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“Era o inferno de Dante”: Aos 45 anos do incêndio do Joelma, leia entrevista inédita com sobrevivente

Sueli chegou a entrar no mortal elevador dos 13 do Joelma, mas saiu na última hora. Em seu depoimento, revela o horror de estar a uma decisão arbitrária da morte. E comenta a catástrofe atual

Alana Sousa Publicado em 31/01/2019, às 20h00 - Atualizado às 20h10

Edifício Joelma em chamas
Reprodução

Na manhã de 1 de fevereiro de 1974, o Edifício Joelma, localizado na região central de São Paulo, entrava para a História como um dos três maiores incêndios em arranha-céu que o Brasil e o mundo já testemunharam. Ao todo, foram cerca de 490 pessoas feridas, sendo que 191 delas morreram no local. O edifício de 25 andares era formado por escritórios e abrigava na ocasião 756 empregados.

O incêndio teve início às 8h45 da manhã de uma sexta-feira chuvosa. A causa: um curto-circuito em um aparelho de ar condicionado no 12° andar. Cerca de 5 minutos depois se instalou o pânico dentro do prédio, rapidamente o fogo tomou conta de toda a parte superior da construção. Algumas pessoas conseguiram sair ilesas pelo andar térreo nos primeiros momentos e outras buscavam algum sinal de resgate no terraço.

O Joelma é ainda hoje o pior incêndio acidental em arranha-céus da História. Ele só perde em número de vítimas para as torres do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 - esse, no entanto, foi um atentado terrorista, com as estruturas comprometidas pelo impacto de aviões. Dificilmente um incêndio típico. E permanece como uma memória traumática, que levou à revisão radical das leis de São Paulo, que hoje estão entre as mais estritas do mundo. 

Sueli Versignassi tinha 20 anos na época e trabalhava como secretária para um dos diretores do banco Crefisul. Ela foi uma das vítimas do incêndio e contou em entrevista exclusiva à AH com suas memórias daquela manhã de terror. E como ela, por pouco, não acabou se tornando uma das vítimas do elevador com os 13 do Joelma, vítimas que acabaram presas na cabine durante o incêndio e, no estado em que foram encontradas, jamais foram identificadas. 


Entrevista com Sueli Versignassi

Sueli 45 anos depois do ocorrido  Reprodução

AH - O que você se lembra do inicio do incêndio?

Sueli Versignassi – Eu cheguei ao prédio em torno de 9h30, e subi normalmente pelo elevador. Cheguei ao meu andar (18°) e fui até o toalete. Quando eu voltei e fui até a minha sala, uma amiga que trabalhava na mesma sala e era secretária de outro diretor me avisou que o prédio estava pegando fogo. Corremos para a janela e vimos a fumaça preta subindo em rolos muito grandes e muito altos. Tentamos imediatamente ir para a escada, mas quando chegamos lá tinha uma enorme multidão de pessoas subindo e descendo, um tumulto muito grande. Aí nós entramos no elevador, eu e essa minha amiga, Márcia, e na hora tivemos uma intuição de que era perigoso, e saímos. Nesse elevador, que estava lotado, ninguém sobreviveu. Houve um momento que fizemos uma escolha entre viver e morrer.

AH – Qual foi o próximo passo que você tomou?

Sueli – Depois disso, nós tentamos subir as escadas. Acima de nós havia mais quatro andares, porque o telhado era no 22° andar, então a gente foi engatinhando pelo chão. Não dava para enxergar nada, era uma fumaça negra e extremamente forte. Usamos nossas próprias roupas para pôr no rosto, pois o ar era irrespirável. Mesmo com tudo isso, a gente conseguiu subir e chegar ao telhado, atravessamos uma janela bem pequenininha, e essa janelinha nos levou para a parte do edifício em frente à Avenida 9 de Julho. Nesse caso, também foi uma opção de vida ou morte, porque quem entrou pela janelinha que dava em frente à Rua Santo Antônio, aquelas pessoas todas vieram a falecer. Quando o fogo virou com o vento, levou todas aquelas pessoas a óbito. E do nosso lado muito mais gente sobreviveu, mas a perda foi imensa. Eu fiquei ali presa desde em torno das 10h, e só fui resgatada pelos helicópteros as 12h30.

AH – Me conte um pouco mais sobre o momento em que você ficou presa ali, esperando o resgate chegar. 

