Metralhadora: Brutal mundo novo

Da pior forma possível, aprendeu-se que a guerra jamais poderia ser a mesma

Fabiano Onça Publicado em 21/08/2017, às 13h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Soldado britânico com uma das metralhadoras mais antigas da história
Soldado britânico com uma das metralhadoras mais antigas da história - Getty Images

Numa manhã do dia 21 de agosto de 1914, um dos primeiros dias de confronto na I Guerra Mundial (1914- 1918), os soldados franceses do 3o Exército, estacionado nas florestas das Ardenas, enfim encontraram a vanguarda das unidades germânicas. Assim que a batalha eclodiu, os alemães se deitaram no solo e começaram a cavar trincheiras. Os franceses, não. Apoiados numa doutrina de guerra ofensiva, que pregava a vontade de vencer como superiores aos armamentos pesados – os franceses se gabavam de não possuir canhões de grande porte, por exemplo –, os oficiais em comando não hesitaram: ordenaram a seus soldados que, com suas baionetas, arremetessem um attaque brusquée (ataque brusco, violento) e tomassem as posições alemãs.

A vitória parecia certa. Afinal, mesmo que o inimigo tivesse uma a metralhadora, o novo invento, acreditavam os franceses, não poderia fazer muito estrago. Para os oficiais franceses, a metralhadora, com uma cadência de tiro de não mais de 100 por minuto, ceifaria a vida de alguns poucos homens e em seguida seria neutralizada pelo vigoroso ataque de baionetas. Engano fatal. A cadência de tiro das Maschinengewehr 08 alemãs girava em torno de quase 500 tiros por minuto. Os batalhões franceses, com suas berrantes calças vermelhas, eram alvo fácil e foram dizimados em minutos. A nova arma, depois de mais de 50 anos de aperfeiçoamentos, havia provado sua eficácia.

Primórdios 

A ideia de um invento que disparasse múltiplas vezes, aumentando exponencialmente o dano ao inimigo, é bem mais antiga do que se pensa. Heron de Alexandria (10 d.C.-70 d.C.), famoso engenheiro e cientista grego, inventor do odômetro, já imaginara um lançador múltiplo de flechas. Na Renascença, o tema voltou a ocupar a mente de outro gênio, Leonardo da Vinci (1452-1519), que rascunhou algumas variantes para armas de múltiplos canos. A recarga desses inventos seria feita pelo modo tradicional, isto é, pela boca da arma. Ainda assim, permaneceu na teoria.

Réplica da Mitrailleuse / Wikimedia Commons

Na prática, os primeiros modelos próximos de uma metralhadora datam do século 19, como a francesa mitrailleuse, uma espécie de arma de voleio. (Os voleios eram os tiros dados pelas colunas de infantaria, que disparavam seus rifles todos juntos, ombro a ombro, para aumentar a eficácia.) Inventada por volta de 1860, a mitrailleuse dispunha de até 37 canos num cilindro. As balas poderiam ser disparadas uma a uma, numa sequência regular, ou então simultaneamente, numa grande descarga. A cadência esperada era de 125 balas por minuto e o alcance em torno de 1,8 mil metros. O invento prometia e seu projeto foi mantido no mais absoluto segredo pelo governo francês. Mas, para os franceses, a primeira e última vez que a mitrailleuse entrou em ação foi na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). No conflito, seu peso excessivo (mais de 900 kg) a tornou inviável em várias situações, principalmente nas que exigiam mobilidade. Seu delicado sistema de disparo também quebrava freqüentemente na mão de artilheiros mais bruscos. Resultado: a mitrailleuse foi considerada um grande fracasso e ainda ganhou uma fama sombria, já que centenas de membros da revolta de 1871 foram fuzilados em Bois de Boulogne com a utilização desses artefatos.

A primeira metralhadora

A metralhadora patenteada por Richard Gatling em 1862 foi o primeiro modelo bem sucedido de uma arma de fogo capaz de manter um alto índice de repetição de tiro com a alimentação automática de cartuchos. O próprio Gatling, em carta a um amigo enviada em 15 junho de 1877, expõe suas intenções: “Ocorreu-me que se eu inventasse uma arma que pudesse, pela sua rapidez de fogo, permitir a um homem fazer tanto em batalha quanto uma centena de soldados, isso culminaria numa grande redução dos exércitos e, consequentemente, a exposição de tantas pessoas às batalhas e doenças seria grandemente diminuída”.

Gatling 1862 / Wikimedia Commons

A Gatling 1862 era formada por seis canos com 14,66 mm de calibre. Através de uma manivela operada pelo artilheiro da peça, os canos giravam. Nesse processo, automaticamente puxavam o cartucho de um carregador acoplado e o projétil era então disparado, num ciclo que chegava a 200 tiros por minuto. Na primeira versão, os cartuchos eram feitos de papel, similares ao utilizado em alguns rifles da época. Isso obrigava o uso de câmaras pré-carregadas, o que por sua vez tornava lento o remuniciamento. Em boa parte por isso, a Gatling praticamente não participou de nenhuma batalha maior da Guerra Civil norte-americana (1861-1865). Em 1865, porém, o problema foi resolvido com o uso de cartuchos metálicos.

