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“Minha mãe costumava dizer que Auschwitz sempre estava sentado à nossa mesa na cozinha”, relata filho de sobrevivente de campo de concentração

Em entrevista exclusiva, Melcher de Wind explica como seu pai resistiu as atrocidade do Holocausto e conseguiu escapar das Marchas da Morte

Fabio Previdelli Publicado em 27/01/2020, às 18h43

Sobreviventes de Auschwitz deixando o campo no final da Segunda Guerra
Sobreviventes de Auschwitz deixando o campo no final da Segunda Guerra - Getty Images

Em agosto de 1944, o Exército Vermelho se aproximava cada vez mais dos campos de concentração. A derrocada alemã era só questão de tempo. Os nazistas, buscando esconder todas as atrocidades que cometeram, começaram a debandar e tentaram apagar seus próprios rastros. Além do exército do Reich, outros dois milhões de judeus foram obrigados a seguir pelas chamadas Marchas da Morte. A maioria entre eles não sobreviveu.

Mais tarde, em 27 de janeiro de 1945, há exatos 75 anos, houve a Libertação de Auschwitz. Nos campos poloneses, que eram comandados por alemães nazistas, só havia sobrado os enfermos. Gravemente feridos e doentes, eles foram deixados à própria sorte.

No entanto, em meio à multidão de debilitados e cadáveres, um entre eles apresentava boas condições de saúde. Era o médico judeu Eddy de Wind. No entanto, a história de Eddy com Auschwitz começa dois anos antes dessa narrativa.

Um grupo de crianças sobreviventes atrás de uma cerca de arame farpado no campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia / Crédito: Getty Images

 

Em 1943, ele havia se voluntariado para trabalhar em Westerbork, um campo de trânsito para deportação de judeus, localizado ao leste da Holanda. De lá, saiam internos para os mais diferentes locais, entre eles, Auschwitz e Bergen-Belsen. Haviam dito a Eddy que sua mãe seria isenta da deportação em troca de seu trabalho. Era mentira. Ela já estava em Auschwitz.

Ainda na Holanda, ele conhece a enfermeira judia Friedel. Eles se apaixonam e se casam no campo. Mais tarde, ainda em 1943, eles são separados e encaminhados para Auschwitz. Porém, eles não são mortos assim que se depararam com o local, muito pelo contrário.

Ele vai para o bloco 9, como parte da equipe médica; ela segue para o bloco 10, mesmo local onde são feitos experimentos de esterilização conduzidos por notórios médicos nazistas — o que inclui Josef Mengele e o ginecologista Carl Clauberg.

A união dos dois sobrevive as mais diferentes adversidades que enfrentaram nas mãos dos alemães. No entanto, Eddy foi o único entre eles que conseguiu permanecer em Auschwitz. Friedel seguiu com as tropas do Reich para um caminho de incertezas.

Por ser um médico treinado, ele queria começar a tratar as pessoas que foram deixadas para trás. Mas sem equipamentos ou remédios, a única diferença que ele poderia fazer era dizer palavras reconfortantes para seus semelhantes.

Mulheres em barracas em Auschwitz, Polônia, Janeiro de 1945 / Crédito Getty Images

 

Eddy ficou deprimido. Para ele, parecia um castigo permanecer vivo sem puder ajudar ninguém. Ele já não tinha mais motivos para viver e se preparava para tirar toda angústia de seu coração.

Foi então que uma jovem gravemente ferida lhe deu o último suspiro. Ela dizia que queria sobreviver para “contar tudo isso, contar sobre isso... convencer as pessoas de que tudo isso era verdade”.

Com isso, Eddy encontrou uma nova motivação. Ele foi para um quartel onde os nazistas mantinham suprimentos. Lá, ele encontrou um caderno, um cahier que era usado pelos nazistas para fazer a administração de seus prisioneiros, relatar como as pessoas morreram ou quem foi selecionado para as câmaras de gás, entre outras coisas. No caderno da morte, ele escreveu sua história.

Quando os sovietes chegaram, Eddy se juntou a eles. Durante o dia ele cuidava dos libertadores russos e dos sobreviventes, à noite, sentado em seu beliche, ele continuava a relatar tudo que viveu.

