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"Não estamos prontos para uma democracia": conheça Moussa Traoré

Ditador faleceu hoje, 15, e foi um dos militares a ficar por mais tempo no poder do Mali

Caio Tortamano Publicado em 15/09/2020, às 17h46

Ex-ditador do Mali, Moussa Traoré
Ex-ditador do Mali, Moussa Traoré - Wikimedia Commons

Buscando uma formação militar, Moussa Traoré foi até Fréjus, na França, que até então tinha controle sobre o seu local de nascimento, a colônia de Mali, na África. Se formou na academia francesa até voltar em 1960 ao seu país, que havia recém-proclamado a independência.

No ano seguinte ao seu retorno foi promovido para segundo tenente, e dois anos depois já era tenente pleno. Seu trabalho na patente era participar da formação e instrução de grupos militares africanos que estavam atuando em função da independência.

Golpe militar

Engolobando o exército há tanto tempo, Traoré fazia parte do grupo que tinha como intenção retirar do poder o então presidente, Modibo Keita. Ele assumiu a presidência assim que o país se tornou independente, mas tinha pensamentos e alinhamentos socialistas, contrários a alta cúpula militar maliana.

A importância de Moussa entre os membros do exército era gigantesca, sendo visto como um grande libertador. Assim, se tornou presidente do Comitê Militar de Liberação Nacional, que depois do golpe lhe concedeu o status de chefe de Estado. A partir de 19 de novembro de 1968, toda atividade política no país foi proibida, era tempo para que Traoré ficasse no poder, por mais de 20 anos.

Tutela militar

Censuradores começaram a controlar e avaliar o que era dito no ambiente acadêmico, majoritariamente composto por professores opostos ao controle ditatorial dos militares. Ao mesmo tempo, as medidas socialistas implementadas anteriormente por Keita foram dissolvidas pouco a pouco. 

Depois de diversos casos de corrupção, como o governo de Traoré desviando o dinheiro que países de todo o mundo doaram diante dos efeitos devastadores de uma severa seca que atingiu a nação durante 1972 e 1973, o presidente planejou fundar uma segunda república maliana em 1978, para segurar o poder por mais tempo, de maneira supostamente legítima.

Em 1979, ocorreram eleições presidenciais e legislativas, mas somente com um partido, a União Democrática do Povo Maliano (UDPM em sua sigla original). A UDPM foi fundada pelo próprio ditador, com o pretexto de ter um país que estivesse sob um regime democrático, e tendo somente Traoré concorrendo a presidência, foi eleito automaticamente para o cargo por um período de mandato de seis anos.

Sinais negativos

O ex-presidente Keita morreu enquanto estava exilado, mas sob circunstâncias duvidosas. Isso criou um alerta sob Traoré, que acreditava que seria o próximo alvo de um suposto novo golpe possívelmente orquestrado por seus ministros de defesa e segurança, Tiécoro Bagayoko e Kissima Doukara, respectivamente. Protegendo seu governo, prendeu membros do governo.

Em 1980, o país foi acometido com diversas manifestações estudantis que exigiam um exercício democrático no governo ditatorial do militar. Em resposta, o governo prendeu o líder desse movimento, Abdoul Karim Camara, que acabou morrendo em decorrência das torturas que sofreu.

Apesar disso, o governo mascarou o assassinato com novas políticas econômicas que visavam melhorar esse aspecto do país, portanto os anos de 1981 e 1982 representaram uma estabilidade para o ditador. Traoré aprovou planos para liberalizar o mercado de cereais do país, abrindo o cenário para empresas privadas investirem no Mali, além de um acordo com o Fundo Monetário Internacional.

O ex-ditador Moussa Traoré / Crédito: Divulgação - Youtube

 

Esse compromisso com o Fundo, entretanto, acabou não agradando o presidente e seus associados. Em 1990, as demandas de austeridade necessárias para o Fundo Monetário foram simplesmente ignoradas por Moussa. No contexto internacional, o multipartidarismo se tornou uma necessidade cada vez mais presente nos vizinhos africanos, alcançando, como consequência, o Mali.

Pressionado constantemente, Traoré cedeu alguns ideais democráticos, e permitiu a criação de veículos de imprensa livres e independentes, bem como novas associações políticas. Porém, o ditador afirmava que ainda não acreditava que o seu país "estava pronto para uma democracia".

Destituição

Em 1990, o recém-criado Congresso Nacional da Iniciativa Democrática, com a Associação de alunos e estudantes do Mali e a Associação Maliana de Direitos Humanos formalizaram oposição ao governo de Moussa Traoré, exigindo pluralidade política no país.

Formadas majoritariamente por estudantes, manifestações tomaram conta da capital Bamako. Os manifestantes saquearam negócios e casas de pessoas associadas ao regime de Traoré. Em março de 1991, porém, uma dessas manifestações foi dispersa de maneira violenta por autoridades, resultando em aproximadamente 300 mortes.

Quatro dias depois, o comandante da guarda presidencial, o Coronel Amadou Toumani Touré, prendeu o presidente e o destituiu do poder em um golpe. Um Comitê de Transição foi montado, resultando numa democracia no ano seguinte.

Coronel Amadou Toumani Touré, que seria eleito presidente anos depois / Crédito: Wikimedia Commons

 

Traoré foi condenado a morte pela repressão violenta às manifestações de 1991, mas não chegou a ser executado. Faleceu hoje, 15 de setembro, aos 83 anos de idade por causas ainda não reveladas pela família. 


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