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10 mitos sobre a Idade Média que as pessoas ainda repetem

A maioria das coisas que conhecemos desse período são, na verdade, inverdades criadas no mundo moderno

André Nogueira Publicado em 06/11/2019, às 13h24

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- Crédito: Reprodução

1. Os cavaleiros seguiam duramente um código de cavalaria

Crédito: Reprodução

 

O cavaleiros surgiram no século 10. Ao contrário do que se imagina, não foi uma união de pessoas que esbanjavam honra e mérito, mas, na verdade, um estatuto criado pela Igreja como forma de regular a imensa violência que ocorria nos campos de batalha.

Numa época em que as hierarquias eram essenciais para o desenvolvimento social, os cavaleiros - em geral jovens treinados para combate e equipados com ornamentos caros - muitas vezes deixavam o poder subir a cabeça.

Assim, a maioria usava a capacidade de combate para causar estragos entre camponeses e servos que não tinham experiência de luta ou equipamentos a fim de benefício próprio.

2. A armadura medieval era extremamente pesada

Apesar da aparência, as armaduras medievais não representavam um obstáculo durante as batalhas. Elas eram projetadas para a proteção do corpo e pesavam normalmente 15 quilos, o peso do traje e equipamento de um bombeiro moderno.

Geralmente, os nobres lutavam a pé usando armadura e espada. A maioria dos equipamentos que permeiam o imaginário moderno, são as que melhor sobreviveram, por serem de alta qualidade e densas. Por isso, pensou-se por muito tempo que elas eram pesadas e truculentas.

3. As pessoas eram muito fissuradas em criaturas fantásticas

Globo de Hunt-Lenox / Crédito: Wikimedia commons

 

A ideia de que os mapas medievais referenciavam dragões e monstros marinhos em regiões distantes é um tanto equivocada. Na realidade, somente um mapa da época tinha esse tipo de indicação (o Globo de Hunt-Lenox, de 1503), colocando a Indonésia e o Leste asiático como regiões que contavam com a presença de dragões.

No entanto, acredita-se que isso era uma referência aos dragões de Komodo, lagartos gigantes que vivem na região. Outras obras apontando serpentes gigantes e criaturas que comem bois inteiros existiam, todavia, eram uma tendência consideravelmente incomum.

Na Idade Média, os mapas apontavam criaturas como elefantes e morsas. Eram indicações reais de criaturas vivendo em regiões que poderiam ser visitadas. Ou seja, mais do que crenças em criaturas mágicas, as imagens dos mapas eram cortesias dos cartógrafos para facilitar a vida de viajantes.

4. A Europa medieval era homogeneamente branca

Obras midiáticas como Game of Thrones retratam uma Europa esmagadoramente caucasiana - e são apontadas como historicamente precisas. Porém, quando se trata de Idade Média, a Europa era identificada como um lugar de alta diversidade demográfica.

A noção atual de raça era inexistente entre o povo da época - com outras categorias de pensamento para a formação da identidade - não tendo passado pelo processo de escravidão racial e biologização das relações com o darwinismo social.

Mesmo que houvessem formas de discriminação e atrito, as comunidades com diversas etnias coexistiram pacificamente no interior da Europa. A Península Ibérica, por exemplo, era marcadamente árabe e berbere, mas com convivência tranquila entre judeus e caucasianos.

Com as expulsões na Idade Moderna, judeus, árabes e eslavos migraram para outras regiões do globo, desenvolvendo o projeto de Europa branca que nunca foi plenamente realizado.

5. Os flagelos e manguais eram usados em guerra

Crédito: Wikimedia commons

 

Os flagelos eram armas pesadas que exigiam as duas mãos para manuseio. Mesmo as versões curtas eram de difícil uso. Acredita-se que elas eram eficientes na destruição ou no desvio dos escudos do inimigo.

A maneira como é representado o uso dessas armas na mídia, como se fossem presentes recebidos durante batalhas da Idade Média, é equivocada. Há pouquíssimas evidências de que os flagelos eram realmente usados em conflitos corriqueiros desse período.

