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Marianne Bachmeier, a mulher que matou o suposto assassino de sua filha durante o julgamento

“O caso mais espetacular de justiça vigilante" da Alemanha: uma mãe em luto tomou uma atitude devastadora na década de 1980 e chocou o país

Alana Sousa Publicado em 09/02/2021, às 13h00 - Atualizado às 21h57

Imagem de Marianne Bachmeier
Imagem de Marianne Bachmeier - Divulgação

Era o terceiro dia do intenso julgamento de Klaus Grabowski, um açougueiro de 35 anos que estava sendo acusado de assassinar Anna, sua vizinha de apenas 7 anos. O Tribunal Distrital de Lübeck, na antiga cidade da Alemanha Ocidental, estava lotado naquele 6 de março de 1981, até que o público presente foi dispersado com os disparos de arma de fogo.

Uma das pessoas que assistia de perto o processo era Marianne Bachmeier, mãe de Anna e autora da sequência de tiros. Seu objetivo era claro e foi atingido com precisão: matar o homem que supostamente tirou a vida de sua filha. Dos oito disparos que a alemã efetuou, seis atingiram Grabowski, que veio a óbito ainda no local.

Marianne Bachmeier em fotografia da época / Crédito: Divulgação

 

A imprensa passou a chamá-la de ‘Mãe da Vingança’, descrevendo a reviravolta do episódio como o “caso mais espetacular de justiça vigilante na história do pós-guerra alemão”. O julgamento recomeçou, desta vez com outra pessoa sentada no banco do réu, Marianne teria que responder por assassinato.

A morte de Anna, um assassinato brutal

Anna era a terceira filha de Marianne Bachmeier, suas duas primeiras crianças tinham sido enviadas à adoção. A mulher, na época com 30 anos, era mãe solteira e criava a menina em condições difíceis; trabalhando em um pub, ela havia sido esterilizada após o nascimento de seu último bebê — prática comum na época.

A última vez que a criança foi vista com vida aconteceu no dia 5 de maio de 1980. Depois de uma briga com a mãe, Anna decidiu não ir à escola, e optou buscar refúgio na casa de um amigo. Foi então que Klaus a teria sequestrado e levado a pequena para sua residência; o corpo da garota foi encontrado horas depois, dentro de uma caixa de papelão, em uma cova rasa na beira de um fosso.

Com a denúncia da noiva de Grabowski, a polícia alemã conseguiu capturar o responsável pelo crime rapidamente. A perícia revelou que Anna tinha sido morta por estrangulamento, a arma utilizada era uma meia calça.

Foto de Marianne Bachmeier no tribunal / Crédito: Divulgação

 

O passado do assassino veio à tona em pouco tempo, condenado anos antes por abuso sexual infantil, Klaus tinha sido castrado em 1976, e passava por uma terapia hormonal. Ainda que o homicida tenha afirmado em seu depoimento que não tinha intenção de violentar sexualmente Anna, esse detalhe que foi inserido durante seu julgamento.

Julgamento e morte de Klaus Grabowski

Mesmo que os primeiros passos do processo para condenar Grabowski por assassinato tenham evoluído em uma velocidade rápida, ele só foi levado ao tribunal quase um ano mais tarde.

Até aquele momento, o caso tinha recebido um espaço comum na mídia, reservado para crimes locais. Foi apenas quando Marianne entrou fatalmente na história que a situação ganhou proporções gigantescas.

Durante seu tempo na corte, a principal linha de defesa utilizada por Klaus foi a de que Anna teria o chantageado para receber dinheiro. Segundo o criminoso, a criança de apenas 7 anos afirmou que o acusaria de abuso sexual caso ele não lhe desse uma quantia satisfatória.

A história afetou profundamente Marianne, que não suportava ver as mentiras sobre sua filha ganharem as páginas dos jornais. De acordo com a mulher, Anna jamais teria feito qualquer ameaça, descrevendo-a como “uma criança feliz e de mente aberta”.

Apesar dos esforços, as autoridades não conseguiram definir se o vizinho teria abusado sexualmente de sua vítima antes de sufocá-la. Todavia, as condenações anteriores foram o suficiente para que o caso terminasse com uma sentença severa para Grabowski.

Klaus Grabowski em fotografia / Crédito: Divulgação

 

Assim seria se não fosse pela atitude inesperada e feroz de Bachmeier. Portando uma pistola semiautomática Beretta M1934, Marianne alvejou o homem que tanto odiava; era o fim de um assassino cruel, morto pelas mãos da mulher que ele mais atormentou.

Marianne Bachmeier, a ‘Mãe da Vingança’

“Eu queria matá-lo”. Ninguém esperava pelo assassinato planejado pela alemã. Em profundo luto, testemunhas afirmaram ter ouvido Marianne chamar Klaus de “porco”, após vê-lo caído no chão da corte. Para a polícia, ela contou que já não aguentava mais ouvir mentiras sobre sua tão amada filha e precisava agir de alguma forma.

Um suposto depoimento que circulou na mídia alemã, apresentava a confissão de Bachmeier: “Ele matou minha filha... Eu queria atirar nele no rosto, mas atirei nas costas dele... Espero que ele esteja morto”.

Para comprovar a autenticidade do documento, especialistas pediram para que a mãe escrevesse em um pedaço de papel qualquer frase, a qual ela redigiu: “Fiz isso por você, Anna”. As palavras foram seguidas pelo desenho de sete corações, possivelmente, representando os anos de vida de sua filha.

A última lembrança de Marianne, antes de tomar a decisão que mudou o rumo do processo, foi o pedido de Klaus para fazer mais uma declaração. “Eu pensei, agora vem a próxima mentira sobre essa vítima que era minha filha”.

As particularidades sobre a história estavam sendo divulgadas pela revista da Alemanha, Stern, para a qual a mulher teria vendido sua saga em troca de dinheiro para bancar suas despesas legais — outros meios de comunicação como NDR e UPI também cobriam intensamente os desdobramentos do caso.

Embora o julgamento estivesse nas mãos da Justiça, entre a população do país, a sentença era um dilema a ser debatido. Quando foi anunciada a pena de seis anos para Bachmeier, a sociedade se dividiu.

Marianne Bachmeier, a 'Mãe da Vingança' / Crédito: Divulgação

 

Uma pesquisa do Instituto Allensbach, revelou que 27% dos alemães julgaram a pena como muito pesada; 25% consideraram muito leve; e, ainda, 28% do povo aceitou a sentença como apropriada.

O fim de uma justiceira

Começando a cumprir a pena em 1983, Marianne permaneceu detida por quase três anos, sendo liberada em meados de 1985. Seu próximo passo foi tentar reconstruir a vida, já que ela havia perdido tudo que tinha.

Mudou-se para a Nigéria, engatou um relacionamento, mas se divorciou em 1990. Foi quando passou uma temporada na Sicília e descobriu um câncer pancreático. Em uma de suas poucas entrevistas, ela conversou com uma rádio alemã no ano de 1994: “Acho que há uma grande diferença se eu matar uma menina porque tenho medo de ter que ir para a prisão por minha vida”, disse ela quando perguntada sobre as diferenças de seus atos para os de Klaus.

Levando dias mais calmos — se comparados com o passado — e esperando o fim iminente, Bachmeier jamais podia ter premeditado toda a comoção e sofrimento que seria submetida. Falecendo em setembro de 1996, em um hospital na mesma cidade que a filha tinha sido morta.

Entre justiceira, vingativa, mãe e assassina, Marianne finalmente descansou quando seu corpo foi enterrado ao lado de Anna, em um cemitério de Lübeck.


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