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Múmias das caixas: os intrigantes restos de uma família do século 18

Encontradas em caixotes dentro de uma igreja na cidade húngara de Vác, e analisadas em 2015, as ossadas de mais de 200 anos podem representar um marco na ciência

Vanessa Centamori Publicado em 19/07/2020, às 08h00

Mãe e filha encontradas na igreja em Vác, Hungria
Mãe e filha encontradas na igreja em Vác, Hungria - Divulgação/ Museu de História Natural da Hungria

Uma antiga igreja dominicana ficou lotada de pesquisadores no ano de 1994, na cidade húngara de Vác. Ao abrirem caixotes misteriosos dentro do local sagrado, os especialistas ficaram chocados ao encontrarem restos muito bem conservados de 265 indivíduos.

Não eram ossadas comuns, mas surpreendentes múmias. E mais: estavam afetadas por uma doença que, para os mortos, costumava ser bastante misteriosa. 

Óbito enigmático

O chamado "bacilo da tuberculose" só foi descoberto pelo pesquisador Robert Koch em 1882. A doença é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e afeta principalmente os pulmões, causando tosse prolongada, catarro e febre. No entanto, as pessoas do século 18 não conheciam a sua causa. 

Um terço dos indivíduos, assim, morreu pela doença, sem saber o motivo exato. Acontece que 90% das múmias foram afetadas por tuberculose, mesmo que os doentes não soubessem quando adoeceram.

E, como os restos mortais estavam em excelente estado de conservação, isso permitiu aos cientistas fazer uma descoberta muito importante para a ciência: será possível entender melhor a evolução da doença ao longo dos séculos. 

Mapa mostrando a região da  descoberta e a igreja que abriga as múmias / Crédito: András Tumbász/Open Access Biomedical Image Search Engine.gov

 

Uma família doente

A tuberculose afetou uma família inteira do século 18, que foi descoberta entre as múmias das caixas. Eram os Hausmann: lá estava o cadáver da irmã mais velha, Terézia Hausmann, falecida aos 28 anos, em 27 de dezembro de 1797; e também havia a múmia da mãe, de nome desconhecido; e da irmã mais nova, Barbara Hausmann, de quem Terézia cuidou.

As três, no entanto, morreram de tuberculose. Terézia 4 anos depois, após cuidar e ver a mãe e a irmã morrerem. O que foi muito útil, no entanto, é que as mortes ocorreram em uma época anterior ao uso dos antibióticos, o que quer dizer que as bactérias ainda não tinham sofridos mutações geradas por esses medicamentos. 

Segundo informou a Revista Exame, a antropóloga Ildikó Szikossy, do Museu de História Natural da Hungria, considerou a descoberta como capaz de trazer "novos caminhos de investigação médica, que podem ser utilizados pela medicina moderna". 

A múmia de Terézia Hausmann, ao lado de um desenho que representa como ela era antes / Crédito: Divulgação/ University College London/British Journal of Family Medicine 

 

Em entrevista à agência Efe, a especialista contou ainda que naquela época existiam várias estirpes da doença, que coexistiram ao mesmo tempo. Ao analisaram o DNA das múmias, encontraram ramificações que tiveram origem no Império Romano. Só a múmia de Terézia Hausmann, por exemplo, tinha dois tipos diferentes de bactéria da tuberculose. 

A descoberta foi publicada no jornal científico Nature Communications. "Foi fascinante ver as semelhanças entre as sequências do genoma da tuberculose que recuperamos e o genoma de uma recente cepa na Alemanha", comentou em comunicado, Mark Pallen, professor de Genômica Microbiana na Warwick Medical School, do Reino Unido. 

Ainda segundo Pallen, o estudo pode ajudar no rastreamento da evolução e disseminação de micróbios. E também "revelou que algumas linhagens [bacterianas] circulam na Europa há mais de dois séculos", apontou o especialista. 

Mumificação 

Para a conveniência dos pesquisadores, os cadáveres tinham sido depositados na igreja húngara entre os anos 1730 e 1838, de modo que permitiu a conservação deles. Tudo ocorreu pois, na década de 1780, o rei José II proibiu os enterros nas criptas religiosas, onde os mortos eram colocados uns sobre os outros, sem separação, o que estava aumentando a contaminação na região. 

No entanto, moradores de Vác não respeitaram a proibição do monarca. Por tradição cultural, foram até a igreja húngara e colocaram vários cadáveres de pessoas importantes por lá. Até que, em 1838, o local foi finalmente fechado.

A pequena catedral, então, caiu em esquecimento. Porém, a temperatura do local gelado, que varia de 8 e 11 graus, e sua alta humidade de 90%, permitiu um processo de mumificação natural.

A múmia de Terézia Hausmann / Crédito: Divulgação/Museu de História Natural da Hungria

 

Pode ter ajudado também as lascas de madeira colocadas no fundo dos caixões, que absorviam fluidos corporais, e os agentes antimicrobianos naturais da resina de pinheiro dos caixões. Os órgãos internos, desse modo, ficaram quase intactos, permitindo o rastreio das bactérias de tuberculose. 

As múmias foram transferidas até o Museu de História Natural da Hungria. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a doença bacteriana que as aniquilou hoje ainda mata 4,5 mil pessoas todos os dias no mundo, segundo dados de 2019. A resposta para novos tratamentos contra a tuberculose podem estar na paleomicrobiologia, o fascinante estudo de como os micróbios atuaram no passado. 


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