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No início do século 20, a esquerda brasileira era majoritariamente anarquista, não comunista

Antes do PCB e da Revolução Russa, as greves e manifestações no Brasil eram articuladas pelos anarquistas libertários, que discordavam dos comunistas

André Nogueira Publicado em 08/10/2019, às 09h30

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O anarquismo é uma doutrina política libertária do início do século 19, que teve seus anos de ouro entre essa época e os anos 20, inclusive no Brasil. O país já teve um forte movimento anarquista, fixado bem antes dos comunistas, que teve papel essencial em nossa história.

Apesar de, normalmente, o anarquismo ser associado à imigração europeia, isso é parcialmente verdadeiro. Os ideais libertários e insurreicionistas que definem o anarquismo brasileiro tem bases nos movimentos negros antiescravidão, que ocupavam fazendas e atacavam ricos. Com a chegada dos espanhóis e italianos, se deu corpo e nome às práticas anarquistas brasileiras.

O florescer do anarquismo, portanto, se dá na República Velha, nos princípios da industrialização. Essa ideologia teve lugar em centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, se concentrando em locais de exploração rígida do trabalho, como fábricas e portos, e sofrendo desde cedo grande repressão política e policial.

Greve Geral de 1917, organizada por anarquistas e com grande protagonismo feminino / Crédito: Reprodução

 

"No Rio de Janeiro, o primeiro registro de atividades anarquistas é de 1892, quando a polícia relatou reuniões de estrangeiros que procuravam difundir ideias libertárias entre os trabalhadores", relata a historiadora Edilene Toledo, da UNIFESP.

"Um exemplo de militante importante desse período em São Paulo foi o brasileiro Benjamim Mota, jovem advogado republicano que, de volta de uma viagem a Paris, fundou um grupo revolucionário e em 1897 aderiu ao anarquismo. No ano seguinte, escreveu um dos primeiros livros de autor brasileiro sobre as ideias anarquistas, Rebeldias".

Antes do final dos anos 1920, o anarquismo era quase hegemônico na esquerda antissistêmica brasileira. Foi só a partir do nascimento do PCB que a esquerda se moldou em volta dos ideais comunistas-marxistas, com um programa político e de campanha audacioso por parte dos simpatizantes bolchevistas.

Anarquismo não é comunismo

Embora sejam ambas correntes anticapitalistas, o anarquismo e o comunismo são grupos políticos diferentes e conflitantes. Apesar de consideráveis concordâncias, como o anticlericalismo, a defesa da abolição da propriedade privada e o compromisso com a distribuição da riqueza na sociedade, há temas táticos e filosóficos que criam uma cisão entre as ideologias.

O anarquismo é um grande defensor da extinção do Estado, o que já bota em cheque a noção marxista do socialismo. Porém, toda a construção política do anarquismo é baseada na noção de liberdade e autonomia, defendendo, portanto, a organização sindical autônoma, a criação de células particulares de decisão e o afastamento de atuações político-partidárias.

Isso vai de encontro com as convicções do comunista: em primeiro lugar, o Partido tem papel central na militância. Depois, os sindicatos não deveriam agir autonomamente, mas articulados em uma rede centralizada de caráter revolucionário. Também é defendida a transição socialista, marcada pelo Estado forte e ditatorial. A partir do projeto bolchevista, o anarquismo é encarado como obstáculo político, pois defendiam uma primazia dos conselhos regionais sobre as decisões partidárias.

Marx e Bakunin, ícones das duas ideologias que discordavam fortemente entre si / Crédito: Reprodução

 

Anarquista verde, amarelo e preto

"Quando se pensa no movimento operário na Primeira República brasileira, a prinicipal imagem difundida, a partir dos casos de São Paulo e Rio de Janeiro, é a do predomínio do anarquismo nos meios sindicais", resume Tiago B. de Oliveira em sua tese Anarquismo, sindicalismo e revolução no Brasil (1906-1936). O autor, porém, discute os níveis de influência entre os conjuntos políticos de esquerda no operariado urbano.

No Brasil, os anarquistas atuaram em diversas frentes. Desde o princípio do século 20, há jornais, revistas, livros e panfletos de células anarquistas pelo RJ, disseminando pelo país. Ao mesmo tempo, há um projeto, principalmente em São Paulo, de rearticulação e democratização do ensino, dado que na época a escola pública não possuía substancial investimento.

É o caso da Pedagogia Anarquista de José Oiticica, que formou escolas no ABC para a formação de trabalhadores alfabetizados, politizados e autônomos, baseado na noção de Escola Moderna da anarquista catalão Francesc Ferrer.

Ao mesmo tempo, o anarquismo e o sindicalismo revolucionário ocupavam as fábricas e formavam células de ação direta. O objetivo, antes de um projeto utópico, era a conquista de direitos e a melhoria da vida. Com isso, nascem os congressos anarquistas, a COB e a articulação para o que seria a onda de greves que tomou o país a partir de 1917, que não teve participação comunista significativa.

Escola Moderna de Porto Alegre / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, destaca K. Willian dos Santos em Paz entre Nós, Guerra aos Senhores, "como inclinação indispensável, o anarquismo deveria, para o militante, estabelecer formas de organização interna entre os grupos, mas, ao mesmo tempo, se associar com as entidades operárias e populares a fim de congregá-los contra as contradições do sistema social, referências consonantes também com as propostas anarquistas com recostos no sindicalismo em várias partes do globo".

Mas o que aconteceu com a Bandeira Negra?

Com o desenvolvimento de células comunistas no país, foi se criando oposições ao anarquismo dentro da esquerda. Os comunistas procuraram, desde cedo, disputar a hegemonia política dos anarquistas e se apropriar de práticas objetivas para adensar a base de apoio. Começou em 1922, quando, junto a dissidentes anarquistas, criou-se o Partido Comunista do Brasil, na onda do credenciamento aos marxistas estimulada pela vitória bolchevique na Rússia, em 1917.

Como os anarquistas eram muito passíveis à critica sobre falta de ação metódica e um projeto maior e sistemático na propaganda e organização do trabalho, passou-se a estimular a criação de outros núcleos libertários.

E, a partir de 1925, quando o PCB afrouxou relações com a Confederação Sindicalista Cooperativista Brasileira – alinhada ao governo desde Hermes da Fonseca – para reduzir a influencia anarquista nos sindicatos, os comunistas começaram a se apropriar de suas táticas, como a ação direta nas fábricas, incentivo às greves específicas e afastamento do discurso inflamado da revolução organizada e utópica.

Como o PCB era mais organizado e articulado politicamente, mesmo com a fragmentação das frentes de combate, o Partido foi ganhando maior hegemonia, a ponto de, nos portões dos anos 1930, a esquerda ser muito mais comunista que anarquista.

Astrojildo Pereira, dissidente anarquista e fundador do PCB / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com o aparelhamento dos sindicatos na Era Vargas e a abertura dada por Getúlio para os comunistas e integralistas no governo, o movimento anarquista brasileiro se desarticula e atinge níveis de desabilitação nunca superados, se dissolvendo e espalhando entre outros grupos e incluindo outras pautas.

É o caso do aumento de anarquistas nos Movimentos Estudantis do país e o foco nas ações de rua. É possível ainda ver o movimento atuando na oposição à Ditadura Militar, tendo forte papel na imprensa durante a Abertura e se manifestando contra a Copa do Mundo de 2014 e os governos petistas.