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Naram-Sîn, o rei que se achava um deus

O rei acadiano que desestabilizou seu governo falando que era um deus

André Nogueira Publicado em 18/03/2019, às 10h24

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Estela de Naram-Sin, Museè du Louvre

Por maiores que sejam as semelhanças culturais, políticas e sociais, e mesmo com a considerável proximidade geográfica, é muito importante recordar que há diferenças marcantes entre o mundo sociopolítico do Egito e da Mesopotâmia na antiguidade. A principal delas é referente ao status do governante principal desses lugares.

No Egito, unificação de dois reinos num único governo, o faraó, governante principal e mandatário supremo, é um deus. Isso não é uma realidade no mundo mesopotâmico, em que o governante (patesi) não possui atribuição de deus, mas seu poder é tratado como de origem divina. Ou seja, diferentemente da realidade faraônica, na Mesopotâmia, o poder é deificado, mas o monarca, não.

Porém, alguns casos específicos da história, há excessões que se destacam e que possuem drásticas consequências. Uma delas é o governo do jovem rei da Acádia, Naram-Sîn.

Mas afinal, de onde vem o poder dos mesopotâmios?

Pioneiros históricos das sociedades complexas e do Estado, a Mesopotâmia não foi unificada num único reino como foi o Egito, e a região era uma malha de reinos e impérios em disputa. O poder dos monarcas nessa região era profundamente marcado pelas propriedades místicas do mundo religioso e muitas estruturas sociais eram marcadas pelas justificativas mitológicas da realidade.

Segundo textos religiosos desde a Suméria, o poder dos reis tem origem num conflito ocorrido no mundo dos deuses. De acordo com eles, antes da origem da humanidade, os deuses eram divididos em dois grupos: de um lado os Annunaki, deuses grandes e principais, governavam o mundo e regiam a natureza; do outro, os Igigu, deuses menores, que eram os servos dos Annunaki.

Enquanto os dois grupos agiam de acordo com seu propósito, o mundo entaria em Ordem. Porém, infelizes com a hierarquia que os inferiorizavam, os Igigu organizam um movimento e param de trabalhar para os Annunaki, protestando por poderes e liberdades. Diante das exigencias, os Annunaki sabem que, se a situação não for resolvida, as forças do Caos poderão dominar o mundo conhecido e destruir seu legado de Ordem. Não conseguindo uma trégua com os Igigu, Anu, deus ligado ao céu e pais de todos os Annunaki, idealiza a criação de seres que substituiriam os Igigu na manutenção dos trabalhos na Terra e aliviariam, assim, os esforços dos deuses menores, dando origem aos seres humanos ("cabeças pretas") e fazendo-os povoar o mundo. 

Diante da nova realidade, a principal tríade de deuses desse panteão - Anu, Enki e Ea - criam a figura do Rei, posição com contato direto com o divino e que receberia a missão de representar a busca pela Ordem mundana prometida pelos deuses, e o estabelecimento de uma organização do mundo material com o divino e o religioso.

Portanto, não sendo em si um deus, o monarca mesopotâmico é um reponsável pelo prosseguimento e organização das esferas da sociedade (a política, a produção agrícola, a atividade templária, etc.) a partir de uma autoridade fornecida pelos deuses e através do artifício da Ordem (também num sentido ambíguo, como no portugês, significando tanto o proferir de mandamentos imperativos quanto a harmonia do mundo).

Quando o rei acha que é deus

A Acádia foi o primeiro reino da Mesopotâmia a empreender uma campanha de dominação de toda a região e se tornar um império. Isso ocorre na mão de seu fundador dinástico, Sargão da Acádia, que deixa ao seu sucessor um império que ia da Suméria aos reinos de Mari e cuja estabilidade política era considerável. Isso mudará na mãos de seu neto, Naram-Sîm, rei a partir de 2255 a.C..

O principal dado que nos permite concluir essa mudança está no modo como os monarcas retratam suas vitórias militares.  

Sargão costumeiramente é retratado no ato da caça (representação comum e que atingirá seu ápice na representação régia na Assíria), representando ao mesmo tempo destreza, estratégia e força, atributos relevante a um monarca.

Enquanto isso, a famosa Estela da Vitória de Naran-Sîn (atualmente no Louvre), por mais deteriorada que esteja, nos permite perceber um detalhe extremamente relevante na representação imagética do rei: em seu capacete, é entalhado um par de cornos. Num primeiro momento, pode aparentar ser irrelevante ou até engraçado, mas quando analisamos as tradições imagéticas nessa sociedade, percebemos algo escandaloso.

Os cornos (ou o capacete cornado) é um artifício para distinguir numa imagem a presença de um deus. É comum ver nas representações de deuses como Anu, em cilindros desenhados, ou Šamaš, por exemplo no Código de Hammu-rabi, com cornos fixos ao capacete.

Sabendo que são os próprios reis que ordenam a construção, por exemplo, de uma estela para celebrar conquistas militares (como é o caso da pedra entalhada citada acima), fica marcada a tentativa de Naram-Sîn de ser considerado um Deus, à maneira como o faraó era retrado no Egito. O grande problema político desse ato é o conflito que se cria com a tradição política local e suas intituições. Ou seja, quando Naram-Sîn se declara deus, em contradição com toda a cultura religiosa acadiana até então, ele está também declarando guerra com os representantes oficiais do mundo religioso, os sacerdotes.

Por mais que desde a formação da Acádia o palácio real tenha criado autonomia e poderes sobre as intâncias religiosas, o Templo nunca deixou de ser uma instituição de grandes poderes e criar um conflito com o sacerdócio gerou grande instabilidade para o governo de Naram-sîm. Seus atos heréticos feriam o pacto místico criado entre a dinastia real e os Annunaki, abrindo espaço para a quebra da tradição de Ordem, cuja responsbilidade é do rei.

Portanto, numa visão templária, Naram-Sîn era um perigo para o futuro da Acádia e para a estabilidade do mundo. Seu impacto foi tanto que demorou para outro monarca mesopotâmico ousar referir-se como deus novamente. Mas também foi suficiente para implodir a dinastia sargônica e fazer da capital do reino não mais Akkad, mas Ereque (onde foi Uruk, na Suméria), depois de sua morte.