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Nero: O imperador celebridade

Neste dia, em 68, morria o mais cruel dos imperadores romanos. Conheça os seus momentos finais

Redação Publicado em 09/06/2019, às 08h00

Uma história repleta de crueldade e mitos
Uma história repleta de crueldade e mitos - Crédito: Reprodução

Cruel, insano, depravado? É pouco. Nero era um monstro. Foi para a cama com a mãe e mandou matá-la. Envenenou o meio-irmão, degolou a primeira esposa e chutou a segunda, grávida, até ela morrer. O imperador romano também castrou um liberto, vestiu-o de mulher e se casou com ele numa festa de arromba. Mas o problema mesmo era que adorava cantar e atuar em público, algo imperdoável para quem tinha o título de princeps (o Primeiro no Senado).

Em apenas 14 anos de governo (entre 54 e 68), Nero perdeu o apoio do Senado, dos magistrados, da terceira mulher e até de seu preceptor, o filósofo Sêneca. Aos 30 anos, ante um golpe de estado iminente, deu cabo da própria vida com uma punhalada no pescoço. Suas as últimas palavras: Qualis artifex pereo! (Que artista morre comigo!).

Isso é o que dizem Suetônio, Tácito e Cássio Dio, as principais fontes sobre Nero. Detalhe: todos eles representavam os interesses do Senado, ressentido pela concentração de poder feita pelo imperador e de sua aproximação com a plebe. E nenhum deles foi testemunha ocular dos episódios citados. 

Ele foi capaz de crueldades inimagináveis e provavelmente eliminou boa parte de sua família - o que, aliás, era uma praxe na dinastia júlio-claudiana. Mas não era o louco que nos pintaram, e sim um imperador que teatralizou a própria vida para atrair atenção do público. Tanto que, após seu suicídio, surgiram rumores de que não havia morrido - tal como um Elvis Presley dos tempos antigos.

Créditos: Getty Images

 

O declínio do Imperador

No ano de 67, Nero retornou a Roma aclamado pela multidão. Havia passado 1 ano e meio em "turnê", sem atinar para as revoltas que pipocavam em seus domínios. "A demora de Nero em enfrentar as revoltas foi vista pelo Senado como um sinal de fraqueza e perda de controle", diz o arqueólogo Darius Arya.

Em 68, o Senado declarou Nero "inimigo público" e apoiou a coroação do romano Galba. A partir daí, Suetônio e Cássio Dio imprimem na biografia do princeps um tom cada vez mais dramático: isolado, Nero fugiu de Roma e ordenou a seus homens cavar uma fossa. Gritou: Qualis artifex pereo! - traduzido como "que artista morre comigo!" - e se suicidou com um punhal.

"Os leitores modernos interpretam mal essa frase de Nero. Artifex, no grego de Dio, pode significar 'artista' no sentido de intérprete. Mas aqui o sentido é de 'artesão', afirma o professor da Universidade de Princeton Edward Champlin. "Nero estava coordenando a construção de sua tumba - uma simples fossa com fragmentos de mármore. E nesse momento alertou sobre o contraste entre o grande artista que havia sido e o lamentável artesão que se tornara. Nero não disse 'Que artista morre comigo!', e sim quase o oposto: 'Que artesão sou em minha agonia!'".

Ele se julgava um continuador da glória dos gregos e usava Roma e seu império como um grande palco para suas exibições. Claro, ele foi, sim, um tirano - possivelmente o mais cruel de sua dinastia. Mas sua necessidade de interagir com o povo o transformou em um tirano rockstar, alguém de quem a população gostava de ter notícia, de saber o que andava fazendo.