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A misteriosa aldeia que sofria com incêndios espontâneos

O fenômeno começou em 2003 e seguiu por anos, sem que nenhuma investigação encontrasse explicação

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 28/11/2021, às 10h00

Fotografia do exterior de uma construção que pegou fogo
Fotografia do exterior de uma construção que pegou fogo - Wikimedia Commons

Canneto di Caronia não é um lugar comum, e isso fica rapidamente aparente. A pequena vila localizada na Itália, além de ser praticamente fantasma, com menos de 150 habitantes, tem uma distribuição estranha de moradores. Eles vivem nas extremidades da região, enquanto o centro é inteiramente vazio. E o motivo disso tudo é seu sombrio e fumacento passado. 

Tudo começou em dezembro de 2003, quando faltavam dois dias para o Natal, e a televisão de Antonino e Peppina Pezzino, um casal de moradores da aldeia, subitamente explodiu em chamas. 

O evento isolado rapidamente se transformou em uma onda de estranhos incêndios espontâneos: 

"Os fenômenos começaram na minha casa e logo se difundiram na vizinhança. Sofás, cabos não alimentadas pela corrente elétrica, colchões, lampadários e eletrodomésticos se autoincendiavam sem explicação", contou Peppina, conforme repercutido pela BBC em uma matéria de 2014. 

"Os sistemas de alarme e fechamento automático dos carros entravam em pane e os celulares recarregavam-se mesmo sem estarem ligados à tomada", acrescentou ainda. 

O único fator que todos os episódios tinham em comum, infelizmente, era seu caráter enigmático. E não foi por falta de tentarem entender o que estava acontecendo, afinal de contas os moradores de Canneto estavam perdendo seus bens e por vezes até mesmo precisavam abandonar suas casas por conta das chamas. As perdas materiais e o aspecto imprevisível do fenômeno criavam uma atmosfera de medo. 

Um dos piores casos ocorreu em fevereiro de 2004, quando um incêndio de proporções assustadoras fez com que 39 pessoas perdessem suas residências.

Elas foram realocadas para o hotel de uma cidade próxima, onde fundos governamentais pagaram por suas estadias e refeições durante por volta de 3 meses. 

Trecho de reportagem mostrando interior de casa que pegou fogo / Crédito: Divulgação/ IBTimes UK

 

Chamas misteriosas

O pior é que o passar do tempo, neste caso, infelizmente não ajudou a esclarecer a questão. Várias teorias foram levantadas ao longo dos anos: aumento anormal do campo eletromagnético (que poderia ser causado por alguma anormalidade geomagnética da Terra), a ação de piromaníacos (que são indivíduos que iniciam incêndios de forma compulsiva) e fios elétricos com defeito foram algumas das primeiras.

Depois, vieram aqueles que acreditavam que as chamas eram produzidas por testes secretos de tecnologias militares, extraterrestres ou até mesmo pelo próprio Diabo.

"O padre da paróquia deve hoje ir e abençoar todas as casas que testemunharam fenômenos paranormais porque é isso que eles são. Está acontecendo o que normalmente acontece quando o Diabo entra na vida de quem lhe permite entrar. Se está acontecendo tudo isso é porque um motivo existirá”, opinou na época o padre exorcista Gabrielle Amorth, da Diocese de Roma, em entrevista ao The Guardian. 

Nenhuma das especulações chegou a um fim conclusivo. Quando técnicos da companhia de energia elétrica mais próxima vieram investigar a fiação, não encontraram nenhum problema, de acordo com informações do site All That is Interesting. Também não foram detectadas evidências de anormalidade no campo eletromagnético, e ninguém foi detido sob suspeita de ter iniciado as chamas. 

Houve até mesmo um período durante o qual a eletricidade da aldeia foi cortada, mas isso não impediu as chamas imprevisíveis de continuarem a aterrorizar Canneto. 

Fotografia da região de Canneto do alto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os incêndios continuariam até 2008, quando terminaram tão subitamente quanto se iniciaram. Havia até um caso aberto na justiça a respeito dos eventos, já que era investigada a possibilidade de ação criminosa, porém quando tudo parou o promotor responsável por ele decidiu encerrá-lo, declarando os focos de incêndio como "oficialmente inexplicáveis".  

O retorno

Em 2008, o fogo voltou a assombrar os moradores de Canneto. A nova onda de fogaréus durou mais alguns anos. Em 2014, pelo menos, foi instalada uma unidade de bombeiros na aldeia, já que havia tanta demanda pelos serviços dos profissionais. 

De acordo com informações repercutidas naquele ano pela BBC, uma série de pessoas da vila italiana chegaram a ser diagnosticadas com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) devido à angústia causada pela volta do problema fumacento. 

Outro detalhe é que, dessa vez, alguém foi detido: era Giuseppe Pezzino, o filho do casal que experienciou a primeira manifestação do fenômeno. Tanto ele quanto o pai passaram a ser alvo de investigação policial. Conforme repercutido no ano de 2015 pela ANSA, os oficiais acreditavam que eles estavam destruindo sua propriedade como forma de conseguir ajuda governamental.

Nenhum dos dois jamais foi preso, no entanto, e muitos moradores não acreditavam que o jovem teria conseguido, sozinho, fazer tudo aquilo. Houve focos de incêndio que começaram dentro de casas trancadas, afinal de contas, na frente dos olhos de alguém. 

Assim, o mistério permaneceu, e algumas lendas sobrenaturais se sustentam até hoje no imaginário dos moradores locais. Nos dias atuais, a aldeia pode não estar mais vivendo uma crise de incêndios, mas a ameaça das chamas continua à espreita.