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Massacre na montanha de Meadows: fanáticos religiosos exterminaram pioneiros a caminho do Velho Oeste

Em 1857, o atentado sangrento fora promovidos por fiéis mórmons

Cíntia Cristina da Silva Publicado em 10/01/2021, às 01h22

Os imigrantes americanos haviam entregado suas armas quando foram executados
Os imigrantes americanos haviam entregado suas armas quando foram executados - Acervo AH / Bernardo Borges

O sol mal havia nascido no dia 7 de setembro de 1857 quando imigrantes americanos de uma caravana que atravessava o estado de Utah, a caminho da Califórnia, foram surpreendidos por tiros em meio ao café da manhã.

Em pouco tempo, cerca de 160 viajantes, incluindo dezenas de crianças, seriam assassinados por fanáticos mórmons em um dos mais sangrentos ataques promovidos por religiosos nos Estados Unidos.

Esse outro setembro de terror, conhecido como “o massacre da montanha de Meadows”, é considerado por historiadores como a maior atrocidade provocada por cidadãos americanos contra civis até o atentado a bomba ao prédio federal em Oklahoma City, em 1995, que matou 169 pessoas – o 11 de setembro de 2001 está fora da lista, já que as quase 3 mil mortes não foram provocadas por americanos.

Em American Massacre (“Massacre americano”, sem versão em português), a jornalista americana Sally Denton conta, em detalhes de embrulhar o estômago, todas as atrocidades cometidas em Utah. 

O livro narra que, logo após ouvirem os primeiros tiros no dia 7 de setembro, os homens da caravana foram encurralados. Sem saber de onde o ataque partia, eles se defenderam como puderam, construindo um forte com as próprias carroças.

Privados de água e comida, tentaram finalmente negociar uma trégua: enviaram duas menininhas vestidas de branco dos pés à cabeça em direção aos inimigos. As duas crianças morreram baleadas a sangue frio.

Após cinco dias de desespero, surgiu um homem informando que o ataque era movido por indígenas da região. Esse mesmo homem disse que os indígenas exigiam que eles entregassem suas armas.

Sem alternativa, os sitiados aceitaram as condições e iniciaram uma retirada, com as mulheres e crianças na frente e os homens atrás. Eles ainda não sabiam que haviam caído em uma armadilha.

A pessoa que viera negociar chamava-se John D. Lee e era, na verdade, um dos homens mais próximos do líder mórmon Brigham Young. Assim que os homens da caravana começaram a se retirar, John D. Lee deu a ordem: “Façam seu trabalho”.

Imediatamente, dezenas de mórmons surgiram e iniciaram a matança dos homens desarmados que, até aquele momento, não sabiam que aqueles eram os autores dos disparos. Todos foram massacrados, com exceção de 17 crianças que tinham entre 9 meses e 7 anos – de acordo com os mórmons, menores de 8 anos são considerados “sangue inocente”.

Os sobreviventes foram levados para um rancho. Ainda histéricos e cobertos com o sangue de seus pais e irmãos, foram adotados pelos responsáveis pela carnificina – personalidades da alta hierarquia da comunidade religiosa mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Após a matança, começou a pilhagem. Os assassinos roubaram tudo. Nem mesmo as roupas ensanguentadas foram esquecidas. Os corpos foram deixados à mercê de coiotes e abutres famintos.

Quando o major James H. Carleton passou pelo cenário do massacre, dois anos depois, ele viu ossos desconjuntados, crânios e mandíbulas. “O cenário continuava horrível, difícil de suportar”, escreveu o oficial na época. O pior é que, segundo a jornalista Sally Denton, o principal motivo do massacre não foram diferenças religiosas – e sim o interesse na carga que os imigrantes carregavam para a Califórnia.

Carga preciosa

A caravana que foi dizimada pelos mórmons não era formada por imigrantes maltrapilhos em busca de riqueza fácil no Oeste. Seus integrantes eram camponeses prósperos liderados por Alexander Fancher, um veterano da Guerra do México (travada entre 1846 e 1848) que tinha direito a um pedaço do território anexado pelos Estados Unidos na Califórnia.

Acompanhado de sua mulher Eliza e de nove filhos, eles logo foram seguidos por outros fazendeiros, como o também líder John Twitty Baker. No total, entre 20 e 30 famílias partiram para o Oeste.

Uma empreitada dessas exigia um ano de preparação. Cabia às mulheres organizar listas dos itens de necessidade básica como roupas e fogões, além de suprimentos como trigo, arroz, café, açúcar e manteiga. Os homens cuidavam dos armamentos, das ferramentas e dos animais que fariam a viagem.

Além das milhares de cabeças de gado, estima-se que os imigrantes levavam mais de 100 mil dólares em moedas de ouro, uma verdadeira fortuna para a época. No dia 7 de maio de 1857, a então mais rica caravana a cruzar o continente americano partiu do estado do Arkansas para a Califórnia, cruzando o Kansas, Nebraska e Washington até chegar em agosto ao estado de Utah.

Ao pararem na cidade de Salt Lake City, os problemas começaram. Apesar da abundância de alimentos, os comerciantes mórmons se recusaram a vendê-los para os “gentios”.

Desesperados diante da negativa de venda de vários comerciantes, eles partiram para as cidades vizinhas, sem saber que elas também haviam recebido ordens de não vender nada para o grupo.

Segundo historiadores, essa conduta selou uma sentença de morte aos viajantes. Além do boicote, boatos incitavam o ódio aos integrantes da caravana. Rumores afirmavam que os “gentios” insultavam continuamente as mulheres e os líderes mórmons.

No dia 21 de agosto, os viajantes finalmente conseguiram comprar milho em um vilarejo indígena. Mas quando a caravana seguiu pela montanha de Meadows, considerado até então o lugar mais bonito da viagem, foi surpreendida pelo ataque covarde.

Bode expiatório

Por muito tempo, os autores do massacre da montanha de Meadows tentaram culpar os índios pelo atentado. Poucos anos depois, contudo, já era de conhecimento público que a chacina havia sido orquestrada por um grupo de mórmons liderados por John D. Lee e sob ordem do líder supremo da igreja, Brigham Young.

Segundo a jornalista Sally Denton, os autores do massacre estavam interessados em dinheiro e influência. Na época, o líder mórmon Brigham Young travava uma briga com o governo dos Estados Unidos.

Para ganhar poder frente ao governo, Young fazia de tudo para que as autoridades americanas acreditassem que era ele quem controlava o “ímpeto sanguinário” dos indígenas da região, evitando assim que os viajantes brancos fossem atacados pelos “selvagens”.

Curiosamente, relatos da época falam de crimes praticados por “indígenas de pele branca” familiarizados com a linguagem típica dos mórmons daquela época.

A carnificina da montanha de Meadows seguiu impune até 1877, quando a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e o líder Brigham Young resolveram colocar toda a culpa pelo massacre em John D. Lee, julgado e condenado à morte. Anos depois, Lee escreveu um relato detalhado do massacre, contando como tudo foi armado.

Em 1999, uma escavação descobriu várias ossadas no local. Apesar do valor histórico da descoberta, uma ordem do governador de Utah determinou que os restos fossem enterrados imediatamente, impedindo a pesquisa na região.