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Mulher Solitária: conheça Juana Maria, a últimas dos Nicoleños

Essa indígena da Califórnia foi a sobrevivente da perseguição e da morte de seu povo no século 19

André Nogueira Publicado em 25/06/2020, às 10h00 - Atualizado às 11h57

Juana Maria
Juana Maria - Wikimedia Commons

O genocídio indígena na América foi devastador e durou muitos séculos. Vítima dessa perseguição generalizada, uma moça que ficou conhecida como Mulher Solitária da Ilha San Nicolas, ou ainda Juana Maria (pois seu nome verdadeiro nunca foi descoberto) viveu solitariamente na Califórnia, por ser a única sobrevivente de sua etnia, os nicoleños.

Quando ela morreu, em 1853, considerou-se extinto o uso de sua língua natal, vítima de um extermínio iniciado em 1540, com a chegada dos espanhóis. Porém, o ápice dessa matança e do etnocídio ocorreu no século 19, com a ocupação permanente do local pelos EUA, principalmente por caçadores de pele provenientes do Alasca.

A expulsão dos Nicoleños da Ilha de San Nicolas incluiu um grande movimento de retirada populacional, empreendida uma missão náutica que embarcou os indígenas, levando-os para o continente. Juana Maria não estava entre os presentes, pois as condições de tempo fizeram com que a missão fosse realizada às pressas.

Porém, a ausência da indígena criou diversas especulações, pois se esperava o esvaziamento completo da ilha. Por esse motivo, foram realizadas campanhas para encontrar Juana em San Nicolas, mas os relatos sobre elas não são consistentes, variando em nomes de perseguidores e quantia de dinheiro pago pela missão. É mais aceito que o responsável por ordenar a perseguição foi José González Rubio, padre da Missão Santa Barbara.

Gravura de Juana Maria / Crédito: Wikimedia Commons

 

Há relatos que afirmam que um caçador chamado George Nidever teria feito diversas missões em busca da índia, que não foi fácil de ser capturada. As duas primeiras viagens teriam falhado, até que a terceira conduziu algumas pistas: pegadas na praia e um acampamento com gordura de foca sendo secada ao sol.

Então, foi realizada uma nova busca que permitiu a descoberta de uma cabana em construção, feita de ossos de baleia, e, assim, os perseguidores conhseguiram chegar até Juana, que usava uma saia de penas de biguá e estava morando numa caverna próxima.

Capturada, ela foi levada à Missão Católica de Santa Barbara, na Califórnia, onde apenas conseguiu encontrar três membros de sua população (muitos deles já estavam mortos). Outros indígenas não conseguiam entender sua fala, um ramo de língua uto-asteca particular dos Nicolanõs.

Apesar da captura, Juana estava fascinada com a Missão, principalmente com os cavalos. Vista quase como uma atração, ela foi corriqueiramente visitada em sua moradia provisória, pois era procurada por sua particularidade. Logo, se tornou a última nicoleña, passando a fazer shows, cantando e dançando.

Gravura representando Juana Maria em sua cabana / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ela aprendia diversas canções com viajantes que passavam por lá, sendo que muitas eram traduzidas para sua língua local. Mesmo gravações de suas apresentações não possibilitam grandes traduções das letras, pois não se conhece muito sobre sua língua nativa.

Segundo relatos de homens que trabalharam na Missão Santa Barbara, Juana Maria teria chegado ao assentamento com cerca de 50 anos de idade, sendo uma mulher de estatura mediana. Não se comunicava com praticamente ninguém, se restringindo à própria língua, que passou a ter apenas um falante. Porém, dizia-se que ela parecia contente.

Lá, gostava de comer milho verde, legumes, frutas secas e alimentos silvestres. Porém, isso provavelmente e levou a sua doença fatal, pois apenas sete semanas depois que foi levada a Santa Bárbara, Juana teve desinteira, e ficou gravemente abalada.

Objetos das comunidades nicoleñas / Crédito: Wikimedia Commons

 

Não se sabe até hoje seu nome original, em Nicoleño, então ela foi batizada e teve seu nome cristão, Juana Maria, imposto, em seu leito de morte. Gravemente doente, ela ficou de cama, até que morreu, em 1853.

Após morrer, ela foi enterrada sem grande cerimônia em uma cova não identificada no lote da família de George Nidever, o caçador que se mantinha próximo dela. Foi, então, oficializado por Gonzelez Rubio: "Em 19 de outubro de 1853, dei enterro eclesiástico no cemitério aos restos mortais de Juana Maria, a indiana trazida da ilha de San Nicolas e, como não havia ninguém para entender sua língua, ela foi batizada condicionalmente pelo padre Sanchez”.

A maioria dos documentos materiais ligados a Juana Maria foram perdidos por negligência e más condições por instituições de patrimônio. Diversas roupas e artefatos delas estavam na Academia de Ciências da Califórnia quando um terremoto seguido de incêndio tomou o local em 1906, e um de seus vestidos teria sido perdido sob responsabilidade dos Arquivos do Vaticano. Porém, em 1928, uma homenagem a ela foi feita e uma placa comemorativa foi adicionada em seu túmulo.


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