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Mentiras, manipulações e falsas promessas: como os alemães compraram o papo de Hitler?

Em menos de uma década o ditador passou de um ex-militar esquisitão do baixo escalão do exército ao salvador da pátria alemã. Mas como Adolf conseguiu tal feito?

Fabio Previdelli Publicado em 08/06/2020, às 10h44

Adolf Hitler discursando em 1934
Adolf Hitler discursando em 1934 - Getty Images

Um país abalado político e economicamente, carente de uma figura de liderança e que mostrasse que tudo seria diferente; fugindo daquele velho discurso, que elevava a moral do povo e que fizesse florescer um sentimento de patriotismo. Um salvador da pátria que colocava seu povo acima de tudo e de todos.

Mas será que, apesar de todas essa descrição, alguém votaria em um político autoritário e excêntrico?

Antes de entender o Hitler político da Segunda Guerra, precisamos embarcar no passado do Führer. Na década de 1920, o futuro líder alemão era visto de uma maneira completamente diferente daquela que ele veio a ser conhecido: Adolf era somente um ex-militar esquisitão do baixo escalão do exército e que poucos davam atenção.

Adolf Hitler durante a Primeira Guerra Mundial / Crédito: Getty Images

 

Porém, desde sempre, foi conhecido por seus discursos inflamatórios contra as minorias, principalmente contra políticos em desacordo a sua ideologia (os de esquerda), feministas, pessoas pacifistas, gays, imigrantes, a mídia e até mesmo a Liga das Nações, antecessora das Nações Unidas. Bom, pelo menos nesse ponto ninguém poderia dizer que ninguém avisou.

Entretanto, em 1932, o partido de Hitler já havia recebido 37% dos votos, se tornando a nova força politica da Alemanha. E, no ano seguinte, Adolf se tornara chefe do governo. Mas como ele havia conseguido? Quem votaria em um tirano que seria responsável por um dos maiores crimes contra a Humanidade?

Como já dito, os alemães haviam perdido a crença na politica da época, a democracia não estava trazendo os benefícios que eram esperados pela população. Grande parte do povo sentia certa raiva das elites tradicionais que foram responsáveis, através da política, pela pior crise econômica da história da Alemanha.

Assim, aquele que se mostrasse contra todo esse sistema, ganharia um apelo logo de cara: surgia o anti-político. Mas vale citar que muito seguidores tinham ressalvas contra o radicalismo de Hitler, porém relevavam tudo isso por falta de opções melhores.

Pintura do livro "Adolf Hitler - Fotos da vida do líder" / Crédito: Getty Images

 

Um segundo ponto importante da alavancada hitlerista era a sabedoria do Führer para usar a mídia em seu favor. Ao contrário do padrão, o líder adotava uma linguagem mais simples, mas que abrangia uma população maior, além do mais, já espalhava as chamadas Fake News — antes mesmo de esse termo ser inventado.

Por outro lado, a mídia sempre dizia que as falas do alemão eram absurdas, mas isso parecia não lhe importar, ele era politicamente incorreto de propósito e isso o tornava um bom sinônimo de autenticidade entre seu eleitorado. Logo, diferente dos demais, sempre era recebido com aplausos de uma multidão ensandecida, independente de onde estivesse.

Assim, ele escreveu em seu livro Mein Kampf: “Toda propaganda deve ser apresentada em uma forma popular (...), não estar acima das cabeças dos menos intelectuais daqueles a quem é dirigida. (...) A arte da propaganda consiste precisamente em poder despertar a imaginação do público através de um apelo aos seus sentimentos”.

Seu terceiro pilar era que muitas pessoas sentiam que a Alemanha passava por uma crise moral e Adolf seria o único capaz de restaurar os modos e os bons costumes da família tradicional alemã.

O ditador alemão Adolf Hitler se alimentando / Crédito: Wikimedia Common

 

Naquela época, a parcela mais religiosa da população não via com bons olhos a arte moderna e os costumes culturais progressistas, que haviam surgido na década passada — paralelamente ao período em que a luta feminista se tornava cada vez mais independente e que a comunidade LGBT de Berlim começava a ganhar voz.

Formado por um conselho unicamente de homens heterossexuais brancos, os conservadores viam nos conselheiros de Hitler sua imagem e semelhança. Já as mulheres, como o próprio argumentou, deviam se limitar aos trabalhos domésticos, como cuidar da casa e dos filhos.

O quarto ponto importante de seu governo era que, mesmo com as declarações malucas e agressivas — como a de que gays e judeus deveriam ser exterminados —, muitos alemães entendiam que aquilo era uma maneira de, apenas, chocar as pessoas. Assim, diversas pessoas que tinham amigos dos grupos atacados pelo Führer votaram em Hitler, crentes que ele não faria nada que dizia.

Outra característica importante da personalidade hitlerista era que ele tinha resoluções simples para todos os problemas: onda de crimes, por exemplo, poderia ser resolvida com a aplicação da pena de morte; os problemas econômicos, por sua vez, aconteciam em virtude da influência de atores externos e conspiradores comunistas. Já os judeus eram vistos como bode expiatório.

Entretanto, apesar de sua loucura, nenhum alemão deveria se sentir culpado. Tudo isso foi mascarado em slogans simples e fáceis de memorizar: “Alemanha acima de tudo”, “Renascimento da Alemanha” e “Um povo, uma nação, um líder”.

O sexto pilar de Hitler foi a adesão da elite alemã, que foi atraída por suas promessas de um regime clientelistas, cleptocrata e que beneficiaria os interesses de grupos específicos. Assim, o ditador ganhou o apoio de grandes indústrias, que colocavam o luxo e o lucro acima das tendências extremistas do líder.

O último desses pontos é que, cada vez mais, falar contra Hitler se tornou perigoso. Grupos de jovens fanáticos e agressivos passaram a ameaçar oponentes, tanto verbal como fisicamente. Assim, muitos alemães que não o apoiavam preferiam se calar com medo de represarias.

Com isso, em um período em que era essencial a defesa da democracia, os alemães sucumbiram naquilo que parecia mais fácil e atraente: um demagogo palerma, mas que oferecia uma falsa sensação de segurança e que, apesar das propostas inexistentes e pouco elaboradas, conseguiu a empatia do povo.

Uma das raras imagens de Adolf Hitler antes da Segunda Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

Hitler não ascendeu ao poder porque seu povo era nazista ou extremista, ele chegou ao poder porque soube mergulhar na profunda insegurança da sociedade alemã, que passou a fazer vista grossa para qualquer um de seus vacilos. E, quando o povo finalmente o fez, já era tarde demais, Adolf já não podia ser mais contido.


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