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O mundo para desfrutar: A religião e o nascimento da ecologia

A consciência ambiental teve de enfrentar a ideia enraizada de que o mundo foi criado por deus para ser explorado pela humanidade

Thiago Cordeiro Publicado em 01/02/2019, às 13h00

Entenda
Entenda - Wikimedia Commons

Com a crise que hoje em dia enfrentamos - como crimes ambientais e desastres ecológicos que acontecem atualmente no Brasil a fora, é importante explorar e conhecer o surgimento dessa política do meio ambiente. E é uma longa história.

Em 2700 a.C., os governantes da cidade de Ur, na Mesopotâmia, decretaram que algumas florestas não poderiam mais ser exploradas. A vegetação da região, atual Iraque, era importante para a realização de rituais religiosos. Para os habitantes de Ur, os deuses eram considerados os proprietários das terras e as oferendas a eles eram realizadas nos bosques.

Embora o motivo não fosse lá tão ecológico, essa foi a primeira ação em favor da preservação da natureza de que se tem notícia. Vários séculos depois, no ano 80, os romanos começariam uma discussão que soa bastante atual. Eles determinaram que, nos períodos de seca, os cidadãos deveriam seguir regras para evitar a poluição da água. Uma delas era impedir que os dejetos pessoais fossem jogados nos rios.

A partir de 1600, com a era dos descobrimentos, alguns dos europeus que visitavam as colônias nas Américas se diziam preocupados com a exploração sem limite das florestas. Entretanto, eles eram uma minoria sem força para mudar a política das metrópoles. Até porque o (ab)uso dos recursos naturais era justificado por pensadores influentes.

Mudanças

Francis Bacon Wikimedia Commons

Em 1692, o filósofo inglês Francis Bacon escreveu a favor do domínio total da nossa espécie sobre o planeta: “Se o homem fosse retirado do mundo, todo o resto da natureza pareceria extraviado, sem objetivo ou propósito”.

Em 1728, o compositor inglês William Byrd afirmou que os macacos e os papagaios foram criados por Deus com o único objetivo de “oferecer contentamento ao homem”, e o naturalista britânico George Owen defendia que a lagosta foi criada por Deus para nos servir como alimento e exercício, porque é preciso quebrar suas patas e pinças. O cenário só mudou a partir do século 18, quando a Revolução Industrial inglesa começou a degradar as terras europeias. “Sempre existiram pensadores que argumentaram em favor da natureza”, afirma o historiador José Augusto Pádua, coordenador do Laboratório de História e Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas foi só no começo da Revolução Industrial que teve início um período de transição em direção aos movimentos organizados que existem hoje.”

A casa no lago

Lago Walden Wikimedia Commons

No começo, a ecologia foi um movimento conceitual, que só inspirava uma minoria letrada. Em 1791, o naturalista americano William Bartram publicou o influente Travels, relato de uma viagem de cinco anos da Flórida até o Mississippi, em que catalogou todas as espécies animais que encontrou pelo caminho. Em 1784, o estadista americano Benjamin Franklin pediu aos governos da França e da Alemanha que trocassem a lenha pelo carvão, para evitar a derrubada de árvores. No fim do século 18, o poeta britânico William Wordsworth escreveu que a Revolução Industrial era “um ultraje à natureza” e acabaria com o ar puro. Em 1824, o físico francês Jean Baptiste Fourier pela primeira vez defendeu o conceito de efeito estufa – embora não usasse essa expressão.

O maior marco dessa fase intelectualizada do ambientalismo foi Walden, o livro do linguista americano Henry David Thoreau publicado em 1854. Durante dois anos, dois meses e dois dias, Thoreau viveu em um bosque às margens do lago Walden, em Massachusetts. Ali ele passou os dias em contato com a natureza, caminhando, lendo e plantando seu próprio alimento.

O livro, que relata essa experiência, provocou grandes caravanas de americanos em busca do lago Walden. Nele, Thoreau lança um dos conceitos chave do ambientalismo: o de que a natureza tem o direito adquirido de ser mantida do jeito que é. Ainda hoje é considerado o avô da ecologia – apesar de o termo só ter surgido 12 anos depois, em 1866, quando o anatomista e zoólogo alemão Ernst August Haeckel defendeu a necessidade de uma ciência da natureza.

Nova influência

Yosemite National Park, Califórnia Wikimedia Commons

A partir de Walden, os americanos sempre foram os pensadores e ativistas mais influentes do movimento ambientalista – logo eles, que já se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto, que regulamentou a emissão de gases danosos à atmosfera. Em 1892, o naturalista escocês John Muir criou, em São Francisco, o Sierra Club, o primeiro grupo ambientalista da história. Graças aos esforços de Muir, em 1890 o governo americano inaugurou um dos primeiros parques nacionais do mundo, o Yosemite National Park, na Califórnia. Nos anos seguintes, Austrália, Nova Zelândia e Canadá seguiram o exemplo. Também nessa época começaram a surgir os grandes parques dentro das metrópoles. Seguindo o exemplo pioneiro do imperador francês Napoleão III, que transformou as matas do Bois de Boulogne em parque parisiense em 1852, Nova York garantiu a construção e preservação do Central Park em 1873.

