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Massacre no Atlântico: O Pearl Harbor brasileiro

Contrariando ordens, comandante de submarino começou a atacar navios civis no litoral

Marcelo Godoy e Marcus Lopes Publicado em 16/09/2019, às 14h00

O afundamento do Baependi
O afundamento do Baependi - Reprodução

Fazia 36 dias que o submarino alemão U-507, comandado pelo capitão Harro Schacht, patrulhava um gigantesco quadrilátero no Oceano Atlântico, na altura da linha do Equador, sem disparar nenhum torpedo.

A poucos mais do que 200 km de distância do litoral norte do Brasil, sua missão era interceptar o tráfego de navios aliados nas rotas entre Trinidad e Tobago, no Caribe, e a Cidade do Cabo, na África do Sul. Deviam passar por ali armas, equipamentos, combustíveis e homens dos Estados Unidos e da Inglaterra para os exércitos russos e ingleses, que lutavam contra japoneses e alemães no Europa, no Oriente Médio e na Ásia. 

Como nenhuma embarcação cruzara com o submergível, o capitão pediu autorização para mudar de região. Schacht enviou em 7 de agosto de 1942 uma mensagem ao Comando de Submarinos Alemão: “Solicito liberdade de manobra na costa brasileira. 162 mil litros de combustível. Todos os torpedos”.

Harro Schacht iria, dessa forma, mudar a História da guerra e do Brasil. No dia seguinte à solicitação, o Comando de Submarinos respondeu ao capitão: “Liberdade de manobra concedida. Mude de direção e tome o curso de Pernambuco”. Recife era então a principal base usada pela Marinha norte-americana no Brasil. Também recebia navios que faziam a cabotagem entre o sul e o norte do país e cargueiros aliados e neutros.

Marinheiro brasileiro vigia comboio perante ameaça de submarinos alemães / Crédito: Reprodução

 

O capitão alemão, porém, ignorou a ordem, e seguiu para a Bahia. E lá provocou um massacre. Do final da tarde de 15 de agosto até o dia 17, Schacht pôs a pique cinco navios da Marinha Mercante brasileira, matando cerca de 600 pessoas. Baependi foi o primeiro, Araraquara, o segundo, depois Aníbal Benévolo, Itagiba, Arará e a barcaça Jacira. Os quatro primeiros eram navios de passageiros, os dois últimos, de carga. Momentos antes de o Baependi ir a pique, a embarcação estava em festa.

Era aniversário do imediato Antônio Diogo de Queiroz, e grande parte da tripulação e alguns passageiros participavam da comemoração no salão do velho navio, que pertencia à Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. Conforme relato do capitão Lauro Moutinho dos Reis, sobrevivente do naufrágio, o clima era descontraído, com as pessoas “tocando pandeiros, batendo palmas e cantando sambas vindos dos morros cariocas”.

“Eram por volta de 19 horas quando, de súbito, um tremendo estampido sacudiu violentamente o velho vapor. Foi o início de um grande martírio”, relembraria posteriormente o oficial.

Ao ser informado dos ataques, o Comando de Submarinos Alemão deu uma ordem para Schacht voltar a Pernambuco e manter uma distância de 30 milhas náuticas da costa brasileira, o que seria suficiente para não atacar a navegação de cabotagem do país.

Desconfiança Mútua

É com base no estudo da ação e do diário de guerra do U-507, dos documentos da Marinha alemã e nos documentos do julgamento de Nuremberg que o historiador militar Durval Lourenço Pereira constrói a tese central de seu livro Operação Brasil, o Ataque Alemão Que Mudou o Curso da Segunda Guerra Mundial: apesar da ruptura diplomática e do cada vez maior alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, foi o ato de Schacht, e não uma ordem direta de Adolf Hitler, que levou o Brasil à guerra com a Alemanha e a Itália em agosto de 1942.

“Durante o maior conflito mundial, raramente se viu um oficial no posto de Schacht com tamanho poder de influenciar os rumos do conflito usando apenas o seu livre arbítrio”, escreve o historiador. Diferentemente do que foi longamente aceito por nossa historiografia, a ordem de atacar o Brasil não partiu de Hitler, defende o autor.

Para isso, ele se vale dos documentos de alemães e aliados. Depois do ataque japonês em Pearl Harbor, em dezembro de 1941, os norte-americanos buscaram a solidariedade dos países latino-americanos. 

A maioria rompeu relações diplomáticas com o Eixo, caminho também seguido pelo Brasil em janeiro de 1942. Nossos militares, no entanto, hesitavam em apoiar uma declaração de guerra, pois sabiam que a fragilidade de nossas Forças Armadas colocaria o país em risco. Temiam ainda serem obrigados a aceitar a presença de tropas norte-americanas no Nordeste, o que lhes despertava ojeriza.

A desconfiança era mútua entre Brasil e Estados Unidos. Os norte-americanos receavam o que consideravam tendências germanófilas de parte do Exército brasileiro. O impasse impedia uma colaboração estreita entre os países, com o uso de bases no Brasil pela Marinha e pela Força Aérea norte-americana. Também vedava ao Brasil acesso a equipamento moderno para suas forças.

