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Mistério de 150 anos: Cientistas finalmente revelam a origem de crocodilo com chifres

Descoberto em 1872, o curioso réptil foi estudado durante décadas, mas poucas pistas sobre sua história foram encontradas — até que um grupo de pesquisadores conseguiu analisar seu DNA em 2021

Pamela Malva Publicado em 02/05/2021, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa de crocodilo do Nilo
Imagem meramente ilustrativa de crocodilo do Nilo - Divulgação/Pixabay

Com o passar de centenas de anos, a humanidade desenvolveu técnicas específicas para compreender seu passado. Existem situações, no entanto, em que nem mesmo os mais afiados especialistas conseguem decifrar as mensagens deixadas pela pré-história.

Esse é o caso de um crânio de crocodilo com chifres encontrado em 1872. Desde que foi descoberto, o espécime foi confundido com diversas outras espécies. O problema é que, após 150 anos de pesquisa, nenhuma das classificações estava correta.

Foi apenas no dia 27 de abril de 2021 que pesquisadores do Museu Americano de História Natural (AMNH), em Nova York, nos Estados Unidos, conseguiram acabar com o mistério sobre o animal e divulgar a verdadeira origem do curioso réptil com chifres.

O crânio analisado pelos pesquisadores / Crédito: Museu Americano de História Natural (AMNH)

 

Mistério duradouro

Desenvolvida por uma equipe de ponta, a nova pesquisa foi publicada na revista científica Communications Biology. Reunindo análises feitas ao longo de dezenas de anos, os estudiosos classificaram o crocodilo de chifres como um Voay robustus.

Pela primeira vez desde a descoberta do animal, os cientistas testaram o antigo DNA presente no crânio e conseguiram descobrir diversas pistas sobre a origem do réptil. A mais expressiva das descobertas, contudo, diz respeito ao fato de que o Voay robustus não pertence a nenhuma outra espécie, como se imaginava anteriormente.

Apesar de ser parecido com outros tipos de crocodilos, o indivíduo com chifres encontrado em 1872 tem sua própria espécie, seu próprio recorte na história do planeta. Por isso, inclusive, ele recebeu uma classificação totalmente inédita.

Outro crânio de um Voay robustus / Crédito: Ghedoghedo/Creative Commons/Wikimedia Commons 

 

Um animal robusto

Em entrevista ao Live Science, o autor do novo estudo, Evon Hekkala, associado do AMNH na Fordham University em Nova York, revelou quais foram as características do crocodilo encontradas na análise feita por sua equipe.

Inicialmente, ficou claro que o Voay robustus viveu em Madagascar há cerca de 1,3 mil ou 1,4 mil anos. Em seguida, os cientistas perceberam que a espécie não era grande como seus conterrâneos, mas era bastante robusta — o que lhe garantiu seu nome.

Por enquanto, todavia, ainda não se sabe exatamente qual foi a causa da morte do animal. Pesquisadores da AMNH teorizam que a chegada dos crocodilos do Nilo, que eram caçadores natos, tem alguma relação com o fim dos Voay robustus.

Da mesma forma, pode ser que os primeiro humanos a habitarem Madagascar há cerca de 2,5 mil anos também tenham acabado com o animal de chifres. A última teoria, contudo, culpa as mudanças climáticas naturais da região.

Representação de como seria um Voay robustus / Crédito: Smokeybjb/Creative Commons/Wikimedia Commons

 

Uma dúvida centenária

Quanto à demora para chegar na classificação do animal, Hekkala pontuou que a história ecológica de Madagascar dificultou bastante o processo, assim como a falta de registros sobre a espécie. Isso sem contar o fato de que, mesmo pertencendo a grupos diferentes, dois crocodilos podem ser bastante parecidos fisicamente.

Além disso, as variações nos crânios dos répteis são tantas que, por mais que eles façam parte da mesma espécie, podem ser classificados como animais distintos. "O formato da cabeça do crocodilo varia com a idade, sexo e até mesmo dieta", explicou Hekkala.

No caso do Voay robustus, entretanto, a confusão gerada pelos próprios pesquisadores através dos anos foi o maior dos obstáculos. Em 2007, por exemplo, o indivíduo com chifres foi classificado como um crocodilo anão, teoria que acabou caindo por terra com a recente análise do DNA do animal.

Análises nos ossos de um Voay robustus / Crédito: Gretarsson/Ghedo/Creative Commons/Wikimedia Commons

 

Passado e futuro

Por fim, Hekkala pontua que, apesar da demora, a descoberta da verdadeira classificação do crocodilo de chifres pode ajudar a compreender melhor a narrativa evolutiva dos répteis. Nesse sentido, ele explica que os dados sobre o Voay robustus “apoiam a hipótese de que os crocodilos modernos que vemos hoje se originaram na África".

"As espécies extintas podem atuar como pontes sobre as lacunas de conhecimento", comentou o especialista. "Eles nos ajudam a viajar no tempo e reconectar histórias evolutivas para contar a história da vida e extinção na Terra."

Dessa forma, identificar a verdadeira identidade do animal vai muito além de encontrar respostas. A descoberta, na verdade, ajuda os cientistas a construir uma extensa linha do tempo, que narra a bela história de como os animais modernos evoluíram.


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