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Margareth Thatcher vs. Liverpool: a rixa inevitável

Entenda o porquê da cidade dos Beatles ter sido um importante foco da oposição ao governo Thatcher

André Nogueira Publicado em 16/04/2019, às 10h45

Thatcher
Getty images

Margaret Thatcher foi uma das principais primeiras-ministras do Reino Unido, sendo referência até hoje quando se pensa no histórico de governo da Inglaterra. Conhecido como Dama de Ferro pela dureza e prontidão de seu governo, Thatcher, junto com Reagan nos EUA, faz parte da geração de governantes neoliberais dos anos 1980.

Thatcher em seu governo aumentou o atrito que ocorria entre a cidade dos Beatles e o governo central em Londres. Na época, havia já um relevante conflito entre os políticos mais conservadores e Liverpool, pois se juntava características tradicionais de política mais ligadas às demandas de esquerda na cidade com a tradição de torcidas de futebol que havia em Liverpool, que em Londres defendia-se a tomada de decisões mais duras para reduzir o poder das torcidas. Será Thatcher a responsável por essas medidas.

 

Thatcher discursa como primeira-ministra (Wikimedia Commons)

 

Isso porque na época os sindicatos eram a principal força que mobilizava a torcida organizada dos clubes ingleses e a primeira-ministra, ao assumir, declarou guerra contra os sindicatos e as forças trabalhistas, além de associar a mobilização sindical em campo com a violência entre torcidas. Thatcher foi eleita prometendo o combate aos sindicatos e o fim dos subsídios governamentais à indústria, defendendo um plano neoliberal para a economia. Ela temia a volta da onda de greves nos circuitos industriais como ocorreu na Inglaterra nos anos 1970.

Para tanto, ela deu início a uma política baseada na ideia do fechamento das fábricas que não tinham lucro, não importando as consequências trabalhistas do movimento. Em várias cidades isso gerou fechamentos em massa de fábricas grandes, dado o cenário de crise econômica e em Liverpool, a política gerou um incômodo inevitável. Afinal, a cidade possuía uma tradição sindical forte, onde as políticas trabalhistas e os grupos de esquerda tinham muita força.

Liverpool era também uma cidade distante da capital e com uma cultura regional que se distinguia muito da identidade cultural londrina: Liverpool era vista pelos habitantes de Londres como uma cidade de “caipiras”, com sotaques, hábitos, culinária e identidades muito diferentes da capital. A rixa Liverpool-Londres era de velha data.

 

Protesto pelo salário em Liverpool (reprodução)

Thatcher, como prometeu, saiu em guerra com as uniões sindicais em favor das privatizações. A Dama de Ferro foi responsável pelo fechamento ou a privatização de inúmeras fábricas pelo país, levando a uma onda de desempregados saindo das fábricas não lucrativas do interior do país. Isso gerou ondas de revolta contra o governo, principalmente em Liverpool.

O governo também se recusava a gastar recursos públicos para auxiliar esses grupos afetados pelas políticas de privatizações, pois eram colocados como problemas não prioritários para o Parlamento. Não à toa, as poucas visitas de Thatcher a Liverpool não foram anunciadas e a governante só ia para lá às escondidas. Muitas vezes, isso não era o suficiente e suas visitas eram acompanhadas de protestos e manifestações contra a ministra. A marca da Dama de Ferro foi profunda na cidade: em seu governo, o desemprego no bairro de Toxthet atingiu 40% da população, na grande maioria negros e imigrantes, além do claro aumento da repressão policial contra  a população da cidade, tudo aprovado pela primeira-ministra.

Outro evento que conturbou as relações entre o governo e Liverpool foi o famoso desastre de Hillsborough, um acidente ocorrido no estádio com mesmo nome em Sheffield, num jogo entre Liverpool e Nothingham Forest, em 1989. O estádio já era famoso por seus sérios problemas de infraestrutura e quando colocaram a massiva torcida do Liverpool (que era maioria) no menor setor das arquibancadas, num claro ato de negligência, o desastre ganhou vida.

 

Protesto atual em Liverpool em memória aos mortos em Sheffield (divulgação)

 

Os policiais não estavam sabendo organizar a entrada de torcedores e decidiram por abrir os portões e permitir a entrada generalizada. Resultado: superlotação. Mesmo não havendo problemas com violência de torcida, a lotação gerou uma confusão que resultou na morte de 96 torcedores mortos pisoteados na muvuca e mais de 750 feridos. Foi o maior desastre futebolístico da História da Inglaterra.

A reação do governo federal foi inesperada: Thatcher, que já tinha fama de não gostar de futebol e dos torcedores, tomou a posição de culpar as próprias torcidas pelo desastre. Os torcedores do Liverpool foram acusados de baderneiros selvagens e assassinos. E boa parte do mundo acreditou no discurso oficial. Desapareceram com as imagens das câmeras de segurança e modificaram diversos testemunhos para encobrir a culpa dos policiais envolvidos com a abertura dos portões. Somente em 2009 as famílias de Liverpool conseguem juntar provas para a reabertura do inquérito sobre o evento e reaver a culpa que o governo tinha nesse caso.

Torcida do Liverpool no jogo após a morte de Thatcher (Reprodução)

Thatcher comandou a Inglaterra entre 1979 e 1990 e seu legado de desemprego e atritos entre interior e capital foram marcas de seu governo. Quando a política morreu, as reações foram diversas, mas em Liverpool era comum ver cartazes em celebração do fato. A torcida do Liverpool foi enfática diversas vezes. "Você não se importou quando mentiu. Nós não nos importamos que você morreu", dizia um cartaz icônico da torcida, em referência aos anos de investigação encoberta pelo governo sobre o massacre no estádio.