Sueli – Tivemos momentos de todos os tipos que você pode imaginar, desde tentar se encolher para se esconder das chamas, pois elas lambiam o teto, até usar o corpo de pessoas que já estavam mortas para nos proteger do fogo. Era o Inferno de Dante. Todos os limites a gente enfrentou, muitas coisas desses momentos de terror eu até esqueci por conta dos tratamentos, e acabei deixando gravado o que aconteceu de “melhor”. É indescritível passar por um incêndio em cima de um edifício.

AH – E como ocorreu o resgate por helicóptero?

Sueli – Os bombeiros foram os grandes salvadores, tiveram muita dificuldade de encontrar um helicóptero que pudesse ficar baixo o suficiente em cima do prédio sem que as chamas o atingissem, fazendo com que o helicóptero viesse a explodir. Então foram momentos de muita ansiedade, os helicópteros sobrevoavam, mas não tinham como começar o resgate. Até que veio algum helicóptero de uma base mais longe e como ele era bem grande conseguiu ficar parado no ar mesmo com o vácuo formado pelo calor. Eles jogavam cordas e desciam pendurados nelas, os bombeiros nos seguravam no braço e éramos içados até outra área. Eu morro de medo de altura, mas para me salvar do fogo passei por uma situação dessas. Meu resgate foi muito cinematográfico.

AH – As perdas de pessoas conhecidas devem ter sido muitas, certo? 

Sueli – Muitas das pessoas que estavam com a gente, chefes, amigas que ficavam na mesma sala, perdemos cinco amigas muito próximas, daquelas que sentam mesa com mesa e tinham alguma coisa a dividir e ficar o tempo inteiro uma com a outra. Perdemos assistentes também. Os sobreviventes foram uma minoria, se nós estivéssemos ali em 100 pessoas, quando fomos resgatados não éramos mais do que 30.

Sueli afirma ser uma das vítimas vistas nesta foto, ainda que ela não consiga identificar  Reprodução

AH – Sua amiga Márcia, que esteve com você em todo o momento de pânico, sobreviveu?

Sueli –Minha amiga Márcia sobreviveu, sim, felizmente. Saímos com muitos poucos ferimentos. Fomos duas sobreviventes muito privilegiadas. Ela saiu bem e está feliz.

AH – E os próximos meses que seguiram a tragédia? Houve algum tipo de tratamento psicológico?

 Sueli – O tratamento psicológico foi logo após a volta ao trabalho, porque assim que passou toda essa parte mais traumática, e depois que tivemos alta médica inclusive, todos do banco Crefisul ficaram em apenas um andar, em um prédio que era a sede do então Citibank, em São Paulo. Essa época foi particularmente dolorosa, porque foi quando a gente sentiu mais falta das pessoas que não estavam mais lá. Fiquei com um medo muito grande de subir em elevador durante algum tempo. Durante uns cinco meses o banco forneceu um trabalho com uma psicóloga que fazia terapia de grupo com todos nós. Ajudou bastante, mas de qualquer forma ficaram alguns resquícios.

AH – A qual tipo de trauma você se refere?

Sueli – Durante bastante tempo eu tive certa dificuldade de trabalhar em prédios muito antigos ou muito altos. Passei a ter medo de elevador. Hoje eu já superei, já trabalhei em prédios altos e não tenho o menor problema com isso, mas no começo foi difícil. Em relação ao que ficou, por exemplo, se até hoje eu tenho febre, eu tenho pesadelos com incêndio, eu sinto que estou pegando fogo. Isso foi uma coisa que me acompanhou e que me acompanha até hoje, é o que sobrou desse trauma. E eu só percebo em momentos muito difíceis, como em doenças ou se estou sofrendo uma pressão ou estresse muito forte, às vezes ainda tenho o pesadelo envolvendo a sensação de estar sendo queimada.

AH – Há algo que você gostaria de acrescentar sobre essa tragédia? Como você lembra dela hoje?

Sueli – Só me fortaleceu passar por essa tragédia, não só essa como outras que depois enfrentei, sobrevivi também a um câncer muito grave. Posso te dizer que passar por essa tragédia, assim tão jovem, aos 20 anos, fez de mim uma mulher muito forte. Agora que estamos vivendo um momento como Brumadinho, uma tragédia que envolve tantas famílias e pessoas, apesar da dor, eu sei que quem sobrevive a essas grandes tragédias se fortalece.