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Mistério fálico: Porque o órgão genital do faraó Tutancâmon foi mumificado ereto?

A tumba de uma das figuras mais importantes do Egito Antigo foi encontrada a quase 100 anos; sua múmia, porém, ainda instiga pesquisadores

Isabela Barreiros Publicado em 28/03/2020, às 08h00

Tampa do sarcófago de Tutancâmon
Tampa do sarcófago de Tutancâmon - Divulgação/Pixabay

Milênios depois de sua morte e quase um século após a descoberta de sua tumba, o famoso faraó Tutancâmon continua a intrigar pesquisadores ao redor do mundo. Questionamentos sobre as lacunas históricas de sua vida, a causa de sua morte e muitos outros mistérios continuam cercando a figura quase mitológica do rei egípcio.

Quando o egiptólogo britânico Howard Carter encontrou o rico mausoléu do faraó menino em 1922, ele teve uma surpresa. Dentro dele, que se tornou uma das maiores descobertas do século 20, estava a múmia quase intacta do rei Tut — mas mais inusitado ainda, Carter observou que o pênis do homem estava mumificado como se estivesse ereto, a 90 graus.

O fato se tornou objeto de pesquisa de muitos especialistas em Egito Antigo. Um artigo publicado na revista acadêmica Études et Travaux, da egiptóloga Salima Ikram, professora da Universidade Americana do Cairo, investigou mais à fundo a situação e sugeriu motivos para explicar a aparente ereção do rei.

A principal conclusão que Ikram foi a de que tanto a mumificação a 90 graus, quanto o fato de ele estar sem seu coração e coberto por um líquido preto, tinham como o intuito compara-lo com o deus Osíris. Nada disso teria sido feito por coincidência ou acidentalmente — o propósito dessas características seria essencialmente religioso.

Túmulo de Tutancâmon / Credito: Divulgação

 

No reinado anterior, o pai de Tut, Aquenáton empreendeu uma gigante reforma religiosa que tinha como principal objetivo combater o poder dos sacerdotes e escribas de Amon. Ele fez uma reforma religiosa, criando um novo dogma espiritual e político que centralizava a unidade do divino na figura do Disco-Solar Aton. A estrutura de fé ainda não se enquadrava no monoteísmo, mas criou fundamentos para tal.

Ele foi tão longe nesse objetivo que chegou, até mesmo, a destruir imagens de outros deuses. Como a religião era tema central na política e na sociedade egípcia, uma mudança desse nível trouxe drásticas consequências. Uma forte oposição foi criada contra o atonismo, e essa reação pode ter tido efeitos na mumificação de Tutancâmon.

Ao assumir o poder com apenas 10 anos, o jovem faraó foi usado como forma de reestruturação do poder faraônico em harmonia com as elites religiosas de Tebas. Assim, retornava-se aos moldes tradicionais estabelecidos antes da revolução religiosa de Aquenáton, em que os egípcios acreditavam em uma mistura de deuses.

O modo como o rei foi mumificado revela muito sobre esses objetivos. Segundo a egiptóloga Ikram, os responsáveis pelo enterro de Tut o adaptaram para que as pessoas pensassem que ele era um deus, o próprio Osíris, o deus do submundo — da forma mais literal possível.

Rosto mumificado do faraó / Crédito: Divulgação

 

“Pode-se especular que, naquele momento histórico/religioso delicado, os modos habituais para a mumificação do rei não eram suficientes, e por isso os sacerdotes-embalsamadores prepararam o corpo de tal forma que enfatizasse a divindade do rei e sua identificação com Osíris”, explica Ikram.

A ereção vista em seu pênis representava os poderes regenerativos de Osíris, o líquido preto espalhado em seu corpo imitava a cor da pele do deus — “senhor da terra do Egito, escuro com o rico solo da inundação, e a fonte da fertilidade e regeneração”, relembra Ikram, —  e o fato de ele estar sem coração remonta à história contada sobre a divindade, que teve seu órgão vital cortado em pedaços e enterrado por seu irmão Seth.

A egiptóloga afirma ainda que não há vestígios de outras múmias que tenham sido enterradas de maneira semelhante, principalmente em relação ao pênis em 90 graus. Isso colabora ainda mais para a hipótese de comparação entre o rei Tut e Osíris. “O rei estava de fato sendo mostrado como Osíris, mais do que era habitual em enterros reais”, conclui Ikram.


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