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"Me permitiram seguir adiante": O que Martin Scorsese pensa sobre Glauber Rocha

O aclamado diretor de Hollywood admitiu que o Cinema Novo brasileiro ainda é inspirador para sua própria obra, destacando a qualidade do trabalho

André Nogueira Publicado em 19/12/2019, às 08h00

Martin Scorcese (EUA) e Glauber Rocha (Brasil)
Martin Scorcese (EUA) e Glauber Rocha (Brasil) - Wikimedia Commons

“Existem aqueles que têm e aqueles que não têm. Você pode tirar ou pode dar. E você pode compartilhar”. Para Martin Scorsese, aclamado diretor estadunidense, essa é uma informação que pode ser tirada do filme Dragão da Maldade, de Glauber Rocha. Scorsese, em uma entrevista para a Folha de São Paulo em 2006, revela a admiração que possui pelo diretor brasileiro.

Scorsese conta que conheceu o Cinema Novo numa mostra do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) em 1969 ou 1970, quando assistiu Terra em Transe (Glauber Rocha) e Os Fuzis (Ruy Guerra), e que achou as obras extremamente forte. Com isso, conheceu o famoso cineasta baiano. Conta também que os filmes receberam 20 minutos de aplausos.

Porém, o relato que chocou Martin e o aproximou da obra brasileira foi Dragão da Maldade, de Glauber: “Naquela época, [...] a cada três dias estreava uma obra prima: italiana, japonesa, francesa, coisas do mundo inteiro. E, de repente, estreia Dragão da Maldade e ofusca tudo aquilo.”

"Uma ideia na cabeça, uma câmera no ombro", dizia Glauber Rocha / Crédito: Domínio Público

 

Para Scorsese, o Cinema Novo estava reinventando a linguagem cinematográfica a partir do roteiro e da direção. Na sua visão, Glauber está num contexto de mundo em que a política possui um peso muito negativo (plena Guerra Fria) e, apesar disso, o diretor sobrepujaria a política, “pois lidava com uma verdade”. Glauber trata da pobreza e dos filhos da terra.

Nessa reinvenção, a cinematografia de Rocha não seria apenas uma demonstração da tradição cultural brasileira (que o próprio diretor nova-iorquino admite não conhecer bem), mas aglomera e traduz diferentes linguagens do cinema. Ele identifica um uso dos westerns americanos da época, mas que eram puxados em quebra com a tradição dos EUA, a partir de uma ótica do faroeste italiano de Sergio Leone.

A citar tal referência, Scorsese ainda afirma que tanto Rocha quanto Leone fizeram filmes que, num primeiro momento, não foram de seu agrado. Porém, depois de amadurecer a leitura das obras, elas se tornaram essenciais e adoradas pelo diretor, que reconhece uma grande genialidade.

 “Eu não conseguia reagir ao filme de forma analítica, porque estava desarmado por ele, pelo estilo do filme e pela verdade que sobrepuja a política”, ele afirmou.

Antonio das Mortes, ou Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, é o favorito de Scorsese / Crédito: Wikimedia Commons

 

Depois disso, Scorsese se tornou obcecado por Dragão da Maldade, chegando a levar uma cópia do filme para o jornalista da Times Jay Cocks, que o assistiu e teve a mesma reação: no início, desgostou; depois, adorou. O gosto foi tamanho que, quando Glauber Rocha esteve em Nova York pela primeira vez, Scorsese e Cocks fizeram questão de tomar um café com ele.

Ao mesmo tempo, a música de Dragão da Maldade é destaque no filme. “Há algo também em relação a natureza da musica... fiquei obcecado pela música”. Para o diretor de Gangues de Nova York, a música possui um sentido narrativo e traça a história no cinema e, ao ouvir a musicografia de Glauber, ficou encantado a ponto de passar a ouvir a trilha sonora no carro e a distribuir entre músicos e atores de Los Angeles, considerando-a “tão potente quanto Bob Dylan”.

Scorsese também afirmou que os planos-sequência de Terra em Transe e Dragão da Maldade foram inspiradores, chegando a terem sido bases para cenas de Os Infiltrados.

Inspiração é o que exalaria a obra de Glauber Rocha. “Esse é um dos pontos alvos da minha experiência como espectador, o de ter sido iluminado e também porque a coisa interessante sobre os filmes do Rocha é que não há nenhuma tentativa... ele lidou com as mesmas questões que eram discutidas pela sociedade europeia do Pós-Guerra. Mas ele conta de um modo tão direto [...] não havia desculpas”.

Até a violência do filme recebeu menção honrosa: ela é estilizada, lembra uma violência ritualística, é encenada e, portanto, cria distanciamento (Bertold Brecht é citado como referência conceitual). E, mesmo assim, se sentia as agressões do filme, pois a violência era bem construída: havia claras referências do cinema japonês.

Cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Rocha / Crédito: Herbert Richers

 

Há todo um elogio à direção e ao enquadramento na obra do Cinema Novo. Nos recortes, Scorsese vê  um pouco de Orson Welles e de Eisenstein. Rocha seria uma referência para o diretor, que admitiu assistir aos clássicos russos e a Glauber para inspirações de direção. “Creio que os filmes de Rocha me permitiram seguir adiante, a poesia do filme me emocionou”.

“Meu filme predileto do Glauber é O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Eu vou e volto nessa versão em português que tenho e aprecio muito”, conclui Scorsese, um admirador da cinematografia brasileira.


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