A defesa da natureza ganhava espaço na sociedade ocidental rapidamente. Em 1913, o zoólogo americano William Hornaday escreveu Our Vanishing Wildlife (“Nossa vida selvagem desaparecida”), chamando atenção para o risco da extinção de espécies animais por causa da ação humana. Isso um ano antes de Martha, a única da espécie de pombo passageiro viva no mundo, morrer no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos: a espécie fora destruída pela caça e domesticação forçada. Na mesma época, grupos de cidadãos americanos se organizaram para pedir a preservação do bisão, que parecia seguir pelo mesmo caminho.

Duas guerras mundiais e um período de depressão econômica entre elas desaceleraram o processo ecológico – até 1949, quando surgiu o livro mais importante da história do conservacionismo. O Sandy County Almanac (“O almanaque de Sandy County”), do ambientalista americano Aldo Leopold, defendeu uma “ética da terra” e estabelece regras para o convívio saudável do homem com a natureza. A principal delas: “Uma coisa é certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. Caso contrário, é errada”.

Sexo, drogas e verde

Mas a ecologia só ganhou mesmo a boca do povo a partir da década de 60. O livro que estava na cabeceira dessa nova geração era Primavera Silenciosa, lançado em 1962 por outra americana, a bióloga marinha Rachel Carson. Nele, ela provava que pesticidas e inseticidas, antes considerados uma solução milagrosa para a agricultura, estavam envenenando todo o meio ambiente, solo, águas e animais. Com um texto apaixonado, ela argumentava que, com a morte dos insetos por causa da intoxicação da água, as aves não teriam mais alimento e também morreriam.

O ex-presidente John F. Kennedy mandou investigar as acusações de Rachel e, em 1972, vários produtos químicos usados nos inseticidas, como o DDT, foram banidos. Sucesso de vendas, Primavera Silenciosa ensinou às pessoas comuns que o ser humano é capaz de provocar sérios danos ao ambiente. A partir do livro de Rachel, ficou impossível ignorar o problema da preservação do planeta. Em 1971, surgiram os dois primeiros grandes grupos ambientalistas civis, o Greenpeace e o Friends of Earth. No ano seguinte, a Organização das Nações Unidas realizou, em Estocolmo, na Suécia, a primeira grande reunião intergovernamental para discutir o assunto.

No fim da Conferência sobre o Desenvolvimento Humano surgiu o Programa de Meio Ambiente da ONU, e 113 nações se comprometeram a resolver seus problemas locais – a Suécia, por exemplo, começou a agir contra a chuva ácida e o Japão iniciou um programa de despoluição de sua costa. No decorrer da década de 70, alguns grupos ambientalistas começaram a se dividir em facções. As menos radicais defendiam a exploração dos recursos com bom senso, para que eles não acabem tão cedo.

Os ecologistas mais radicais se inspiram no livro Gaia, publicado em 1979 pelo ex-cientista da Nasa James Lovelock, que descreve o planeta como um organismo único, em que cada ser vivo é tão importante quanto qualquer outro. Foi também nesse ano que a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos realizou o primeiro estudo consistente sobre o aquecimento global, o assunto que se tornaria a maior obsessão de organizações não-governamentais e governos a partir da década de 90. Nos anos 80, a ecologia entrou de vez para a política. Surgiram os principais partidos verdes do mundo. O primeiro deles foi o alemão, criado em 1980, que ficou famoso por sua luta contra as usinas nucleares. Foi também nessa década que os grupos civis começaram a ganhar estrutura de grandes empresas multinacionais.

Alcance global

Exploração do Pau Brasil Wikimedia Commons

Nosso país é alvo de manifestações ambientalistas esparsas desde o começo da exploração do pau-brasil, ainda no século 16. Um dos patriarcas da independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, foi um dos defensores mais fervorosos da preservação da natureza nacional.

Em 1861, o Rio de Janeiro sofria com a falta de água causada pela devastação das árvores para a exploração de madeira e plantações de cana-de-açúcar e café. Sem as árvores, o terreno sofria desmoronamentos com as chuvas e a lama atingia os mananciais que abasteciam a cidade. Dom Pedro II mandou então replantar a Floresta da Tijuca inteira. Já em 1934, o país realizava a Primeira Conferência Brasileira de Conservação da Natureza.

Mas foi em junho de 1992 que o país entrou definitivamente para a história do ambientalismo. Na Eco 92, como é conhecida a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, discutiu-se sobre biodiversidade, desertificação e mudanças climáticas. Surgiu ali também a Agenda 21, o compromisso para que cada país elabore seu próprio plano de preservação do meio ambiente.

A partir da Eco 92, a ecologia ficou mais parecida com os mercados financeiros: o país não pode fazer o que bem entende, precisa obedecer a algumas regulamentações internacionais. Foi só por causa desse evento que se tornou possível estabelecer, cinco anos depois, o Protocolo de Kyoto. “Foi na década de 60 que a sociedade parou de se preocupar com a conservação de uma espécie animal e vegetal específica e começou a pensar no problema mais amplo do ambientalismo”, diz José Augusto Pádua. “Mas foi com a Eco 92 que essa preocupação se transformou em um programa global, com metas claras estabelecidas para cada nação.”