Há entretanto uma controvérsia quanto ao fato de a Gatling ser a primeira metralhadora da história. Isso depende da definição utilizada. É que as atuais metralhadoras possuem um sistema interno automático de alimentação dos cartuchos, enquanto a Gatling era movida por uma força externa – a manivela. Se levar em conta a alimentação por um sistema interno, então a primeira metralhadora é a peça inventada pelo médico Hiram Maxim, um norte-americano naturalizado britânico, em 1883. Nome de sua metralhadora: Maxim, claro.

Sucesso internacional

A grande sacada de Maxim foi ter criado um mecanismo interno no qual a energia da detonação de um cartucho – por exemplo, os gases produzidos no disparo – já deixava o próximo cartucho pronto para o tiro. Isso reduzia a participação humana ao encaixe do primeiro cartucho e ao aperto do gatilho. Essa inovação elevou o índice de disparo para cerca de 500 tiros por minuto, mas provocou outro problema: o superaquecimento. Assim, Maxim adicionou a sua metralhadora um sistema de resfriamento à base de água. (O curioso é que, durante a I Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, quando faltava água nas trincheiras, recorria-se a outro líquido menos nobre para resfriá-la...) ➽ 


No campo de batalha

Soldado Alemão com uma MG-42 / Wikimedia Commons

➽ O exército britânico, durante a Guerra Anglo-Zulu (1879), arrasou as legiões zulus na decisiva Batalha de Ulundi, na África do Sul, com suas inéditas duas baterias de Gatlings

➽ Na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), cerca de 50% de todas as baixas, foram provocadas por Maxims usadas dos dois lados.

➽ Em 1916, na ofensiva inglesa no Somme, a combinação alemã de arame farpado e ninhos de metralhadora produziu, num único dia, 60 mil baixas nas fileiras inglesas, provocando perdas de até 100% do contingente de soldados em alguns batalhões.

➽ Durante quase dois anos (1943-1945), 400 mil soldados germânicos entrincheirados nas montanhas italianas detiveram 1 milhão de soldados aliados, em grande parte por causa do uso defensivo de suas Lurdinhas – as MG-42 – operando no alto dos montes.


➽ A Maxim teve seu design copiado por várias nações europeias. E foi na I Guerra que os modelos derivados da Maxim demonstraram que o jeito de guerrear seria alterado para sempre. “Até então, essa arma não havia sido largamente utilizada em solo europeu, mas sim em guerras coloniais. Ainda não havia um consenso entre os militares sobre seu uso”, afirma Wilson Barbosa, professor de história contemporânea da Universidade de São Paulo. Bárbara Tuchman, em seu livro Canhões de Agosto, aponta essa diferença na postura do exército inglês e do alemão. Quando a guerra começou, os ingleses, que não viam a metralhadora como arma decisiva, tinham apenas algumas centenas de Vicker´s em seus depósitos. Já os alemães, graças ao apego do kaiser William II pela nova arma, tinham cerca de 12 mil Maschinengewehr 08 no início do conflito. A realidade dura mostrou que os alemães tinha razão.

Hiram Maxim e a sua metralhadora 'Maxim' / Reprodução

Daí em diante, a forma de guerrear mudou. A partir da II Guerra, as metralhadoras se tornaram um consenso entre os militares e se espalharam por barcos, aviões, helicópteros e veículos blindados. Tornaram-se portáteis, permitindo que cada pelotão pudesse contar com pelo menos uma metralhadora pesada, como a M-60, utilizada na Guerra do Vietnã (1957-1975). Tornaram-se populares ao ser incorporadas nos fuzis de assalto, como o AK-47, que tem mais de 100 milhões de unidades produzidas. Chegaram até ao cinema, em filmes sobre gangsteres – como a M1928, conhecida como Tommy Boy, com seu pente de munição redondo para 100 tiros. Quanto ao sonho do doutor Gatling de ver reduzidos os exércitos e o sofrimento, não foi bem isso o que aconteceu. Todos adotaram as metralhadoras, mas os exércitos continuaram grandes e mortais.


 Linha do tempo

 1862 – Gatling - 200 p/min: O general Custer atacou os índios em Little Big Horn (1876) sem a Gatling. Morreu na batalha.

➽ 1883 – Maxim - 500 p/min: O escritor inglês Hillaire Belloc disse dela nas lutas coloniais: “Temos a Maxim à mão. Eles não”.

➽ 1908 - Maschinengewehr 08 - 500 p/min: Mesmo operada por seis homens, era eficaz. Em 1917, a produção era de 14 mil unidades/mês.

➽ 1912 – Vicker´s - 600 p/min: A versão inglesa da Maxim foi o equipamento de aviões ingleses e franceses durante a I Guerra.

➽ 1921 – M1921 - 700 p/min: Primeira versão da Thompson. Dois modelos anteriores tinham nomes sugestivos como Aniquilador.

➽ 1942 – nova versão da Maschinengewehr - 1200-1800 p/min: A Lurdinha, apelido dado por pracinhas da FEB, era tão rápida que não se distinguia o estampido dos projéteis.

➽ 1957 – M60 - 550 p/min: Ficou famosa na mão dos artilheiros dos helicópteros Huey, na Guerra do Vietnã.

➽ 1963 – GAU-17 - 2000-4000 p/min: Este mini canhão Gatling tem seis canos rotativos: Exatamente o mesmo princípio da Gatling de 1862.


Saiba mais

Canhões de Agosto, Bárbara Tuchman, 1964