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Nicholas Alkemade, o destemido sobrevivente de uma queda de 5.500 metros

Na Segunda Guerra, o britânico ficou conhecido por ter pulado de seu avião sem paraquedas e ainda sobrevivido aos soldados do Terceiro Reich

Caio Tortamano Publicado em 17/06/2020, às 07h00

O subtenente Nicholas Alkemade
O subtenente Nicholas Alkemade - Divulgação

Ir para uma guerra por si só já é uma experiência de vida das mais perigosas, o perigo constante e a sensação iminente de morte são vivências que até mesmo os soldados têm dificuldade de descrever. Porém, algumas práticas são um pouco mais assustadoras que outras, e, com certeza, Nicholas Stephen Alkemade passou por uma dessas histórias na Segunda Guerra Mundial que são difíceis de acreditar.

Era noite de 24 de março de 1944 quando Alkemade foi designado para um bombardeio da Força Aérea Real Britânica em Berlim. Na madrugada seguinte, poucas horas depois, com 21 anos, o rapaz que era atirador de cauda, ficava na parte de trás dos aviões e era responsável pela artilharia da nave.

A investida na cidade alemã foi um sucesso e estavam voltando para a Grã Bretanha, quando ele e seus seis companheiros de bordo começaram a ser atacados por um caça noturno de origem alemã. Rapidamente, o avião que pilotavam, um Avro Lancaster B Mk. II DS664, começou a cair e pegar fogo.

Avro Lancaster utilizado pelas forças britânicas na Segunda Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

Desespero

A cúpula onde ficava era extremamente pequena, e o fogo logo começou a consumir o lugar. A única saída era se ejetar do assento e contar com a ajuda de seu paraquedas para sobreviver a queda. Quando Nicholas olhou para trás, sua única salvação estava pegando fogo, e teve que tomar uma decisão macabra: teria que escolher entre morrer carbonizado na queda do avião, ou pelo impacto do seu corpo com o chão.

A escolha feita era pular sem o paraquedas, o piloto da aeronave, Jack Newman, e outros três tripulantes não conseguiram escapar do avião e morreram ao cair. Os outros dois conseguiram se salvar com o uso de paraquedas, e, impressionantemente, Nicholas caiu de uma altura de 5.500 metros e sobreviveu, sem nenhum equipamento.

Sobrevivente

Praticamente ileso. Era assim que o rapaz não podia acreditar que tinha simplesmente saído daquela situação. Claro, um joelho torcido e alguns arranhões mas, fora isso, não poderia estar mais satisfeito com o resultado completamente improvável da atitude suicida.

Quando caiu, galhos de pinheiros extremamente altos e a neve fofa que cobria o chão da floresta onde estavam passando fizeram o trabalho de suavizar o contato do atirador com o solo. Conseguia mexer seus braços e pernas, e só foi perceber que tinha queimado seu rosto e suas mãos muito tempo depois, a adrenalina que sentiu simplesmente inibiam qualquer outro sentimento que não fosse a gratidão por estar vivo.

A sensação foi descrita por Alkemade em um artigo que escreveu para um jornal pouco tempo depois: “sem nem ao menos me importar em tirar meu capacete e meu intercom, dei um pulo para trás ao encontro do céu noturno. Estava tudo muito quieto, o único som era o barulho dos motores do avião já longe, e não senti nenhuma sensação de queda, me sentia suspenso no ar.”.

Ele continua: “Os pensamentos que dominaram minha mente era por não conseguir chegar em casa vivo, até pensei uma vez durante a queda que não parecia muito estranho o fato que eu estaria morto dentro de alguns segundos.”.

Captura

Era sorte demais para uma só vida, três horas depois da queda, o rapaz foi encontrado por agentes da Gestapo que foram atrás dos sobreviventes do voo. Os alemães começaram o interrogatório ali mesmo, e Nicholas começou a explicar sua odisseia — com compreensível orgulho de si mesmo.

Os nazistas não conseguiam acreditar na versão do britânico e começaram a fazer chacota com o sobrevivente. Então Alkemade desafiou os alemães a encontrarem o suporte do paraquedas utilizado por ele, e quando viram que a história era verdadeira ficaram impressionados com a sorte do rapaz.

Após uma perícia na aeronave destruída, verificaram que o paraquedas não tinha sido acionado de verdade, e, curiosamente, os nazistas atestaram a façanha do homem por meio de um certificado reconhecido pelas forças do Terceiro Reich. Até ser repatriado, em 1945 — ao final da guerra —, Nicholas se tornou uma espécie de celebridade entre os prisioneiros de guerra, que sempre pediam para que ele contasse a fascinante história.

Sorte no resto da vida

Como se não bastasse a história do avião, depois de ter retornado da guerra, Alkemade conseguiu um bom emprego em uma indústria química, mas teve que sobreviver a três acidentes graves envolvendo químicos fortes, de irritação por contato físico até aspiração de gases tóxicos.

Sua vida intensa foi coroada com uma morte tranquila, por causas naturais em uma residência na sua terra natal, a pequena cidade de Loughborough, na Inglaterra, no ano de 1987.


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