pelo menos três cemitérios ancestrais, campos santos dos nativos.

Além de ser banhada pelo rio do Anhangá e de sediar cemitérios, uma parte da colina de Piratininga era chamada de Itacorá, ou “pedra rachada por raio”, remetendo a outro aspecto importante da mitologia indígena: as rochas atingidas por raios celestes, que abundam em várias outras regiões do Brasil e que, em geral, tornavam-se pontos de peregrinação.

Assim, mais do que meramente um ponto nevrálgico, Piratininga era também, e principalmente, um lugar de poder – para utilizar a expressão forjada pelo antropólogo americano Carlos Castañeda (1925-1998), autor do livro A Erva do Diabo, famoso nos anos 1960.

Se hoje tudo isso está esquecido, e provavelmente não será lembrado ao longo da celebração dos 466 anos de fundação do Colégio de São Paulo dos Campos de Piratininga, é porque, pura e simplesmente, continuamos sendo “uns desterrados em nossa terra”, como o já citado Sérgio Buarque de Holanda vaticinou na abertura da sua obra Raízes do Brasil.


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