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Mark Hogancamp: o homem atacado por neonazistas que "acordou" em 1984

Espancado por lunáticos, Hogancamp perdeu a memória por conta de lesões cerebrais e foi na construção de seu próprio mundo fictício que encontrou uma maneira de lidar com tudo

Ingredi Brunato Publicado em 27/08/2020, às 16h13

Uma das fotografias de Marwencol, a cidade fictícia criada por Mark Hogancamp.
Uma das fotografias de Marwencol, a cidade fictícia criada por Mark Hogancamp. - Divulgação/ Mark Hogancamp

Eram os anos 2000, em um bar na cidade de Nova York, quando Mark Hogancamp, de 38 anos, começou a conversar com um grupo de cinco jovens que estava bebendo próximo a ele. Ele ainda não sabia, mas aquela seria a noite que mudaria sua vida para sempre. 

A questão é que Mark tinha um hobbie que não era bem encarado na sociedade de vinte anos atrás. Ele gostava de usar nylon e saltos altos, e embora costumasse manter isso em segredo, o álcool acabou soltando sua língua. 

“Recebi o soro da verdade definitivo, que é o álcool. Acho que pensei que as pessoas conseguiriam lidar com isso. Mas aparentemente não”, contou ele em entrevista ao The Guardian. 

Hogancamp havia, infelizmente, se aberto com as pessoas erradas. Os cinco jovens acabaram seguindo-o enquanto ele voltava para casa - e o atacaram por trás. Eles deram diversos chutes na cabeça do homem, e fugiram da cena do crime quando ele não mais respirava. Foram transeuntes passando na rua, mais tarde, que o prestaram socorro. 

Anos perdidos 

Ele acordou nove dias mais tarde, no hospital. Estava em coma. E agora que voltava à consciência, estava rapidamente descobrindo que os últimos dezesseis anos de sua vida tinham sido apagados de sua memória. Mark Hogancamp acordou pensando que era o ano de 1984, e ele ainda estava na época em que serviu à Marinha. Havia esquecido, por exemplo, a esposa, com quem tinha tido um casamento de cinco anos após deixar a Marinha.

Quando sofreu o ataque, Mark não estava no melhor momento de sua vida. Seu casamento havia acabado, e ele tinha caído no alcoolismo. Seu melhor amigo era Tom, o barman do bar que costumava ir. 

Crédito: Mark Hogancamp 

 

Vida sequelada 

As lesões cerebrais causadas pela violência sofrida por Hogancamp, no entanto, foram tão sérias que o obrigaram a começar sua vida do zero: além dos anos perdidos, ele já não conseguia fazer tarefas básicas, como andar, falar ou mesmo usar o banheiro sozinho. Tinha 38 anos, mas havia se tornado totalmente dependente de outras pessoas. 

“Os médicos tiveram que arrancar meu globo ocular, colocá-lo na bochecha, limpar os fragmentos ósseos e colocar meu olho de volta”, contou ele sobre seus processos cirúrgicos. 

A fisioterapia e a ajuda de Tom foram essenciais em sua recuperação, porém infelizmente não duraram muito. Após um ano, sua seguradora o telefonou para avisá-lo que não podia mais pagar pelos cuidados fisioterapêuticos. 

"Quando minha terapia foi interrompida, odiei todos os homens na Terra”, contou Hogancamp ao repórter do The Guardian. “Eu me senti como se tivesse sido expulso da tribo dos homens no planeta Terra. Mas depois de um mês odiando tudo, pensei: 'Tenho que fazer algo ou então esse ódio e a raiva vão crescer e me matar.' Eu precisava fazer alguma coisa. ”

Crédito: Flickr

 

Então nasceu Marwencol 

Foi da necessidade de processar a raiva que tinha de seus agressores que Mark Hogancamp construiu uma cidade fictícia ambientada no cenário da Segunda Guerra Mundial. 

Na maquete organizada no gramado atrás do trailer onde vivia, ele usou bonecos vestidos como soldados, madeira para construir pequenos estabelecimentos, e veículos em miniatura, além de diversos outros truques, a fim de dar vida à Marwencol. 

A cidade não é nada pacífica: diversas cenas de horror são encenadas pelos bonecos que a habitam, e fotografadas por Hogancamp. O realismo do sangue que parece fresco (uma mistura de água, açúcar rosa e esmalte para unha, segundo contou ele) e do chão lamacento apresentam um toque especial para as imagens produzidas no povoado fictício. 

Mark confessou ainda que já “matou” seus agressores de diversas formas, em Marwencol. Os cinco jovens, assim como ele próprio, tem cada um seu respectivo representante de plástico, e a cada novo cenário em que seu boneco saiu triunfante e o grupo foi punido com a morte, sua raiva por eles diminuiu um pouco. 

Crédito: Divulgação/ Mark Hogancamp. 

 

Dias atuais 

Hoje, a detalhada cidade em miniatura já inspirou um documentário longa-metragem, e um livro chamado “Bem-vindo a Marwencol”, além de ter seu próprio site, onde é possível comprar novas fotografias ou pôsteres.

Mark Hogancamp continua usando seus sapatos de salto - atualmente, ele tem cerca de 300 pares -, mas agora com o conhecimento de todos, e sem mais sofrer violência por isso. 


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