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Neste dia, em 1986, Brasil e Cuba reatavam relações

A simpatia por Cuba, estabelecida em 1906, durou até 31 de março de 1964, quando o golpe de Estado impôs o regime militar no Brasil

Valentina Nunes Publicado em 05/06/2019, às 10h00

Fidel Castro e Fernando Henrique Cardoso
Fidel Castro e Fernando Henrique Cardoso - Reprodução

As relações entre Brasil e Cuba, instáveis em determinados momentos da História, atingiram a maturidade comercial e política na primeira década do século XXI, convergindo para a consolidação do protagonismo dos dois países em importantes projetos de integração e regional. Cooperação simbolizada, por exemplo, pelo acordo para viabilização das obras de modernização do porto de Mariel, em 2014, executadas com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Primeiro terminal de contêineres do Caribe, o empreendimento gerou cerca de 156 mil empregos diretos, indiretos e induzidos no território brasileiro, e foi considerado elemento fundamental para a inserção do país caribenho na economia global. A implantação ali da Zona Especial de Desenvolvimento estimulou a instalação de empresas brasileiras na região.

De acordo com dados do Ministério do Comércio Exterior brasileiro, de 2003 a 2013 os negócios blaterais entre Brasil e Cuba cresceram praticamente 580%, de 91,99 milhões de dólares para 624,79 milhões de dólares. No mesmo período, as exportações brasileiras para Cuba aumentaram 736%, passando de 69,1 milhões de dólares para 582,17 milhões de dólares, enquanto as importações originárias da ilha caribenha cresceram 332%, de 22,38 milhões de dólares, em 2003, para 96,62 milhões de dólares, em 2013.

As relações diplomáticas entre os dois países foram estabelecidas em 1906, e reforçadas em 1959, quando o Brasil reconheceu o governo revolucionário de Fidel Castro, recebido em Brasília pelo então presidente da República, Juscelino Kubitschek. Em 1961, foi a vez de Jânio Quadros receber com honras de chefe de Estado o revolucionário Ernesto Che Guevara, condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

Em 1962, o governo brasileiro, já sob o comando de João Goulart, se absteve na votação que expulsou Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas nem sempre foi assim.

A simpatia por Cuba durou apenas até 31 de março de 1964, ano em que o golpe de Estado impôs o regime militar no Brasil e determinou o rompimento político e comercial com o regime comunista de Castro.

A situação só mudou a partir de junho de 1986, durante o processo de reabertura política no Brasil, com restabelecimento definitivo das relações entre os dois países, em 5 de junho, abrindo caminho para outras sete visitas do comandante cubano.

Em 1990, Fidel Castro esteve em Brasília, convidado para a posse de Fernando Collor na Presidência da República. Em 1992, participou da Conferência Internacional Sobre Meio Ambiente, no Rio de Janeiro. O líder da Revolução Cubana voltou ao Brasil em 1995, dessa vez para a posse de Fernando Henrique Cardoso, e em 1998, quando se encontrou também com Luiz Inácio Lula da Silva, que disputou e perdeu a eleição daquele ano também para FHC.

Em 2003, Fidel Castro finalmente pôde comparecer à posse de Lula, seu principal aliado político na América do Sul. Foi o início da parceria que uma década depois, já no segundo mandato da presidente petista Dilma Rousseff, deu origem ao programa Mais Médicos, a partir do segundo semestre de 2013, com a participação de 11 mil profissionais cubanos para suprir deficiências do Sistema Único de Saúde (SUS) em regiões carentes do Brasil.


Reportagem retirada do livro 365 dias que mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil, (p.330, 331).