Porém, as marcar de Eddy eram muito recentes, suas feridas não haviam cicatrizado. Aliás, elas nunca fecharam por completo. Mas isso não o impediu de publicar a primeira versão de seu livro em uma editora holandesa em 1946.

Entrada do campo de Auschwitz / Crédito: Getty Images

 

Mas sua história não teve sucesso, os judeus estavam mais preocupados em reconstruir suas vidas e seu país, do que reviverem seu passado recente de dor. Pouco tempo depois da publicação, a editora faliu e o livro desapareceu do mercado por um longo tempo. Mal sabia, mas seu registro era o único escrito por completo dentro de Auschwitz.

Esse ineditismo e a necessidade de reascendermos discussões sobre os motivos que levaram ao extermínio em massa de grupos minoritários fizeram com que a vida de Eddy ganhasse os holofotes outra vez. Isso porque, décadas depois, sua história ganha as estantes novamente com o lançamento de Última Parada Auschwitz: Meu Diário de Sobrevivência, que será publicado nos próximos dias pela Editora Planeta.

Além do Brasil, a narrativa de Eddy de Wind, que faleceu em 1987, ganhará versões em 25 idiomas e será publicada em mais de 100 países. Em entrevista exclusiva para o AH, Melcher de Wind, filho de Eddy, fala sobre o lançamento do livro e da importância dos relatos de seu pai, no dia em que a Libertação de Auschwitz completa 75 anos. Confira:

Após todos os infortúnios da Segunda Guerra, Eddy jamais voltou a viver uma vida considerada normal. Para conseguir relatar tudo que sofreu, teve que escrever sua história em terceira pessoa (logo nas primeiras páginas, nos é apresentado Hans — o responsável por narrar os acontecimentos).

Após Auschwitz, Eddy começou a trabalhar como psicanalista, especializado no tratamento de pessoas com graves traumas de Guerra. No entanto, ele descobriu que esses traumas eram tão profundos que nunca poderiam realmente ser curados, nem mesmo falando sobre eles. “Escrever sua história não ajudou meu pai a superar seus traumas. As feridas eram profundas demais”.

Judeus desembarcando em Auschwitz / Crétido: Getty Images

 

“Depois que os alemães deixaram Auschwitz, meu pai quis morrer. Todos os sobreviventes tiveram problemas com o que é chamado de ‘culpa do sobrevivente’ [aquele questionamento sobre o porquê eu sobrevivi e todos os outros morreram]. Nos primeiros dias, após a partida dos alemães, meu pai sentiu algo que eu descreveria como ‘inveja da vítima’. Ele tinha ciúmes daqueles que haviam morrido e não precisavam passar pela dor que ele sentia naqueles dias”.

Melcher relata que nunca soube quando ouviu falar de Auschwitz pela primeira vez, já que o assunto sempre foi recorrente em sua casa. “Minha mãe sempre costumava dizer que Auschwitz sempre estava sentado à nossa mesa na cozinha”.

 “Ele conversou bastante comigo sobre Auschwitz. Ele fez isso de uma maneira bastante particular: sem olhar para mim quando estava dirigindo o carro, por exemplo”, relata Melcher. ”Meu pai disse uma vez que, por mais que as histórias sejam terríveis, as fantasias que as crianças criam em suas cabeças eram sempre piores. Então, ele pensou que, embora fosse difícil e doloroso falar sobre Auschwitz, era algo que ele tinha que fazer”.

Apesar de Eddy dizer, por meio de Hans, que “todo o povo alemão é culpado”, Melcher garante que seu pai nunca foi um homem revoltado e amargo com os germânicos. “Ele sempre via o povo alemão com altamente humanista e tolerante. O período nazista foi uma marca na história alemã”, diz. “Ele me levou para a Alemanha várias vezes, para ensinar a não odiar”.

“Para mim, meu pai era um herói. Não porque ele sobreviveu a Auschwitz. Isso foi, como ele próprio disse, pura sorte. Mas porque ele decidiu começar a ajudar as pessoas imediatamente após a libertação do campo, passou pelo doloroso processo de escrever sua história, ajudou dezenas de pessoas gravemente traumatizadas como terapeuta após a guerra e encontrou o poder de começar uma nova vida com minha mãe. Ser um de seus filhos nem sempre foi fácil; ele era um homem gravemente traumatizado e frequentemente hospitalizado. Mas isso me deixa incrivelmente orgulhoso de ser filho dele”.

