Morte e progresso: Como guerras e catástrofes fizeram a tecnologia avançar

Crises e guerras serviram de estímulo para inventos que mudaram a história

Texto Bianca Nunes Publicado em 14/09/2017, às 10h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Lançamento do V2: até 10 mil portos para dar origem à corrida espacial
Lançamento do V2: até 10 mil portos para dar origem à corrida espacial - Shutterstock

21 mil mortos. Esse foi o preço da exploração espacial. É o número de vítimas dos foguetes V-2 - 12 mil no trabalho escravo de sua construção, 9 mil pelos impactos. Esse foi o primeiro objeto feito pelo ser humano a atingir o espaço, que, trazendo sua carga letal a 5 mil quilômetros por hora, podia matar todo mundo num raio de 200 metros. E sem dar qualquer aviso, pois se movia mais rápido que a velocidade do som - parecia que a destruição simplesmente se materializava do nada.

A principal mente por trás desse diabólico aparelho, o major Wernher von Braun, foi capturado pelos aliados. Sua punição foi...  ter a chance de se tornar um herói da tecnologia. O ex-nazista tornaria-se um dos fundadores da Nasa. Viveria para ver suas criações levarem o ser humano à Lua. 

Dor e doença

Louis Braille (1809-1852) tinha só 3 anos quando, brincando na oficina do pai artesão, cortou o olho direito com um furador de couro. A família tratou o machucado em casa - eles moravam num pequeno vilarejo da França de 1812. Logo o ferimento infeccionou e passou para o outro olho. Dois anos mais tarde, Louis estava completamente cego.

A deficiência não impediu que ele fosse educado. Tão logo aprendeu a ler com o tato, Louis foi enviado a uma escola para cegos de Paris - a primeira do tipo na época. Aluno dedicado, impressionou-se quando, em uma das aulas, aprendeu um código sem som criado no Exército para comunicação de soldados durante a noite. Louis gostou da ideia e incrementou o código, que tinha pontos em alto relevo. Até então, quase tudo na escola era feito por memorização.

Louis Braille / Wikimedia Commons

Aos 15 anos, ele criou um sistema que é usado até hoje por cegos de qualquer país para se comunicarem com o mundo. A invenção que levou seu nome veio de uma necessidade pessoal de Louis: ele queria aprender de uma forma simples. A angústia e a dedicação fizeram com que o jovem descobrisse um jeito de melhorar sua própria vida e a dos deficientes que viviam como ele, no escuro.

Muitas outras descobertas também ocorreram durante crises, em momentos sofridos e cruciais para seus inventores, quando o mundo exigia deles uma saída. Às vezes para sua própria sobrevivência e conforto.

"A crise provoca a mudança, que pode ser "boa" ou "má" para a humanidade. Algumas pessoas se adaptam aos momentos difíceis ou tem habilidades específicas que ajudam a fazer da crise algo positivo. Em muitas ocasiões críticas, há oportunidades que podem beneficiar alguns", afirma Lisa Rosner, autora de The Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems ("O Conserto Tecnológico: Como as Pessoas Usam a Tecnologia para Criar e Resolver Problemas").

Quem da outro exemplo de superação em tempos de turbulência é Edward Tenner, ex-especialista em história da tecnologia. "Com certeza, a Dinamarca, após perder a Noruega, a Islândia e a região de Schleswig-Holstein, se tornou mais próspera do que nunca. Criou novas indústrias que incluíam a produção de manteiga e queijo, móveis de madeira e turbinas eólicas. Eles passaram de uma cultura hierárquica, que vivia como satélite da aristocracia do norte da Alemanha, para uma sociedade que era capaz de exportar produtos de maneira igualitária e atingiu níveis de vida ótimos. Hoje, os dinamarqueses são as pessoas mais felizes da Europa - em um paradoxal resultado por terem perdido muitas guerras."

Mas por que isso acontece? Como momentos dramáticos podem despertar soluções inovadoras? Historiadores chegaram a algumas conclusões estudando esse comportamento. Primeiro: "ideias brilhantes" não surgem do nada. Segundo Lisa Rosner, "elas acontecem porque os inventores entendem a necessidade que passam e pesquisam sobre o assunto. Eles tem acesso as soluções propostas por outros e eles tentam muito".


Traumas criativos e invenções

Necessidades que levaram a grandes soluções

Feridas abertas

Alexander Fleming / Wikimedia Commons

Assombrado pelas cenas terríveis que testemunhou como voluntário num centro médico do Exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, o pesquisador Alexander Fleming (1881-1955) procurou outras formas de tratar ferimentos infeccionados. Até então, não era possível curar as feridas mais graves sem remover pelo menos parte do tecido atingido das vítimas. Ao ver de perto o sofrimento dos doentes, se dispôs a buscar um tratamento eficaz. Descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico, em 1928.


