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A mulher que passou 12 anos sem conseguir falar

Quando menina, Marie perdeu a voz de repente; aos 25, porém, surgiu um caroço suspeito em sua garganta

Thomas Pappon, da BBC Publicado em 07/11/2021, às 08h00

Marie McCready quando jovem
Marie McCready quando jovem - Divulgação/Arquivo Pessoal

Marie McCreadie tinha 13 anos quando acordou, numa manhã, com um forte resfriado. Ela foi piorando, mas quando ficou boa de novo, seis semanas depois, sua voz havia
sumido.

“Quando dava risada, ou tentava sussurrar, mesmo quando tossia, não saía som algum”, contou ela ao programa Outlook, da BBC.

O diagnóstico inicial do médico foi de laringite. Depois, de mutismo histérico, em que a pessoa não fala por razões psicológicas.

Mas Marie, que morava em uma pequena cidade perto de Sydney, na Austrália, não falava simplesmente porque não conseguia emitir som algum.

“Eu não podia usar o telefone, marcar dentista, cabeleireiro… Conversava com os amigos usando gestos e mímica. Andava sempre com pequenos blocos de notas e uma caneta, para me comunicar escrevendo. Mas era difícil. Tente contar uma piada escrevendo-a num bloco!”, contou. 

Na escola católica, dirigida por freiras, ela encontrou pouco apoio. Ela disse: “Havia uma freira que dizia que eu estava sendo punida, que Deus tinha tirado minha voz. O padre da paróquia local começou a dizer que eu deveria rezar, confessar meus pecados. Tudo ia contra mim.”

Vizinhos e amigos da família diziam que ela não falava porque não queria. Frustrada e cheia de dúvidas, Marie, aos 14 anos, tentou se suicidar e foi parar no hospital. Quando se recuperou, foi internada numa clínica psiquiátrica, onde recebeu tratamento com choque elétrico.

De volta à casa dos pais, ela, aos poucos, se conformou com a ideia de que sua voz não voltaria. Ela aprendeu a linguagem dos sinais e concluiu um curso de datilógrafa. Ela não falava, não sabia por que, mas pelo menos podia levar uma vida adulta razoavelmente normal.

Quando estava com 25 anos, um belo dia, Marie passou mal. “Comecei a tossir. Fui ao banheiro e cuspi sangue.” No hospital, detectaram um caroço na sua garganta.

“Me deram anestesia e retiraram esse caroço. Quando o limparam, viram que era uma moeda de 3 centavos de dólar australiano que saiu de circulação em meados dos anos 1960. Não faço ideia de como ela chegou ali. Foi um choque.”

A hipótese mais provável é de que tenha engolido a pequena moeda — de 16 milímetros de diâmetro — sem querer. Pode ter sido uma moeda da sorte colocada num bolo de Natal, como é tradição em alguns países. Ou uma moeda perdida em uma lata ou garrafa de bebida.

O fato é que essa moeda, sem nunca ter sido detectada por exames de raio-X, ficou presa entre as cordas vocais de Marie por 12 anos, impedindo que elas vibrassem ou produzissem qualquer som.

Seu primeiro telefonema foi para a mãe. “Ela começou a chorar. ‘Eu disse que tua voz voltaria um dia! Eu disse!’, ela falava.” Marie McReady guardou a moeda e a colocou numa pulseira que  usa de vez em quando. Suas memórias, ela registrou no livro "Voiceless" (Sem Voz), lançado em 2019.


Thomas Pappon é jornalista da BBC News Brasil; Texto adaptado do Podcast Que História!, disponível aqui