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No Carnaval de 1989, a Igreja Católica proibiu que o Cristo Redentor fosse fantasiado de mendigo para o sambódromo

A Arquidiocese do Rio de Janeiro entrou na Justiça para proibir a Beija-Flor de realizar seu maior desfile da História

Wallacy Ferrari Publicado em 25/02/2020, às 11h47

Coberto por sacos de lixo, o Cristo mendigo da Beija-Flor era a alegoria mais alta daquele ano
Coberto por sacos de lixo, o Cristo mendigo da Beija-Flor era a alegoria mais alta daquele ano - Divulgação / CarnaRio

O lendário carnavalesco Joãosinho Trinta estava inspirado em 1989: No ano anterior, a escola de samba Unidos de Vila Isabel, concorrente da Beija-Flor que Joãosinho representava, havia recebido muitos elogios pela estética rústica e luxuosa. Isso o incomodou por duas coisas; a primeira, mais óbvia, seria a derrota pela concorrente; a segunda, seria elogios ao luxo em um país e, especialmente, uma cidade com tantos contrastes de desigualdade.

Joãosinho então decidiu que faria um desfile no ano seguinte sobre o convívio entre o luxo e o lixo. Com inspiração em uma mendiga, que viu em Londres e considerou elegantíssima, até chegar na Broadway, após assistir o musical Les Misérables, o carnavalesco preparou um desfile que conseguisse chocar, tendo como personagem principal de seu samba os moradores de rua.

Interpretado por Neguinho da Beija-Flor, o refrão do desfile Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia abordava a libertação noturna dos mendigos ao encontrarem o samba: “Sou na vida um mendigo/Da folia eu sou rei”. A construção no sambódromo era feita com fantasias recicladas simulando restos de objetos em desuso, divergindo com outra ala de personagem luxuosos, representando a elite.

A principal atração seria uma ideia do carnavalesco Laíla, em reunião com Joãosinho: um Cristo Redentor caracterizado como mendigo. “O país estava vivendo uma crise muito grande, na época. Eu falei para o João o seguinte: eu vejo um Cristo mendigo saindo de dentro de uma favela ou abraçando a favela para amenizar a dor do nosso povo”, afirmou Laíla em entrevista para a Globo.

O gigantesco cristo, maior do que as arquibancadas da Sapucaí, já estava pronto, mas esbarrou com uma polêmica; a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu uma liminar na Justiça para vetar o uso da imagem do filho de Deus. Justamente, em um desfile que buscava incluir todos os menos favorecidos como filhos de Deus. A solução, entretanto, foi igualmente polêmica, idealizada por Joãosinho.

Coberto de sacos plástico de lixo, Jesus Cristo entrou na avenida completamente inacessível, mas seus braços abertos puderam ser facilmente compreendidos. Por cima dos sacos, uma gigantesca placa em resposta a Arquidiocese com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”. A imagem, televisionada em rede nacional, marcou a história do carnaval carioca.

Os mendigos e outras figuras comuns nos subúrbios tomaram a avenida ao lado do Cristo coberto - Divulgação

 

No resultado, a Beija-Flor conseguiu 210 pontos e empatou com a Imperatriz Leopoldinense no primeiro lugar. A Imperatriz, com o samba-enredo de “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós”, conseguiu a vitória graças aos critérios de desempate.

Apesar de não ter levado o título, o desfile é considerado um dos maiores da história do Carnaval. O jurado Claudio Cunha, que tirou um ponto em evolução da Beija-Flor, afirmou em entrevista ao Extra em 2011 que, ciente do empate, se arrependeu de não ter dado um 10, dando a vitória ao desfile dos mendigos.


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