Sangue no armário

Charles Drew / Wikimedia Commons

A falta de sangue para transfusões durante a Segunda Guerra levou o médico americano Charles Drew a encontrar um modo de transportar o material por longas distâncias sem que se estragasse. Ele separou o sangue entre plasma (a parte líquida) e células vermelhas, o que permitia o armazenamento prolongado. No início dos anos 1940, a Inglaterra pediu ajuda aos EUA para atender vítimas civis e militares. Drew coordenou um projeto da Cruz Vermelha para coletar e enviar o sangue salvador à Grã-Bretanha.


Na falta de cão acaba o sabão

 H. Gunther e M. Hetzer / Reprodução

A base dos detergentes sintéticos apareceu na Alemanha, em 1917, quando os suprimentos de gordura animal estavam em falta por causa das batalhas da Primeira Guerra Mundial. A gordura era, então, a principal matéria-prima do sabão. Chamado de Nekal, o produto desenvolvido pelos químicos H. Gunther e M. Hetzer, a partir de uma ideia original do fim do século 19, só circulou nos tempos de guerra, mas foi um sucesso comercial. Aprimorado, está hoje em todas as cozinhas. E os cães agora podem perambular tranquilos.


A imprensa e a peste negra

A prensa de Gutenberg / Reprodução

Há quem diga que a peste negra, no fim da Idade Média, ajudou no desenvolvimento do Ocidente. Os historiadores David Herlihy e Samuel Cohn argumentam que a pandemia que dizimou quase um terço da Europa deu início a uma onda de descobertas tecnológicas que levaram à Revolução Industrial. Um dos exemplos citados é a invenção da prensa de Gutenberg, em 1453. Eles sugerem que os tipos móveis vieram a substituir o exército de monges copistas que teriam sido mais rapidamente atingidos pela peste do que o resto da população.


O rádio é do povo

Um dos primeiros rádios inventados / Reprodução

As primeiras transmissões de rádio são do século 19, mas só depois da Primeira Guerra a radiodifusão chegou, de fato, à população civil. A Westinghouse, empresa americana que fabricava aparelhos para as tropas europeias, se viu com um excedente encalhado. A fim de evitar o prejuízo, a empresa instalou uma grande antena no pátio da fábrica e transmitiu música para os moradores de um bairro de Pittsburgh. O golpe de marketing funcionou e os aparelhos foram vendidos.


Blues para amenizar a dor

Reprodução

O blues nasceu no Mississippi (EUA), no delta do rio Yazoo, uma região de inundações, própria para a plantação de algodão. Lá viviam escravos negros, que cantavam para aliviar o sofrimento do trabalho. Eram lamentos em forma de gritos melancólicos. Como os escravos eram proibidos de usar instrumentos, a voz era o único recurso musical. Depois veio o ritmo sincopado, a marcação nos pés, o falsete nos vocais e, claro, a marcação típica do violão. O primeiro blues - gíria da época para definir a tristeza - foi gravado em 1914.


A explosão dos Fertilizantes

 
Operário de uma fábrica de fertilizantes / Wikimedia Commons

O uso de substâncias para adubar o solo data dos primórdios da agricultura. Os fazendeiros da Antiguidade sabiam que a terra envelhecia. Em vez de buscar novas áreas de cultivo, eles passaram a incrementar o terreno. Os egípcios espalhavam cinzas de sementes, e existem relatos de que gregos e romanos fertilizavam a terra com excremento animal. A indústria de fertilizantes sintéticos surgiu depois da Primeira Guerra, para dar fim ao excedente de explosivos de nitrogênio (TNT) que já não tinham serventia.


Mais forte que a seda


Wallace Carothers / Wikimedia Commons

Devido às dificuldades no comércio mundial depois da quebra da bolsa de valores, em 1929, o preço da seda disparou. O Japão era, naquele momento, o principal exportador para os Estados Unidos e um dos maiores fabricantes mundiais do produto. Em busca de um tecido leve, resistente e mais barato, a empresa DuPont decidiu investir no desenvolvimento de uma fibra sintética que substituísse a seda. Foi assim que o funcionário Wallace Carothers produziu uma fibra forte e elástica que não derrete a menos de 195 graus Celsius. Criado em 1930, o náilon não é só usado para fazer roupas. Serve para fabricar linhas de pesca, tapetes e carpetes, entre outras utilidades.


Saiba mais

The Technological Fix: How People Use Technology to Create and Solve Problems, Lisa Rosner, 2004

A Vingança da Tecnologia, Edward Tenner, 1997