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Marta Hillers, a jornalista que foi violentada por soldados soviéticos

Além dos constantes aliciamentos, a jovem sofreu com as críticas negativas e teve de manter o anonimato por quase 50 anos

Wallacy Ferrari Publicado em 01/06/2020, às 13h00

Fotografia de Marta Hillers em 1975
Fotografia de Marta Hillers em 1975 - Divulgação

Nascida em Krefeld, na Alemanha, Marta Hillers recebeu uma educação meticulosa, dividindo os estudos entre o país-natal e Paris, na França, onde desenvolveu suas habilidades apuradas para a comunicação na Sorbonne Université, universidade mais tradicional do país. Após concluir o ensino superior, a jovem buscou se especializar em línguas e passou a rodar pela Europa.

Passando por diversos países, Marta desenvolveu o francês, alemão, russo e um pouco de inglês após uma longa jornada que chegou a incluir a União Soviética, e voltou para Berlim trabalhando como jornalista, escrevendo artigos para jornais e revistas e realizando traduções. Sua escrita chegou a proporcionar um trabalho extra como redatora no Partido Nazista, por curto prazo.

Em 1945, a jovem fazia a cobertura da invasão soviética em Berlim quando foi capturada por militares, aproveitando a oportunidade para cobrir o que acontecia internamente nos cativeiros soviéticos. Com o auxílio de um diário, Marta manteve registros pessoais e descreveu os companheiros de prisão.

Fotografias de Marta Hillers durante a juventude / Crédito: Divulgação

 

Os dias de horror

O que era para ser um relato interno se tornou uma construção do terror sofrido pelas mulheres internamente, descrito em seu diário como a “calamidade alemã”. Hillers chega a dizer que os seres presos eram tratados como fertilizantes, enchimento de colchões e tapetes de feltro. O sofrimento se torna mais notável quando relata os estupros cometidos pelos militares do Exército Vermelho.

Entre as inúmeras ocasiões, a jornalista relata uma ocasião onde chegou a vomitar após ser violentada por um homem: “Eu estou entorpecida. Não com nojo, apenas com frio. Minha coluna está congelada: gelada e tonturas tremem na parte de trás da minha cabeça. Sinto-me deslizando e caindo, descendo, descendo pelos travesseiros e as tábuas do assoalho”.

Buscando reduzir as ocasiões de violência sexual rotativas entre os militares, Martha desenvolveu uma técnica que asseguraria a jovem até sua liberação; decidiu se arrumar, limpar e seduzir um oficial soviético de alto escalão, de maneira que o mesmo se tornasse seu protetor e impedisse outros estupros internos. A estratégia deu certo e a jovem foi liberada com o fim da Segunda Guerra Mundial.

As capas das publicações de 1959 (à esq.) e de 2003 (à dir.) / Crédito: Divulgação

 

O anonimato de décadas

Incentivada por um amigo, se mudou para os Estados Unidos e por lá viveu até o início da década de 1950, porém, antes de voltar para a Europa, transcreveu suas memórias do diário para um livro em inglês e publicou anonimamente. Em 1959, fez a mesma coisa em alemão, quando mudou para Genebra, na Suíça. Nas duas ocasiões, no entanto, recebeu críticas negativas na Alemanha.

O povo alemão ainda não estava adaptado aos relatos de sofrimentos militares e chegou a ser acusado de “ter ofendido a honra das mulheres alemães”. Apesar da recepção, o anonimato foi mantido e Marta não teve sua identidade revelada, prosseguindo no jornalismo e produção editorial. Antes de falecer, em 16 de junho de 2001, manifestou o desejo aos amigos próximos de republicar a obra.

Em 2003, o pedido foi realizado com o auxílio do amigo Hans Magnus Enzensberg, que também publicou anonimamente e recebeu diversas críticas positivas. Entre os comentários, Jens Bisky, editor literário de um importante jornal alemão, fez questão de revelar que o livro havia sido escrito por Marta Hillers — posteriormente confirmado por Hans — encerrando o mistério.


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