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No banco dos réus da História: a saga dos bandeirantes

No Brasil, ações esparsas contra a memória de bandeirantes paulistas têm suscitado reflexões sobre o conflito entre exploração humana e dignidade heroica

Coluna - Odair Chiconelli Publicado em 08/12/2020, às 08h00

Figura de Domingos Jorge Velho, cuja indumentária idealizada por Benedito Calixto
Figura de Domingos Jorge Velho, cuja indumentária idealizada por Benedito Calixto - Wikimedia Commons

Iconoclastas em vários países investem contra monumentos inconsistentes com as biografias daqueles que homenageiam, buscando resgatar a verdade desconhecida ou distorcida pelos que escrevem a História oficial.

Quem eram esses paulistas?

Darcy Ribeiro os chamou de mamelucos rejeitados tanto pelos pais brancos, que os viam como impuros filhos da terra, como pelo povo de suas mães indígenas, que não valorizava os frutos da miscigenação com os portugueses.

Foi com essa carência de identidade que eles se transformaram em exímios capitães do mato, por um lado caçando e escravizando indígenas ; por outro, construindo as primeiras noções de brasilidade, em dicotomia intrínseca à sua própria condição.

Desde a segunda metade do século 16, a Coroa portuguesa organizava e financiava as chamadas “entradas”, cujo objetivo era aprisionar indígenas para serem escravizados, bem como encontrar pedras e metais preciosos.

Mais tarde, fazendeiros e comerciantes também passaram a financiar expedições com os mesmos objetivos, conhecidas como “bandeiras”. Raposo Tavares,Domingos Jorge Velho,Fernão Dias,Manuel Borba Gato e Bartolomeu Bueno da Veiga, o Anhanguera, foram alguns dos mais importantes bandeirantes.

As expedições saíam de São Vicente, São Paulo, Itu, Sorocaba e Taubaté em direção ao norte, sul e oeste do país. Estima-se, por exemplo, que a expedição chefiada por Raposo Tavares, entre 1648 e 1651, tenha percorrido de 10 a 12 mil quilômetros, de São Paulo até o forte de Santo Antônio do Gurupá, no atual estado do Pará.

Representação dos bandeirantes - Crédito/Divulgação

 

Longe do litoral, com uma economia de subsistência baseada no cultivo de milho, algodão, trigo, feijão e mandioca, além da criação de animais para consumo, os colonizadores de São Paulo de Piratininga utilizavam mão de obra escrava, seguindo o paradigma de conquistadores – desde o antigo Egito à moderna Bélgica.

Não apenas nas lavouras, mas também nos trabalhos de manutenção e limpeza da vila. Os indígenas eram também exportados para engenhos do Nordeste. Nas Actas da Câmara da Villa de São Paulo de 1585, oficiais solicitam ao capitão-mor da capitania autorização para organizar uma nova entrada devido à morte de 2 mil indígenas escravizados, vitimados pela varíola.

O requerimento esclarece: “(...) agora não há morador que tão somente possa fazer
roças para se sustentar quanto mais fazer canaviais, os quais deixam todos perder à míngua de escravaria (...)”, ratificando a dependência de um modelo que Portugal utilizava desde o século 15.

Com a união entre as coroas de Espanha e Portugal, entre 1580 e 1640, e a consequente invalidação do Tratado de Tordesilhas, houve uma intensificação do bandeirantismo. Embora a expansão geográfica e a fundação de novas vilas não fossem objetivos dos bandeirantes, entradas e bandeiras redundaram em ampliação significativa do território brasileiro.

Ataques

A partir de 1616, os bandeirantes passam a atacar missões jesuíticas, onde indígenas já aculturados e acostumados com rotinas de trabalho se tornam presas atraentes. Em Guairá, no atual estado do Paraná, 20 mil indígenas teriam sido mortos e outros 60 mil capturados para escravização, segundo o historiador Antônio de Toledo Piza.

Os ataques continuaram até 1641, quando os guaranis os derrotaram na batalha fluvial de M’Bororé, cujo sugestivo significado é “Guardião da Casa”. Como resultado dessa derrota, os bandeirantes passaram a se dedicar à busca de pedras e metais preciosos.

Em 1693, encontraram pepitas de ouro de coloração escura no córrego do Tripuí, próximo de Vila Rica (a atual cidade de Ouro Preto), que revelariam ser a ponta de uma grande massa do metal que se estendia até a atual cidade de Diamantina, entre as bacias dos rios Doce e São Francisco.

A mineração de ouro já era praticada entre o norte de Santa Catarina e a cidade de São Paulo, onde havia mais de 150 minas, segundo Nestor Goulart Reis, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Entre 1600 e 1820, a produção pioneira de São Paulo teria chegado a 4.650 arrobas, o que motivou a Coroa a instalar na cidade uma fundição e a primeira Casa da Moeda do país.

Entre 1700 e 1820, Minas produziu 35.687 arrobas de ouro, transformando o Brasil no maior produtor mundial. Grandes correntes migratórias de portugueses, brasileiros de outras regiões e milhares de escravos afluíram às regiões auríferas, desagradando aos bandeirantes que as haviam descoberto.

Em 1760, Vila Rica tinha 40 mil habitantes, enquanto Nova York tinha 20 mil e São Paulo contava com apenas 8 mil. Entre 1707 e 1709, ocorre a Guerra dos Emboabas, quando os homens de fora que buscavam ouro em Minas, emboabas em tupi, massacram grande número de bandeirantes e expulsam os sobreviventes, que partem em busca de novas jazidas nos atuais estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Vagando eternamente

No final da guerra, a Coroa cria a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, adquirindo a Capitania de São Vicente do Marquês de Cascais e fundindo- a com a Capitania de Itanhaém.

Como resultado da ação dos bandeirantes, essa capitania chegou a abranger os atuais estados de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia, além de São Paulo; o eixo econômico do país foi deslocado do nordeste para o sudeste com a exploração do ouro, e a administração central da colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763.

A nova riqueza criara uma pequena classe média composta por artesãos, profissionais das minas, artistas, comerciantes, militares, músicos e intelectuais. A necessidade de abastecer a região fomentara a criação de gado e a produção de outros gêneros alimentícios, dando início ao desenvolvimento de um pequeno mercado interno.

Demonstrando bravura e destreza no sertão, mas inclemência com indígenas, esses mamelucos despertaram o sentimento de brasilidade que seria fortalecido pelos inconfidentes e consolidado pelo Grito do Ipiranga, sujeitando-se, entretanto, a vagar eternamente entre o banco dos réus da História e o panteão dos heróis do Brasil.


O Colunista Odair Chiconelli é professor de língua inglesa e pesquisador de história.


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