Em termos técnicos, flagelos e manguais eram poucos eficazes graças a imprecisão e a alta demanda de esforço para o uso. Além disso, a impossibilidade de usá-los enquanto carregava um escudo, fazia com que o guerreiro estivesse exposto ao inimigo o tempo todo. Muitos historiadores acreditam que o uso dos manguais foi uma criação fictícia das gerações posteriores à Idade Média.

6. Existia o costume de queimar bruxas

Uma das características mais comuns sobre a Idade Média é completamente errada. Não era comum a queima de mulheres em fogueiras por alegação de bruxaria. Por mais estranho que pareça, a Igreja combateu a própria noção de que feitiçaria era uma prática possível e proibiu a condenação e execução de pessoas por essa justificativa.

Esse tipo de condenação era comum na Idade Moderna, principalmente no século 17, quando a crença na feitiçaria tomou toda a Europa. Nesse período, iniciou-se uma verdadeira caça às bruxas.

Na Idade Média, os poucos casos de condenação por bruxaria não implicavam em fogueira, que era uma condenação destinada aos casos de heresia.

7. As relações entre muçulmanos e cristãos só era marcada pelo conflito

Crédito: Reprodução

 

Ao contrário das atuais concepções de que cristianismo e islã são milenarmente incompatíveis, na Idade Média isso não era uma realidade. Mesmo após o início das Cruzadas e a tomada de Jerusalém pelo califa Umar, com o início de uma guerra brutal justificada pela religião, o conflito inevitável entre Cristo e Maomé não se alastrava entre todas as comunidades religiosas.

Muitos reis cristãos ainda contratavam serviços islâmicos, e vice-versa. As relações de comércio no Oriente se mantiveram e, no século 16, a própria França se aliou com o Império Otomano em guerras. Houve guerras entre cristãos e muçulmanos, assim como existiram conflitos entre cristãos.

8. Por falta de água potável, as pessoas foram forçadas a beber vinho e cerveja

Um dos mitos mais duradouros sobre a Idade Média é que as pessoas eram forçadas a beber bebidas alcoólicas devido à falta de água limpa. Alguns historiadores alegaram que a falta de referências à água entre textos de cronistas medievais, indicariam o baixo consumo durante o período.

Entretanto, isso não tem cabimento. Além de ser consumida regularmente na Idade Média, a água e era considerada um elemento fundamental de qualquer regime alimentício.

É bem documentado o esforço que os medievais tinham em manter fontes duradouras de água para consumo, tendo completa consciência dos perigos da contaminação da água. Havia o consumo e até preferência por álcool, mas muito mais numa relação de excepcionalidade do que de substituição.

9. As pessoas eram porcas

Muito do que se fala da Idade Média é, em geral, associado a mitos sobre hábitos anti-higiênicos das pessoas, como a ideia do banho anual ou a histeria contra o banho supostamente causada pela Peste Negra.

Apesar dos hábitos de higiene medievais não serem os mesmos da Idade Moderna, os europeus desse período estavam preocupados com a higiene.

Era comum a associação do mal cheiro com o pecado. Por isso, saunas e banhos públicos eram comuns na Idade Média e os ricos desfrutavam de banhos constantes em banheiras de luxo. Manuais médicos da época também levantavam a importância da limpeza corporal como base da boa saúde.

10. Todo mundo morria jovem

Crédito: Reprodução

 

Uma visão comum é o fato de que todos morriam jovens na época, em que 9 a cada 10 pessoas faleciam antes dos 40 anos. Isso é um meia-verdade: a medicina era notavelmente limitada.

O parto, por exemplo, era fatal para as mulheres, e as doenças cotidianas de hoje eram terminais aos nossos ancestrais, mas é enganoso afirmar que não havia velhice na Europa medieval.

A expectativa de vida de 32 anos, da época, é apenas estatística, influenciada pela frequência da mortalidade infantil. Todavia, conseguindo sobreviver à infância, era comum que adultos vivessem mais do que 40 anos, dependendo de sua riqueza. Um aristocrata que passasse dos 21 anos facilmente esperava viver até os 70. Mesmo camponeses da Baixa Idade Média viviam até os 50 ou 60 anos.


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