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Mississípi em chamas: o assassinato de três ativistas da igualdade racial

As leis segregacionistas não mais eram um dever quando os militantes foram vítimas da ira dos Cavaleiros Brancos da Ku Klux Klan em um crime que chocou os EUA de 1964

Pamela Malva Publicado em 01/06/2020, às 16h30 - Atualizado às 16h47

Pintura de Norman Rockwell representando o assassinato
Pintura de Norman Rockwell representando o assassinato - Wikimedia Commons

No começo da década de 1960, com o fim das leis segregacionistas nos Estados Unidos, diversos municípios deixaram o pensamento supremacista para trás. No Mississípi, contudo, a elite branca detestou as novas regras.

Grande parte do estado, então, passou a desafiar a constituição e virou-se contra a população negra com hostilidade. Entre as agressões e intimidações prometidas estavam os bombardeios, o vandalismo e o assassinato.

Dissidentes da Ku Klux Klan, os Cavaleiros Brancos do Mississípi não se importavam em esconder seu ódio pelos afro-americanos. Guiados por Samuel Bowers, os segregacionistas buscavam supremacia branca.

Em um movimento contrário, diversos civis criaram o Congresso de Igualdade Racial (CORE), composto por pessoas de múltiplas raças, em 1942. Entre seus objetivos, o grupo buscava criar escolas e campanhas de voto no estado.

Andrew, James e Michael, respectivamente, em poster de desaparecidos do FBI/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma parceria perigosa

Em 1964, no Memorial Day, dois dos membros do CORE visitaram a congregação da Igreja Metodista de Monte Sião. James Chaney e Michael Schwerner buscavam apoio para criar uma escola que integrasse negros na sociedade.

Notificados sobre o possível acordo, os Cavaleiros Brancos decidiram interferir e atearam fogo na igreja. Em 21 de junho, então, os dois membros do CORE, junto de Andrew Goodman, foram até o local sagrado, a fim de investigar o incêndio.

Na volta da missão, a caminhonete dos três homens foi parada por excesso de velocidade. James foi preso pelo delito e os outros dois foram mantidos em cárcere para investigações futuras. Assim, todos foram levados para o condado de Neshoba.

A caminhonete dos ativistas do CORE escondida entre em matagal / Crédito: Wikimedia Commons

 

Três corações e uma caminhonete

Na metade do dia, a sede do CORE percebeu a demora de seus três membros e notificou conhecidos e outras organizações. Às 22 horas daquele mesmo dia 21, James, Michael e Andrew foram soltos e, então, seguidos pelo vice-xerife Price.

Eventualmente, o oficial deteve os três ativistas e os escoltou até um cruzamento isolado. Pegos de surpresa, cada um dos membros do CORE foi baleado por um grupo de supremacistas que os esperavam na estrada.

James Chaney, o único negro entre os ativistas, foi espancado, castrado e atingido por três tiros diferentes. Michael e Andrew, por sua vez, receberam um pouco mais de misericórdia: ambos receberam balas direto no coração.

Uma vez mortos, os corpos foram levados até a fazenda de um dos conspiradores supremacistas. As vítimas foram enterradas e sua caminhonete foi queimada e escondida. Uma autópsia posterior feita em Andrew indicou que ele teria sido enterrado enquanto ainda estava vivo.

Os corpos dos três ativistas quando foram encontrados / Crédito: Wikimedia Commons

 

KKK contra o FBI

Logo que os três ativistas foram dados como desaparecidos, o FBI deu início a intensas investigações e longas buscas. Durante o processo, agentes federais encontraram diversos corpos de negros que estavam desaparecidos há tempos.

Nas buscas, o FBI encontrou os corpos de Henry Hezekiah Dee e Charles Eddie Moore, dois universitários que haviam desaparecido em maio de 1964. Além deles, os oficiais ainda encontraram Herbert Oarsby, de 14 anos, e cinco outros negros não identificados, cujos desaparecimentos não tinham sido documentados.

Os ativistas do CORE foram encontrados apenas 44 dias depois do assassinato. Com a descoberta dos corpos, o FBI acusou um total de 21 homens de Mississípi por arquitetar e executar o plano fatal contra James, Michael e Andrew.

Fotos de 20 dos homens acusados pelo crime / Crédito: Wikimedia Commons

 

O fim de uma longa jornada

Ao final de longos e burocráticos anos, o julgamento do triplo crime finalmente aconteceu, em outubro de 1967. Como as autoridades de Mississípi se recusaram a processar os acusados de assassinato, o governo federal decidiu o fazer.

Decidido por um júri completamente branco, o caso culpou sete homens pelo assassinato. Entre eles estavam o vice-xerife Cecil Price, de 26 anos, e Alton Wayne Roberts, que atirou nos ativistas à queima roupa. James Jordan, cujo tiro acertou a cabeça de James, confessou seus crimes em troca de um acordo judicial.

No fim, o júri condenou os sete homens à sentenças que variaram entre três e dez anos. Todos, então, foram presos em março de 1970. Nenhum dos acusados pelo assassinato dos ativistas, contudo, cumpriu mais de seis anos de cárcere.


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