Campo de concentração de Auschwitz Deportado durante a libertação do campo de concentração de Auswitchz Birkenau em janeiro de 1945 / Crédito: Getty Images

 

Melcher enxerga o lançamento do livro com a história de seu pai como uma homenagem. “Você poderia dizer que contar essa história foi a razão de meu pai permanecer vivo. Eu acho que ele ficaria mais do que orgulhoso que sua história finalmente chegue ao mundo”.

“Se queremos que Auschwitz nunca aconteça novamente, é necessário entender como o campo funcionava, como algumas pessoas podiam se tornar horrivelmente sádicas e como as vítimas podiam permanecer vivas. E é exatamente isso que este livro diz”, conclui.


AH: Você já visitou Auschwitz? Como foi ver de perto onde seu pai morava?

Melcher: Eu visitei Auschwitz há alguns meses. Eu sempre tive medo de ir lá, mas a publicação do livro me deu um motivo para eu finalmente fazê-lo, junto com um grupo de jornalistas internacionais.

Foto de Melcher de Wind / Crédito: Divulgação Editora Planeta

 

O acampamento em si não era tão assustador quanto eu sempre tive medo. Agora, lá é um lugar vazio. Acho que o livro de meu pai leva você para o campo, como era durante a guerra, melhor e mais intenso do que uma visita aos restos mortais.


AH Você costuma se imaginar no lugar dele? Você se pergunta "eu teria sobrevivido?"

Melcher: Claro, mas sempre percebo que esses são pensamentos negativos e que é impossível responder a esse tipo de pergunta. E sempre percebo que sobreviver a Auschwitz foi principalmente pura sorte. Os nazistas queriam que todos os judeus morressem. Então, todo mundo que sobreviveu foi um "erro" em seu sistema.


AH: Você diz que as pessoas não estavam prontas ou que não houve interesse do público em geral após a guerra pelo livro. Você acredita que há interesse hoje?

Melcher: O interesse em histórias pessoais da guerra é enorme. O livro está agora sendo publicado em 25 idiomas e em mais de 100 países. Eu entendo claramente o porquê. Em todo o mundo, em todas as sociedades, você vê que a intolerância e o ódio se tornam proeminentes.

Capa do livro Última Parada: Auschwitz - Meu Diário de Sobrevivência / Crédito: Divulgação Editora Planeta 

 

Última Parada: Auschwitz não é apenas um livro bonito, mas também ajuda as pessoas a entenderem melhor o quê a intolerância e o ódio podem causar, mas, também, nos ajuda a entender como a solidariedade, a humanidade, a esperança e o amor podem nos ajudar.


AH: Seu pai se preocuparia com o aumento do populismo de direita nos dias atuais?

Melcher: Sim, definitivamente. Ele já estava realmente preocupado com isso nos anos 1980. Ele morreu em 1987, e viu o crescimento da intolerância. O populismo e o ódio o incomodavam muito. Ele viu isso como resultado de injustiça social e desigualdade no mundo.


AH: Como a experiência de seu pai e as histórias que ele contou a você influenciaram sua visão do mundo hoje?

Melcher: Isso me fez perceber como somos todos frágeis e que todos temos que ter consciência da intolerância e do ódio. E que é a solidariedade, a humanidade, a esperança e o amor que podem salvar o mundo.


+ Para saber mais sobre a Auschwitz: 

Última parada: Auschwitz - Meu diário de sobrevivência, Eddy De Wind, 2020 - https://amzn.to/2RtYVm1

A bailarina de Auschwitz, Edith Eva Eger - https://amzn.to/2GtilBg

Os bebês de Auschwitz, Wendy Holden, 2015 - https://amzn.to/36y9WHo

Os fornos de Hitler: A história de uma sobrevivente de auschwitz, Olga lengyel - https://amzn.to/2tLwMxZ

Depois De Auschwitz, Eva Schloss, 2013 - https://amzn.to/36vkM0E

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