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Memorial da Resistência: cicatrizes da História

Espaço de antigo Deops-SP reconstrói relatos da ditadura militar no Brasil

Victória Gearini e Beatriz Borges Publicado em 21/09/2019, às 22h00

Reconstrução de cela presente no Memorial da Resistência
Reconstrução de cela presente no Memorial da Resistência - Victória Gearini

O Memorial da Resistência, antigo Deops-SP, foi reinaugurado em 2008, porém a fundação original se deu no ano de 2002, sendo nomeado Memorial da Liberdade. Em um primeiro momento, questionou-se se o nome era adequado por não representar a realidade vivida pelos ex-presos políticos. Atualmente, o local enfrenta dificuldades com a limitada divulgação do espaço e o difícil acesso ao público.

O Deops-SP foi associado ao nome esquadrão da morte pelos crimes de tortura cometidos contra os presos. A ex-presa política Rose Nogueira, 71 anos, jornalista aposentada, confirmou através de sua experiência as barbáries que vivenciou enquanto estava detida. “Praticamente todos que passaram pelo Deops foram torturados, não existe não tortura quando você vê o cara do seu lado sendo morto”, afirmou ela.

Reconstrução da mesa de interrogatório / Crédito: Victória Gearini

 

Na proposta inicial, o memorial formou-se com o intuito de expor acontecimentos que marcaram a história do Brasil. Rose Nogueira declarou que, junto de outros ex-presos como Maurice Politi, Ivan Seixas e Alípio Freire, se mobilizou para transformá-lo no formato atual. O antigo Memorial da Liberdade foi criado pela Secretaria da Cultura e não transmitia reflexão. Para mudar essa realidade o grupo batalhou em termos institucionais e obteve sucesso com o novo olhar atribuído ao lugar.

A essência do local é educar e contribuir para o pensamento crítico de quem se depara com aquelas memórias. Para a entrevistada Rose Nogueira a maior vitória da ditadura foi transformar o ambiente de tortura em um memorial. “Nós temos que levar informação para quem não sabe, pois temos o direito à memória, verdade e justiça, por isso o prédio do DEOPS se chama Memorial da Resistência”, desabafou.

Homenagem as vítimas da ditadura presente no Memorial da Resistência / Crédito: Victória Gearini

 

Atualmente, o Memorial da Resistência de São Paulo é o único espaço que trata com exclusividade as memórias do período da ditadura militar. A maior movimentação no ocorre de agosto a setembro, pois é nesse período que as escolas começam a falar da ditadura militar no Brasil.

Reconstrução de arquivos / Crédito: Victória Gearini

 

Uma funcionária que não quis ser identificada relatou que a divulgação é restrita e intensificou-se após alguns cortes feitos pela Prefeitura de São Paulo. Outro fator relevante é o distanciamento do público por conta da proximidade do local com a Cracolândia que traz insegurança aos potenciais visitantes.

Identificando as restrições, o memorial possui uma agenda dinâmica a fim de engajar ainda mais o público. Exemplo disso é a receptividade que a frequente convidada, Rose Nogueira, sente ao entrar em contato com os visitantes. “No auditório tem muitas famílias e estudantes. O público é muito receptivo, até mesmo a gente, que conhece muita coisa, se surpreende e acaba conhecendo lá”, disse.

A entrada é gratuita e as visitas são abertas de quarta a segunda (fechado às 17h30). Para mais informações, visite o site: memorialdaresistencia.org.br