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Embate histórico: a controversa entrevista de H.G. Wells com Josef Stalin

"Não acredito na bondade da burguesia": Em uma conversa rara no ano de 1934, líder soviético falou sobre seus pensamentos sobre a divisão do mundo e o capitalismo

Isabela Barreiros Publicado em 13/11/2020, às 12h30

O líder soviético Joseph Stalin
O líder soviético Joseph Stalin - Wikimedia Commons

Em 27 de outubro de 1934, o escritor britânico H.G. Wells realizou uma entrevista com o revolucionário soviético Josef Stalin, na própria União Soviética. Ao final da conversa, Wells afirma que foi ao país especialmente para vê-lo, e que havia ficado muito satisfeito com o encontro dos dois.

O autor, no entanto, não gostava da figura política do comunista. Posteriormente à publicação do ensaio, disse que havia encarado a tarefa de entrevistar uma das mais importantes e controversas figuras do socialismo russo com preconceito.

De acordo com Wells, Stalin era um ”fanático egocêntrico e muito reservado, um déspota sem vícios, um ciumento monopolizador do poder”. Por meio dessa descrição, é possível perceber a falta de afinidade que os dois provavelmente teriam em sua conversa.

Stalin em uma de suas aparições políticas / Crédito: Divulgação/Klimbim

 

A entrevista foi recuperada pelo jornal Folha de S. Paulo e publicada no dia 2 de janeiro de 1998. Ela incorporou um especial feito pela publicação que tinha como intuito reunir conversas que foram importantes para o mundo em um segmento que chamaram de “Entrevistas Históricas”, impressa no caderno Mundo. Em 2018, a Folha disponibilizou-a virtualmente em seu portal.

Quando o relato foi publicado, ainda na época, causou diversas reações — tanto positivas quanto negativas em relação a Stalin e ao próprio entrevistador. Segundo o escritor irlandês George Bernard Shaw, ”Stalin escuta Wells com atenção e seriedade, respondendo com exatidão. Wells não escuta Stalin. Limita-se a esperar com resignada paciência que termine de falar para voltar a emitir opinião. Não está ali para aprender nada de Stalin, mas para ensinar-lhe algo”.

Wells começa a entrevista dizendo-se grato por ter sido atendido pelo tão ocupado político soviético. “Meu objetivo aqui é perguntar o que o senhor está fazendo para mudar o mundo”, fala o autor, iniciando a entrevista. Stalin responde de maneira curta: “não estou fazendo grande coisa”.

Ultrapassando o papel de entrevistador, o britânico rebate os pontos de vista expostos pelo revolucionário. O comunista inicia sua argumentação: “Por um lado, temos uma classe que possui bancos, minas, transportes, plantações nas colônias. Para essa gente, não existe outra coisa além de seu próprio interesse. Não se submete à vontade do coletivo, mas luta para subordiná-la aos seus desejos. Por outro lado, temos a classe dos despossuídos, dos explorados, que não possui fábricas ou bancos, que tem de sobreviver vendendo sua força de trabalho aos capitalistas e não tem meios para satisfazer as suas necessidades mais elementares. Como é possível conciliar interesses tão diferentes?”.

Crédito: Getty Images

 

Mas o historiador o rebate, e não faz pergunta alguma. “Protesto contra essa classificação simplista da humanidade em pobres e ricos. Existem muitas pessoas competentes que reconhecem que o atual sistema é insatisfatório e que desempenharão um importante papel na sociedade capitalista do futuro”, defende.

“Vejamos, o senhor rejeita como simplista a divisão da humanidade em pobres e ricos. [...] Acima de tudo, os homens se dividem em ricos e pobres, em proprietários e explorados. Passar por cima da luta entre as classes principais significa negar o evidente. A batalha começou. Seu resultado será determinado pela classe trabalhadora”, continua Stalin.

Os dois continuam, ao longo da entrevista, debatendo a questão da classe trabalhadora e a burguesia ao redor do mundo. Stalin defende que os operários sejam os protagonistas das mudanças; Wells afirma que existe a possibilidade de conciliação entre todos.

“A transformação do mundo é um processo complicado e doloroso para o qual se necessita uma grande classe. Só os grandes barcos realizam longas viagens“, afirma o soviético. E dá-se um embate. “Sim, mas para uma longa viagem é preciso um capitão e um navegador”, responde Wells. E Stalin continua: “Muito certo. Mas, antes de tudo, temos que dispor de um grande barco. O que é um navegador sem um barco? Um inútil”.

“O barco é a humanidade, não uma classe”, confronta o britânico. “Evidentemente, o senhor pressupõe que todos os homens são bons. Eu, ao contrário, não esqueço que existem muitos homens malvados. Não acredito na bondade da burguesia”, conclui o político.


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