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Morta aos 27 anos: Leila Diniz, uma 'moça livre' em meio à ditadura militar

Com uma história que inclui defesa do amor livre e uso de biquínis pequenos, mas também perseguição pelo DOPS e uma morte trágica, Leila teve dez agitados anos de vida pública até sua morte em 1972

Ingredi Brunato Publicado em 02/09/2020, às 09h51 - Atualizado às 09h52

Fotografia de Leila Diniz em 1971.
Fotografia de Leila Diniz em 1971. - Wikimedia Commons

Leila Diniz foi uma atriz de novela e cinema, além de uma figura de relevância para a sociedade brasileira durante a ditadura militar. Ela era “uma moça livre”, como a própria se chamava, embora vivesse em um regime repressivo.  

Um dos episódios que melhor ilustra sua natureza irreverente é uma entrevista que Leila deu ao jornal “O Pasquim” em 1969, em que conta sua opinião sobre assuntos como amor e sexo. Opinião essa que é recheada de palavrões - que precisaram ser censurados pelo jornal, sendo trocados por asteriscos - e defende “amor livre” e “liberdade sexual da mulher”. 

Um pouco depois dessa entrevista, que gerou grandes polêmicas na sociedade de então, a ditadura reagiu tornando a censura à imprensa ainda maior. Embora a medida não tenha tido esse nome oficialmente, a população sabia ligar os pontos, e logo passou a chamar a mudança de “Decreto Leila Diniz”. 

Ascensão à fama 

A atriz brasileira era filha de um banqueiro e de uma professora de Educação Física. Eles se separaram quando ela tinha quatorze anos. Depois disso, Leila decidiu fugir de casa e ir morar com os avós. 

Começou a trabalhar já no ano seguinte, como professora de jardim de infância em Ipanema, mas só fez sua entrada no mundo do estrelato depois que se casou com o cineasta Domingo de Oliveira, aos dezessete anos. Leila Diniz começou pequeno: fez participações em peças de teatro infantis e foi modelo de propaganda, porém não demorou muito para começar a receber seus primeiros papeis em novelas da Globo. 

O papel pelo qual ela ficou mais conhecida, no entanto, foi um filme de 1966 dirigido por ninguém menos que Domingo de Oliveira, de quem ela se divorciou em 1965, após apenas três anos casada com o cineasta. Ela foi a protagonista do Todas as Mulheres do Mundo, que foi um grande sucesso de público, e segundo alguns disseram, era uma declaração de amor de seu ex-marido. 

Leila Diniz em um dos seus papeis. Crédito: Divulgação/Youtube 

 

Polêmicas 

Considerada uma mulher à frente do seu tempo por muitos, as ideias e opiniões que Leila expressou durante sua vida a fizeram ser criticada tanto pela porção conservadora da sociedade, quanto pelo movimento que se delineava no período.

“Transo de manhã, de tarde e de noite” e “Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”. Foram algumas das muitas frases da atriz brasileira que escandalizaram a sociedade dos anos 60 e 70. Outro episódio pelo qual Leila é muito lembrada, ocorreu quando foi até a praia grávida, com um biquíni considerado 'pequeno' na época. Apesar de todas as críticas, porém, a atriz não mudou a forte personalidade. Manteve seu espírito livre, suas opiniões sem filtro e seus biquínis do tamanho que tinha vontade. 

Já por um lado mais sério, Leila também acabou sendo perseguida pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) por ter supostamente ajudado militantes de esquerda, ao que se escondeu no sítio de um colega de trabalho. 

Longe de ter sua popularidade abalada, no entanto, a brasileira se voltou para o teatro, onde foi eleita “Rainha das Vedetes”, sendo ‘vedete’ o nome dado para uma atriz de espetáculo teatral.

Tragédia

Leila Diniz morreu com apenas 27 anos, em 1971, durante um acidente de avião que não deixou sobreviventes, quando voltava de uma viagem para a Austrália, onde havia recebido um prêmio no festival de cinema de Melbourne. 

O cunhado da atriz com a profissão de advogado foi no local do desastre aéreo, a fim de recolher possíveis restos mortais da brasileira, e encontrou um diário seu, que em sua última página preenchida continha uma frase incompleta: “Está acontecendo alguma coisa muito es…”. 

Uma curiosidade cruel é que Leila só estava naquele voo porque tinha decidido voltar antes da data prevista, por ter ficado com saudades de sua filha, Janaína, que tinha então sete meses. Sua morte, assim como sua vida, abalou a população brasileira. 


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