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O mito da democracia racial: A ilusão da igualdade racial num projeto de elite no Brasil

Um dos mais importantes autores brasileiros, Gilberto Freyre bolou uma ideia que temos até hoje

André Nogueira Publicado em 23/03/2019, às 15h00

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Reprodução / Tarsila do Amaral

Alguns autores são centrais para entender o desenvolvimento do pensamento brasileiro na História. Um deles, com certeza, é Gilberto Freyre. O autor pernambucano foi um dos principais pensadores da antropologia e da história nos anos 1930 e aparece como um importante intelectual, útil para o planejamento nacional de Getúlio Vargas em seu primeiro governo. Vargas tentava trazer a ideologia nacional da unidade popular sob uma bandeira, tentando encobrir as contradições da desigualdade brasileira, principalmente quando se trata da explicitação do racismo.

A famosa política do “Brasil como Feijoada”, em que o branco, o negro e o índio convivem em harmonia, pode ser catalisada de maneira magistral a partir das propostas de Freyre sobre a história na colônia.

Gilberto Freyre / Wikimedia Commons

Segundo Freyre, a base das relações sociais no Brasil tem origem no engenho de cana-de-açúcar, a partir da relação entre senhor e escravo. Mas Freyre tenta dar uma chave positiva à natureza da relação interpessoal baseada no escravismo: a interação entre o proprietário do engenho, o senhor branco, maleável e excitado, e a escravizada negra, que teria uma suposta índole corroborativa, passiva em opinião e conformada, gera um cenário de suposta violência consentida, que faria parte da natureza do senhor e da escrava. Com isso, Freyre cria a figura mitológica do “bom senhor”, que apesar de ter escravos, se importa com ele e o trata como membro inferior, mas da família.

É importante lembrar que essas ideias possuem muita influência da antropologia norte-americana e do imaginário estadunidense sobre a sociedade, partindo de pressupostos naturalistas sobre as comunidades que teriam comportamentos determinados por sua origem em termos geográficos, étnicos e culturais. Freyre estudou por anos em Columbia, nos Estados Unidos, sob orientação do antropólogo Franz Boas.

Diante desse cenário, em 1933 Freyre escreve o famoso livro Casa Grande & Senzala, sua principal obra, em que apresenta sua tese sobre a natureza harmônica das partes da sociedade escravista que geraram o povo brasileiro. A ideia de que todos estão bem no Brasil, desde a era dos engenhos, pois nele aprendemos a agir de uma maneira que as supostas demandas e aceitações naturais de cada raça sejam supridas de maneira democrática.

Obra de 1812 mostra o funcionamento de um engenho / Wikimedia Comons

Assim, teoricamente não se poderia dizer em verdadeira desigualdade racial, pois todos estariam supostamente confortáveis. Daí nasce uma ideia comum no Brasil e que esconde as desigualdades raciais no Brasil: seríamos todos miscigenados e essa seria a marca da nossa identidade nacional. O problema é que essa miscigenação nasceu de um estupro e suas consequências até hoje são de marginalização dos negros e proteção dos nascidos brancos.

As ideias de Freyre sustentam a mentira que é o mito da democracia racial. A defesa de que vivemos numa harmonia entre as pessoas, de que não há racismo e todos possuem as mesmas oportunidades independentemente da cor da pele, não são só incompatíveis com a realidade, elas também são uma tentativa bem sucedida de encobrir todo o debate sobre a desigualdade racial e as consequências da escravidão no Brasil.

O Brasil viveu mais de 400 anos sob o regime da escravidão atlântica e, mesmo após a abolição, não houve qualquer projeto de reparação das tragédias sociais gerada pela coerção de povos para trabalhar como cativo numa colônia em outro continente. Com isso, Vargas foi vitorioso no seu projeto de apaziguar a população brasileira e diminuir a força de movimentos de contestação.