Os aliados, por sua vez, hesitavam em arrastar para a guerra um país despreparado militarmente como o nosso. O próprio primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, se mostrava cético quanto à capacidade do Brasil para entrar no conflito. “Churchill afirmava categoricamente que o Brasil era um país sem tradição de luta, seus efetivos militares eram mal preparados e seu material bélico, arcaico e ineficiente”, diz o historiador Eduardo José Afonso, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Ao mesmo tempo, a animosidade do Estado Novo com o regime alemão se ampliava desde que, em 1938, as atividades do Partido Nazista no país haviam sido proibidas pelo governo. Pouco depois da declaração de guerra, começaram os ataques de submarinos a cargueiros que se dirigiam aos EUA.

Em maio, um avião Catalina da Força Aérea Norte-Americana, baseado no Brasil, atacou dois submarinos italianos na região de Fernando de Noronha. A ação foi assumida pelo governo brasileiro como tendo sido executada por um avião daqui. O ataque provocou reação do Comando de Guerra Naval alemão, que ordenou a realização de um plano para atacar o Brasil. Por duas oportunidades, Hitler adiou os planos da Marinha.

Primeiro, pediu informações aos italianos para que fosse confirmado o ataque aos seus submarinos. Depois, pediu ao Ministério das Relações Exteriores que verificasse a sua conveniência. É o que mostram os documentos da Marinha alemã e o depoimento do almirante Erich Raeder, então comandante da Marinha, no Tribunal de Nuremberg.

Pearl Harbor brasileiro

A ordem para a Operação Brasil – a ação de dez submarinos que deviam atacar simultaneamente os portos de Natal, Belém, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, destruindo boa parte de nossas marinhas de Guerra e Mercante – seria o Pearl Harbor brasileiro.

A flotilha chegou a deixar a França em junho em direção ao Brasil, mas a operação foi cancelada, segundo documento da Marinha alemã, por considerações diplomáticas – temiam que o ataque levasse não só o Brasil à guerra contra a Alemanha, como também arrastasse os demais países da América do Sul para o embate. 

Durante anos, a ação solitária de Schacht foi confundida com os planos da Operação Brasil – inclusive pela história oficial da Marinha norte-americana. Depois do ataque do lobo solitário aos navios brasileiros, o clima de desconfiança entre Brasil e EUA se dissipou. Em pouco tempo, os norte-americanos puderam ampliar a base de Parnamirim, em Natal, e usar outras bases e portos no Brasil.

A entrada do país na guerra assegurou de vez o domínio da chamada Cintura do Atlântico – o trecho de oceano entre o Nordeste brasileiro e a África – e permitiu que o abastecimento de tropas na Ásia, na África e na URSS fosse feito depois que outras rotas haviam sido fechadas pela guerra.

Algoz resgata vidas

Outro episódio envolvendo o U-507 foi a missão de salvamento após o bombardeio de um navio britânico no Oceano Atlântico por outro submarino alemão, o U-156. Em 12 de setembro de 1942, após a missão realizada na costa brasileira, o submarino retornava para a sua base na Europa quando recebeu ordens para ajudar no recolhimento de sobreviventes do naufrágio do navio de passageiros RMS Lacônia, de bandeira inglesa. 

Na verdade, o alto comando alemão estava interessado no resgate dos 1.800 prisioneiros de guerra italianos capturados na costa africana e que estavam a bordo. Junto com outro submarino alemão, o U-506, o algoz brasileiro acabou participando de uma missão humanitária e ajudou no resgate, além dos prisioneiros italianos, de centenas de mulheres, homens e crianças sobreviventes, rebocando os botes salva-vidas do Lacônia até a costa de Dacar. 

Sobreviventes do navio inglês Lacônia resgatados por franceses depois de dias á deriva / Crédito: Reprodução

 

Avistados por um avião norte-americano durante o resgate, os submarinos foram atacados e escaparam por pouco da destruição submergindo rapidamente. Mesmo assim, eles voltaram depois para recolher os náufragos que ficaram à deriva.

O episódio gerou a Ordem Lacônia. Assinada pelo comandante alemão Karl Dönitz, a medida proibia a participação de submarinos alemães em qualquer missão de resgate humanitário durante o conflito. “Mantenham-se firmes. Recordem que o inimigo também não se preocupa com nossas mulheres e crianças quando bombardeia a Alemanha”, dizia o documento.

Dissipar a neblina que cobre as decisões durante a guerra é a difícil tarefa dos líderes das nações. Encontrar o que permanece após o nevoeiro é a missão dos historiadores. Schacht morreria no ano seguinte, em 1943, quando tentava novamente atacar navios na costa brasileira.

O U-507 foi destruído por um avião Catalina da frota dos Estados Unidos no dia 13 de janeiro de 1943, quando chegava ao Atlântico Sul, a noroeste de Natal, após ter torpedeado um cargueiro inglês, o Yorkwood. Não houve sobreviventes entre seus 54 tripulantes.