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A saga do adultério no Brasil Império

Nos tempos de Dom Pedro I, o sexo fora do casamento começava no topo da pirâmide

Mary Del Priore Publicado em 03/01/2020, às 09h00

Dom Pedro I e Dona Leopoldina, por Julien Palliere, 1826
Dom Pedro I e Dona Leopoldina, por Julien Palliere, 1826 - Wikimedia Commons

No céu do século 19 brilhou uma estrela. A estrela do adultério. A história de amantes prolonga, sem dúvida, um movimento que existia há séculos. A diferença é que a simples relação de dominação – como, por exemplo, a que houve entre senhor e escravas durante o período colonial – deu lugar a uma relação que o cinismo do século tingiu com as cores da respeitabilidade. Por vezes, até apimentou com sentimentos. O exemplo vinha de cima.

O período abriu-se com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808. Entre os membros da família real, Carlota Joaquina já vinha malfalada por viver na Quinta do Ramalhão, palácio distante do marido, dom João. À boca pequena murmurava-se sobre a rainha com o comandante das tropas navais britânicas, Sydney Smith. A ele, Carlota Joaquina ofereceu de presente uma espada e um anel de brilhantes. Temperamental e senhora de um projeto político pessoal – queria ser regente da Espanha –, a rainha teve, sim, amores. Todos encobertos pela capa da etiqueta e por cartas trocadas com o marido, nas quais, apesar de não viverem juntos, ele era chamado de “meu amor”.

Carlota Joaquina e dom João VI / Crédito: Wikimedia Commons

 

A nora, recém-chegada de uma das mais sofisticadas cortes europeias, a Áustria, escreveu aos familiares, chocada com o comportamento de Carlota Joaquina: “Sua conduta é vergonhosa, e desgraçadamente já se percebem as consequências tristes nas filhas mais novas, que têm uma educação péssima e sabem aos 10 anos tanto como as outras que são casadas”.

Os casos amorosos da rainha eram conhecidos, e o mais rumoroso deles resultou no assassinato a facadas – a mando da própria – da mulher de um funcionário do Banco do Brasil, sua rival. Enquanto isso, comentava-se a solidão de dom João VI, atenuada, dizem biógrafos, graças aos cuidados de seu valete de quarto.

De família

O filho dom Pedro não escondeu seus casos. Dizia-se que ele tinha “um objeto distinto para cada semana, nenhuma conseguindo fixar sua inclinação”. Isso até ir a São Paulo, em setembro de 1822. Lá encontrou Domitila de Castro Canto e Mello. Tinha dom Pedro 24 e Domitila 25 anos. Belíssima? Não exatamente. Certo pendor para a gordura, três partos, cicatrizes, um rosto fino e comprido. Era mãe de três filhos e acusada de adultério. Tomara uma facada do marido, certa manhã em que voltava, às escondidas, para casa. O fato era conhecido em São Paulo e manchava o nome da família.

Tinha início entre os dias 29 e 30 de agosto de 1822 uma aventura romanesca que marcaria a vida de dom Pedro. Esse affair extravasou a alcova e refletiu-se na vida política e familiar do príncipe, bem como na imagem que dele se fazia dentro e fora do país.

Passado um ano, a data do primeiro encontro foi registrada pelo próprio dom Pedro: “O dia 29 deste mês em que começaram nossas desgraças e desgostos em consequência de nos ajuntarmos pela primeira vez, então tão contentes, hoje, tão saudosos”.

Em outra missiva fala do dia 30 como aquele em que “comecei a ter amizade com você”. Logo após tornar-se imperador, deixa de lado a discrição, transformando Titília numa “teúda e manteúda”, que é apresentada à corte e instalada em casa, o atual Museu do Primeiro Reinado, ao lado do Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Domitila de Castro, a Marquesa de Santos /  Crédito: Wikimedia Commons

 

Em novembro de 1822, dom Pedro felicitava Domitila por “estar pejada” e anuncia-se “disposto a sacrifícios” para honrar os compromissos de pai. Mas a criança nasceu morta. Em 1824, vem ao mundo Isabel Maria de Alcântara Brasileira, a “Belinha”. Em 12 de outubro de 1825, dom Pedro contempla a amante com o título de viscondessa, no mesmo ano em que nasce mais um filho do casal. Em 1826, no dia do imperial aniversário, ela tornou-se a Marquesa de Santos. 

As cartas para a amante são recheadas de suspiros e voluptuosidade: “Meu amor, meu tudo”, “meu amor, minha Titília”, “meu benzinho... vou aos seus pés”, rabiscava. E mais incisivo: “Forte gosto foi o de ontem à noite que tivemos. Ainda me parece que estou na obra. Que prazer!! Que consolação!!!”

E terminava “com votos de amor do coração deste seu amante constante e verdadeiro que se derrete de gosto quando... com mecê”. Ou mandava “um beijo para a minha coisa”; “abraços e beijos e fo...”  E depois, mortificado de ciúmes, perguntava “será possível que estimes mais a alguém do que a mim?” E assinava-se “seu Imperador”, “seu fogo foguinho”, “o Demonão”.


Mary Del Priore é doutora em história social com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, vencedora do Prêmio Jabuti e autora de Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil.