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Narrativas silenciadas: os bastidores da abolição da escravatura no brasil

Em entrevista ao site Aventuras na História, o pesquisador Matheus Gato, refletiu sobre a participação das camadas populares no processo de abolição no Brasil

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 13/05/2021, às 10h02

O dia da assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial
O dia da assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial - Domínio Público, via Wikimedia Commons

O dia 13 de maio de 1888 ficou marcado na História como a data em que a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, sancionou a Lei Áurea, que concedeu liberdade aos escravizados do Brasil. 

A partir desse dia, a escravidão foi oficialmente abolida no país. Contudo, esta data deve-se principalmente a luta do movimento negro da época, que reivindicou arduamente pela liberdade do seu povo. 

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, Matheus Gato, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp, revelou os bastidores por trás do dia 13 de maio de 1888.

Os contos de Astolfo Marques

Matheus Gato é autor da obra “O Massacre de Libertos: sobre raça e república no Brasil” e organizador do livro “O Treze de Maio: e outras estórias do pós-Abolição”, de Astolfo Marques.

De acordo com o especialista, a partir dos contos de Astolfo Marques é possível compreender a importância e participação das camadas populares no processo de abolição da escravatura.  

Representação de alguns políticos do Império / Crédito: Alfredo Rigaud / Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

“Os contos do Astolfo Marques enriquecem a nossa interpretação do processo de abolição, na medida que ele apresenta uma visão de um intelectual negro narrando esses acontecimentos. Muito da visão que está ali, a gente pode dizer, que é uma visão que condensa os sentimentos e interpretações populares sobre o 13 de maio e a abolição. Uma das coisas que ele destaca, por exemplo — como o conto "O 13 de maio", que dá o título a nossa coletânea — é a importância dos movimentos sociais e da mobilização civil para a libertação das pessoas”, disse Gato.

Segundo o escritor, Astolfo Marques constantemente reforçava em seus textos a participação das camadas populares neste processo. Dentre um dos exemplos, ele cita a atuação de delegados que se recusavam a caçar pessoas negras que tinham fugido.

“Ele revela o modo como às pessoas negras passaram a lidar com o 13 de maio depois da abolição. Isso ficou muito evidente, como a Proclamação da República alterou o significado do 13 de maio”, explicou o professor.

Para Matheus Gato, o simbolismo de Astolfo Marques para a atualidade é de extrema importância, uma vez que mostra a atuação da intelectualidade negra desde o século 19.

“Ele coloca uma pulga atrás das nossas orelhas, no sentido de: ‘Que mais narrativas foram silenciadas?’, ‘O que a gente não ouviu?’, ‘O que mais falta pesquisar?’. Por outro lado, Astolfo Marques nos permite questionar outros aspectos anônimos da História oficial, ou seja, ele nos oferece alternativas para imaginar a comunidade nacional”, indagou ele. 

O papel da Princesa Isabel

O especialista explica que a Princesa Isabel assinou a chamada Lei Áurea, após ser pressionada pelos movimentos sociais. 

Na época, houve fugas em massa e desobediência civil. Além disso, existiam quilombos abolicionistas que abrigavam em seus lares pessoas fugidas desse cruel sistema. 

Retrato da Princesa Isabel / Crédito: Insley Pacheco (1830-1912) / Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Segundo o professor da Unicamp, Isabel foi fortemente pressionada pela sociedade. Era comum nos jornais abolicionistas se deparar com matérias contra o sistema escravocrata.

“Eu penso que a Princesa Isabel ganhou em algumas narrativas, como o protagonismo, na construção dessa narrativa que podemos chamar de concessão, que é comum no Brasil. Isto é, uma narrativa em que os direitos do povo brasileiro nunca são conquistados, mas eles são sempre uma benevolência das elites e do Estado”, analisou Matheus Gato.

Visão da família imperial 

De acordo com as pesquisas minuciosas levantadas pelo especialista, a família imperial encarou a Lei Áurea com medo e expectativa. 

“Medo porque eles sabiam que estariam ferindo os interesses fundamentais para a legitimidade da monarquia, atingindo a classe senhorial, ou seja, os grupos que davam suporte para a monarquia”, disse. 

Por outro lado, a família imperial encarou a abolição da escravidão com certa expectativa, pois era visto como um processo de renovação da sociedade brasileira e de um futuro terceiro reinado, com a Princesa Isabel como regente.

Pós-abolição 

De acordo com Matheus Gato, o período pós-abolição foi um momento muito complexo. Devido às diferenças regionais em cada lugar o processo aconteceu de maneira particular. 

“O processo de pós-abolição foi marcado pelo processo de internacionalização, ou seja, o que a gente assiste é uma sociedade dividida entre senhores e escravos, se transformando em uma sociedade dividida entre negros e brancos. As classificações passam a ser usadas como armas simbólicas, no sentido de restringir a liberdade conquistada no 13 de maio", disse ele.

Matheus Gato explicou que a partir da abolição, diversos direitos que as pessoas negras já haviam conquistado, passaram a ser ainda mais desvalorizados. Por outro lado, essas pessoas não possuíam artifícios materiais para assegurar esses direitos sociais. 

“Uma nova compreensão do 13 de maio pode começar problematizando essas duas narrativas: a história como a concessão e dádiva da família imperial e do Estado. Já a outra que está presente na política brasileira dos movimentos negros, desde a segunda metade do século 20, que é da abolição como farsa e mentira. Acho que a gente precisa problematizar essas duas narrativas”, disse ele.

Para o especialista, é fundamental compreender as nuances por trás do dia 13 de maio e da Lei Áurea, questionando essa ideia de liberdade a partir do período pós-abolição. 

“As formas de imaginar o passado são colocadas em risco e em jogo na vida social. Isto é, na hora de realizar uma política pública afirmativa no Brasil, na hora de criminalizar o racismo, as pessoas partem de certa imaginação sobre o passado. Então transformar as condições na qual a gente vive no presente, também implica nas formas que esse presente está sendo imaginado no passado”, concluiu Matheus Gato.


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