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Marquesa de Santos: A santa das prostitutas

Segundo o imaginário popular, Domitila, sepultada no cemitério da Consolação, em São Paulo, protege as prostitutas da cidade

Valentina Nunes Publicado em 18/06/2019, às 14h00

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Bonita, sedutora, altiva, ousada, independente, rica e generosa, Domitila de Castro Canto e Melo, Titília para os familiares e amigos mais chegados, foi muito mais do que, simplesmente, uma das amantes de dom Pedro I.

Nobre de berço, a sétima e penúltima filha de João de Castro e Canto Melo, militar açoriano, e de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas, descendente de uma das primeiras famílias aristocratas paulistanas, nunca dependeu dos paparicos do imperador para ter brilho próprio e desempenhar papel de destaque na história brasileira entre os séculos XVIII e XIX.

Nascida em 27 de dezembro de 1797, morreu em 3 de novembro de 1867, de infecção intestinal, no palacete comprado por ela, na rua do Carmo, atual Roberto Simonsen, sede do Museu da Cidade de São Paulo.

Sepultada no cemitério da Consolação, cuja capela original foi construída com doação de dois contos de réis feita pela própria Domitila, o túmulo onde também estão os corpos do irmão mais novo, Francisco; de Felício, filho de seu primeiro casamento; e de Maria Isabel, uma das duas filhas com Pedro I, foi recuperado no início da década de 1980.

Os custos da reforma foram bancados pelo sanfoneiro Mario Zan, famoso devoto que, mesmo depois de morto, paga as despesas de manutenção dos jazigos com dinheiro dos direitos autorais de suas músicas.

Passados tantos anos, o túmulo ainda recebe sempre flores frescas, lembrança de pessoas que a consideram uma espécie de santa sem beatificação. Uma das lendas que ilustram o imaginário popular é que ela protege as prostitutas da cidade.

De pele clara e olhos escuros, Domitila tinha apenas quinze anos, em 1813, quando se casou com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, oficial do 2º Esquadrão do Corpo dos Dragões da Cidade de Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais.

Tiveram três filhos, o caçula morreu ainda na infância, e logo Felício se revelou um marido violento, envolvido em sucessivas bebedeiras e jogos de azar. Cansada de sofrer, em 1816 ela voltou para a casa dos pais, em São Paulo, com as crianças.

Três anos depois, aceitou a reconciliação, mas ele voltou ainda mais agressivo. Endividado e interessado em vender as terras herdadas da família, Felício falsificou a assinatura dela e tentou matá-la a facadas, em 6 de março de 1819, em São Paulo. Ele a acusou de traição e alegou “legítima defesa da honra”, mas foi preso e levado ao Rio de Janeiro. Três anos depois, Domitila conheceu dom Pedro, casado desde 1817 com Leopoldina de Habsburgo.

O relacionamento entre ela e dom Pedro começou em 1822 e terminou em 1829, sete anos registrados em mais de duzentas cartas de amor e confidências. Em outubro de 1826, ela ganhou o título de marquesa de Santos, sem nunca ter pisado na cidade, o que teria sido uma desfeita do imperador a José Bonifácio de Andrada, antigo aliado e santista de nascimento.

Viúvo de Leopoldina, dom Pedro expulsou Domitila da corte em 1829, grávida de Maria Isabel, e se casou com Amélia de Leuchtenberg. Rica, em 1833 a marquesa de Santos se envolveu com o poderoso presidente da província de São Paulo, Rafael Tobias de Aguiar. Ficaram juntos durante 24 anos, mesmo quando ele foi preso por participar da Revolução Liberal. Tiveram seis filhos.


Reportagem retirada do Livro 365 dias de mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil, (p. 642, 643).