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Marie Vassiltchikov, a princesa russa que enfrentou a Segunda Guerra

Assim como diversas vítimas dos acontecimentos desencadeados pelo conflito, Missie, como era conhecida, viveu no limite

Redação Publicado em 29/08/2021, às 11h00

Fotografia de Marie Vassiltchikov ao lado de seu livro
Fotografia de Marie Vassiltchikov ao lado de seu livro - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

"Quinta, 16 de março, 1944: Ainda sem receber quaisquer pacotes de comida; hoje comemos torradas besuntadas com gordura de peru. Sábado, 18 de março, 1944: Voltei para casa, depois de um dia fora esquiando, para encontrar uma caixa de vinhos que o ajudante do embaixador tinha acabado de trazer; imediatamente abrimos uma garrafa e nos assentamos para uma noite tranquila.”

As anotações no diário de Marie Vassiltchikov, escrito em sua maior parte em Berlim, durante a Segunda Guerra, são um registro histórico preciosíssimo. Primeiro, por ser um dos poucos escritos em tempo real por uma testemunha ocular dos bombardeios, assassinatos políticos e inúmeras outras misérias enfrentadas pelos alemães na época.

O outro motivo é que Marie Vassiltchikov era uma princesa russa e, por força da sua origem nobre, atravessou essa época de tragédias de modo absolutamente fora dos padrões. É o que se pode ler nos registros que estão no início deste texto: em um espaço de dois dias, Missie — como era chamada pelos parentes e amigos — ia da fome e desnutrição a uma tarde esquiando e degustando vinhos finos.

Durante o dia, podia passar horas apertada em algum porão escuro junto com desconhecidos, esperando a chuva de bombas sobre Berlim cessar e, no jantar, comia ostras e tomava champanhe em algum hotel elegante acompanhada de diplomatas.

Jovem (começou a escrever aos 23 anos), bonita, poliglota e conhecida e querida pela nobreza de vários países, Missie se envolveria em um dos episódios mais ousados e sangrentosda guerra: a tentativa de assassinar Adolf Hitler, em 20 de julho de 1944.

Vários membros da aristocracia, muitos deles próximos de Missie, seriam presos e executados pela SS. Nascida em São Petersburgo, em 1917, ano em que os bolcheviques tomaram o poder, Missie cresceu como refugiada na Europa, com seus pais e irmãos.

A guerra a surpreendeu em férias na Alemanha, onde ficaria até quase o final do conflito. Seu conhecimento de línguas lhe valeu um emprego no Departamento de Informações do Ministério do Exterior, no qual teve como chefes notórios criminosos de guerra.

Mas seu emprego privilegiado e a intimidade com nobres não a deixou escapar de dificuldades comezinhas, como o racionamento de banhos, papel higiênico ou de ter que dar um jeitinho para conseguir um litro de leite que sobrava do estoque destinado às gestantes, comprar perfumes contrabandeados da França ou ser obrigada a catar cogumelos para reforçar o jantar.

Se a tensão dos bombardeios e a fome fizeram de Missie alguém tão calejado e determinado como um alemão comum, vez ou outra ela deixava escapar em seu diário que ainda era uma princesa. Como em um sábado em 1942, quando registrou que, de tão cansada, havia trocado um aperto de mão com um chofer de táxi.

Ou em 28 de julho: “Esta manhã fui ao cabeleireiro para fazer uma permanente, deixando meu cabelo encaracolado. Goebbels [Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha Nazista] anunciou a Guerra Total, o que implica o fechamento de todas as lojas ‘supérfluas’”. Missie escrevia suas desventuras em inglês e em código. Escondia as anotações e as recuperaria após o final da guerra, quando foi residir na Inglaterra, país em que morreu, em 1978.


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